terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Ano novo, cara nova



Resolvi me repaginar nesse final de ano. Em 2010 serei uma nova mulher. Recauchutei tudo, dos pés à cabeça, mas foquei mesmo meus esforços estéticos no rostinho. Afinal de contas é ele quem dá as cartas e hoje em dia é mais importante do que qualquer outra manifestação pessoal, entenda-se por isso alguma personalidade, modo de vestir e falar, curiosidade por assuntos diversos, interesse por uma determinada área de conhecimento como, por exemplo, ai (suspiro de tédio com direito a olhinhos e cílios com rímel revirados para o alto), a filosofia. Não, bobinhos, nada disso é mais importante do que um bom lay out up do ano. Nada. Mas nada mesmo. Estou rindo de quem acha que pensar é mais importante. Ah, crianças. Pensar dá rugas!
Então aderi. Se não pode contra eles, una-se a eles. Já que moramos no império da imagem, que deixa roucas as outras vozes de expressão e impede, por exemplo, que as mulheres se rebelem contra complôs de fashionistas sádicos ocupados em torná-las adultas vestidas como crianças, babados frufrus e lacinhos em alta, achei melhor me render. Laissez faire, laissez passer, é o que manda até hoje a economia. Fui abduzida por eles, gente, mas adorei o resultado. Estou ou não estou mais bela, meninos?

Um 2010 repaginado para vocês também!

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Reta final





Como vocês já sabem, a minha fadiga de final de ano é algo assustadora. Tá difícil até de postar, gente! Por isso fiz uma eleição interna aqui e a poesia abaixo venceu o concurso das melhores poesias publicadas em 2009 na umbigolândia. Ganhou o direito de ser republicada e de ser enviada aos amigos por email. O que é uma grande honra, é claro.
Com ela deixo os meus melhores votos de felicidades para o próximo ano, assim como um desejo enorme de que o Papai Noel, desta vez, acerte todos os presentes.


Maresia tem nome
é esquina abrupta
que te abraça lambido
Névoa lânguida
que te molha disfarçado
Instância rarefeita
que resolve problemas
nem pensados
Nuvem disfarçada de riso
Água transmutada em prazer
Vida suada, pele grudada
De acontecer, anoitecer
e começar tudo de novo
seco-molhado
amanhã.

Feliz 2010, cambada!

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Um step na frente

Lembram do Leonardo Sandoval, o sapateador do Leblon?
Esteve ontem no Jô Soares!

Não é por nada não mas, como diria o jargão... eu furei o Jô!

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Jingle Bells

Todo ano é a mesma coisa. Dezembro chega com um cansaço inominável, uma fadiga daquelas de te jogar na cama e deixar os neurônios perdidos no travesseiro. Passo por isso há muitos anos. Já arrisquei várias explicações.

Uma delas é que sou freela há mais de dez anos e desde então não tenho férias regulares, o que me faz ver o final do ano como aquela época liberada ao descanso, com o calendário cheio de álibis como amigos ocultos, festinhas e so on. Então o corpo pensa ooobaaa e se joga na cama à minha revelia. O problema é que os meus contratantes não sabem disso e costumam ter o mau gosto de me passarem trabalhos meio urgentes nessa época. O meu cérebro não entende o contra-senso e fica muito perturbado. Revoltado e deprimido, não necessariamente nessa ordem.

Também já me disseram que a canseira pode ter algum fundo energético, porque essa é uma época em que as pessoas pensam muito na vida, se deprimem e se estressam com os preparativos das festas que deveriam servir para trazer paz. Vai saber.

O que sei é que ontem fiz ioga e cumpri com alguma glória vários exercícios que ainda não conseguia fazer completamente. Fui e voltei da invertida sobre os ombros com pernas esticadas e abdômen irrepreensível, compensei na postura do peixe tirando os braços do chão e sustentando o tronco com a força do cocuruto, sustentei o corvo por mais de dez milagrosos segundos, enfim, uma festa, quem é iogue sabe. Só ficou faltando dar uma força para os músculos, que sem um potássio básico depois da aula costumam reclamar. Some a isso uma dor de estômago causada pelos excessos do final de semana e entrei em colapso. No final do dia já me arrastava pela casa, curvada, sem saber onde acabava o estômago e começavam as costelas porque doía, negada, doía tudo junto.

Adernei. Levantei a bandeira branca. O fim do ano chegou.

Boas festas para vocês também.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Nós e os outros

Jill Taylor é neurocientista. Sempre senti um certo arrepio ao ler essa palavra, “neurocientista”. Porque, pensem bem, quem fala de um cérebro é sempre um...cérebro! Com as mesmas limitações, parcialidades e percepções enquadradas no espaço-tempo do cérebro analisado. Então o que posso pensar sobre o fora está, eureca, sempre dentro. Donde se palpita, ao menos aqui nos limites da minha patota interna, que a neurociência está mais para a ficção do que para a ciência, com a diferença que essa ficção pode ser muito objetiva e pontual. Uma historia muito bem contada, com muito estilo aliás, mas que não é capaz de explicar para uma célula o que é a dor funda da angústia no peito nem o azul sombrio da depressão, muito menos a suavidade brilhante e colorida da euforia.

Sim, um neurocientista explica usando termos químicos, e ouvimos falar sobre receptores de serotonina e sinapses nervosas. Mas, gente, vai explicar isso para a molécula! Vai sentir isso na alma! Vai convencer Rimbaud e sua célebre frase, “Eu sou um outro”! E Foucault, gente? “O ser humano é o que há de ser construído”, escreveu o sujeito. O equipamento humano, ele lembrava, é também uma construção filosófica. Como dormir com essa, crianças?

Bom, Jill Taylor conseguiu dar esse passo agregador e revolucionário. Deu um gigantesco pulo, emocionou-se e passou pelo grande abismo entre ciência e subjetividade motivada a passar suas descobertas adiante. Seu relato é científico até a medula mas também indubitavelmente humano. É simplesmente o depoimento que resume mais fielmente tudo o que ando pensando e sentindo sobre o mundo e a vida, esses pequenos detalhes que vamos deixando sempre para depois.
Não percam a oportunidade de assistir. Reservem um tempinho. Garanto que vale a pena.
Paz a todos.


TED pt_BR] Jill Taylor: Um derrame de lucidez (parte 1/3)
http://www.youtube.com/watch?v=ur7MsKQU0vk

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Andarilhos SA

O meu marido e eu agora dividimos o carro, o que quer dizer que de vez em quando um ou outro fica a pé. Hoje foi a minha vez. Como ele precisava das quatro rodas e a única coisa que eu precisaria fazer fora do meu home office (chique, isso) era ir ao supermercado (não tão chique), dei a vez. Decidi ir a pé. Seria bom mesmo fazer algum exercício aeróbico.

Meti a minha calça de yoga, um tênis e um boné, me alonguei, gritei há! e fui. Até o supermercado são mais ou menos vinte minutos de caminhada e o trajeto, em ruas residenciais e arborizadas, é dos mais agradáveis. Apesar do calor, foi um passeio gostoso e me perguntei por que não faço isso mais vezes. Ora bolas, porque é muito mais cômodo sentar a bunda no carro e ligar o ar condicionado.

Mandei entregar as compras e cheguei em casa cheia de orgulho de mim mesma. Não só por ter feito exercício, mas também por ter economizado um pouco de gás carbônico. Não seria bom se mais gente fizesse o mesmo? Então pensei, é claro, em fazer um livro sobre o assunto. Tenho muito pouca imaginação para pensar em outras coisas.

O livro seria um guia do andarilho e cada bairro teria o seu, com dicas dos melhores atalhos e rotas para os adeptos do tênis. Se o ciclistas já têm os seus clubinhos, por que não criar os clubinhos dos andarilhos? O projeto poderia ser patrocinado por marcas esportivas e uma consultora de moda poderia entrar em ação para atender as mulheres revoltadas com a falta de glamour da proposta. Ok, não dá para ficar linda e maquiada e perfumada e de salto alto assim, mas dá para fazer um charme com um bom shortinho e um par de tênis bacana, dá não? E afinal de contas, gente, essa vida de glamour 24 horas só existe nas novelas! Afe.

Agora só falta descobrir como passar do Jardim Oceânico para o Downtown a pé. Marido e eu já tentamos bater esse recorde mas paramos na altura do Hortifruti. Lá tem um balsa que atravessa o canal, mas seu uso é reservado apenas aos moradores do condomínio ladeado pelo mesmo. Decepção. Subir o viaduto ficou fora de cogitação. Aí é falta de glamour demais.

O bom de ser freelancer sem editor é poder ter essas idéias de publicações variadas e não precisar levá-las adiante. A não ser vocês seis, ninguém vai saber disso e portanto não haverá cobranças. Nem guias.
Já se alguém aí se habilitar a participar de alguma forma, estamos a postos. Ou não. Ai, meninos, tá tão quente...

terça-feira, 17 de novembro de 2009

O sol do meio-dia




Que eu queria ser escritora antes de ser jornalista vocês já sabem, o que vocês não sabem é que antes disso o que eu queria mesmo era ser sapateadora. Fiz sapateado por oito anos e cheguei a ser sondada para integrar um grupo profissional, mas a faculdade e a precaução (ou covardia, dependendo do ponto de vista) falaram mais alto.

Continuei os meus step hills e pull backs por puro hobby até que a minha coluna deu pau e tive que parar por um bom tempo, tempo que com o tempo se tornou pra sempre. A causa da encrenca toda não foi o sapateado, obviamente, o culpado foi mesmo o sistema nervoso. Tive LER, doença típica de jornalistas, pianistas, caixas de banco e outros que insistem em pensar mais rápido do que suas mãos. Fiquei de castigo e tive que trocar as aulas de improvisação por sessões longas e cheias de torturas do RPG – hoje tenho certeza que quem inventou essa vertente da fisioterapia era sádico. E, claro, tenho certeza também que sou masoquista, porque cumpri o tratamento à risca por longos dois anos. A tendinite se foi e, como vocês já devem estar imaginando, nunca mais voltei. Nem ao RPG nem ao sapateado. Mas nunca perco as esperanças. Ainda acho que um dia volto. Ao sapateado, gente, não ao RPG.

No último domingo as minhas esperanças aumentaram. Enquanto eu ainda me debatia com a matéria infeliz da Isto É, resolvi caminhar pelo Leblon para espairecer. Eis que aparece então em cena Leonardo Sandoval, o carinha da foto e também autor do incrível clipe de som que pude gravar porque agora sou muito high tec mas não pude postar porque o blogger não é tão high tec assim. Estou tentando colocar em algum lugar da rede mas tudo isso é muito difícil pra mim, crianças.

Leonardo tem 21 anos, é integrante da Companhia de Sapateado Steven Harper (com quem já fiz aula), dá aula de sapateado no Pavão Pavãozinho e, nos finais de semana, coloca um pequeno tablado na calçada em frente ao Rio Design Leblon e solta o verbo das suas chapinhas Capezio.

Coisa fina. Debaixo de um sol a pino, estava lá um tap da melhor qualidade, com todos os sincopados a que se tem direito. Fã de Jason Samuels, Chloe Arnold e The Nicolas Brother, Leonardo me garantiu que sapatear é como andar de bicicleta. “Você nunca esquece como se faz um shufle”, disse. Trocamos telefones. Ele disse que quando arrumasse um espaço para dar aulas entraria em contato comigo. Ânimo. O domingo ficou muito melhor.

p.s I Para quem não pescou, o título desse post é uma homenagem ao filme O sol da meia noite, com Sammy Davis Jr, que infelizmente já deixou saudades.

p.s. II Acabei de colocar o clipe no som no 4shared. Você pode baixar aqui É rápido e o som vale a pena!

domingo, 8 de novembro de 2009

Isto É jornalismo?

Respirem fundo, crianças, que a história é um tanto longa e triste:

Demorei muito tempo, mais do que devia, a ter coragem de me apresentar como escritora. Por muito tempo, quando precisava preencher algum cadastro, jogava lá no espaço em branco que vinha depois de “profissão”: jornalista. Afinal, é essa a minha formação e já trabalhei o bastante na área para continuar me considerando como tal. Mas a verdade é que nunca me senti jornalista na alma.

Certa vez, fazendo uma matéria com o já falecido Manuel Brito, ex-dono do JB, sentei para conversar um pouco sobre o meu personagem com Wilson Figueiredo, então um dos melhores colunistas do jornal. A minha tenra idade de estagiária, no entanto, deve ter lhe inspirado um certo comportamento paternal. Quando eu menos esperava, me perguntou por que eu havia escolhido o jornalismo. “Porque gosto de escrever”, respondi imediatamente. “Mas uma coisa não tem nada a ver com a outra!”, ele rebateu. O tempo passa e voa e ele estava coberto de razão.

Quando me formei, não vou dizer há quantos anos, era cheia de ideais. A minha formatura, aliás, foi das mais lindas e vanguardistas da PUC. Nos formamos em pleno Pilotis, com faixas coloridas ao alto decorando o cenário de nosso talk show. Organizamos uma rodada de entrevistas com os professores que mais gostávamos e fizemos uma espécie de programa piloto de TV. Nada disso foi filmado, é claro, porque também éramos, ainda, jovens universitários ingênuos e um tanto desligados. Imperdoável descuido. Adoraria rever aquele momento. Talvez assim eu pudesse, de alguma forma, recuperar aquele afã de mudar o mundo através do jornalismo.

Aos poucos, no entanto, entre uma e outra redação, entre uma e outra reportagem, o talk show idealista foi se desmanchando na minha memória. O embate com a irritante e insistente realidade acabou fazendo com que eu me virasse, tal qual planta buscando a fotossíntese, para a seara editorial. Ali eu enxergava mais o sol e respirava mais ar puro. E, principalmente, ali eu teria condições de ter mais cuidado com o que escrevia. Ao me recusar a continuar vendendo o corpitcho a deadlines perigosos, eu poderia me dar ao luxo de fazer pesquisas decentes e, assim, evitar erros indecentes.

Hoje é com certo alívio que percebo essa guinada. Sou imensamente mais feliz sabendo que escrevi A bela menina e não a reportagem da Isto É dessa semana, com o infeliz título "A princesa do tráfico". Do meu lado do balcão, por exemplo, não vendi nenhuma das seguintes informações:

“Sem mesada suficiente para bancar o vício, ela chegou a tramar o próprio seqüestro para extorquir dinheiro da família”

Quando Ana Karina, a bela menina como vocês já sabem, “tramou o próprio seqüestro”, ela estava sendo convencida por um traficante de drogas dos mais perigosos na época. Gringo tinha mais de cem anos de pena nas costas e gostava de cobrar cachê pelas entrevistas quando era preso. E o dinheiro não era para sustentar o vício. Ana tinha então quinze anos e ainda (ainda) não era viciada. Se tornaria viciada depois do seqüestro, do estupro e de todas as acusações que caíram na sua cabeça adolescente – adolescente, diga-se, que queria era fugir de casa e das confusões da mãe, essa sim já uma dependente química.

“Ana costumava subir os morros de salto alto, usando roupas da grife francesa Dior, uma de suas preferidas. Passou a roubar jóias da família para trocar por drogas."

Se o jornalista tivesse lido o livro, saberia que isso não é verdade. As jóias que viraram pó eram da própria Ana, jóias de família que ela, se não tivesse passando por tanto sofrimento, teria conseguido guardar e passar adiante para as suas filhas. Só por curiosidade, o que o livro diz é o seguinte:

“O cordão era de ouro e trazia penduradas várias medalhas, também de ouro. Havia sido da minha bisavó, e minha avó me dera provavelmente em algum aniversário. Devia esperar que eu continuasse a tradição da família, passando um dia esse colar para a minha filha. Antes disso, muito antes, as medalhas começaram a virar cocaína malhada nas mãos do piscineiro do condomínio. Eram muito vagabundos aqueles papéis, eu devia ter pegado o meu dinheiro de volta quando aprendi a comprar cocaína de verdade. Em pouco tempo, cheirei o cordão inteiro. As coisas já tinham começado a perder o valor.”

Um pouco diferente, não?

Eu podia dizer ainda que Ana não usou heroína e que não tem mais nenhuma lesão no cérebro. Ou que o Gringo não liderava o tráfico do Vidigal. Era uruguaio e não tinha a menor intimidade com os chefões cariocas. Mas pra quê? As tintas são irredutíveis, radicais, irremediáveis.

Perceber que a matéria, no fim, nos leva à conclusão de que Ana foi uma vítima do vício e não um algoz da própria família, infelizmente, não apaga os erros anteriores. E esses são mais alguns deslizes involuntários, vamos dizer assim para sermos bacanas, adicionados à sua nada pequena coleção. Uma pena. O jornalismo com o qual eu sonhava na faculdade era muito melhor.

Para quem quiser acompanhar de perto esse imbróglio, o blog da Ana é A bela menina do cachorrinho.

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

TPM

Ok, meninos, vocês venceram. Eu, mulherzinha, escritorazinha, mortalzinha, admito: tenho TPM. Sim, também carrego nas costas essa sigla que incha, cansa, lesa o cérebro, dói, irrita e transforma o mais cor-de-rosa dos mundos em uma solitária escura e enlouquecedora. Com um cruel detalhe: nessa solitária também são jogados maridos inocentes.
A mulherzinha aqui, muito muderna, lida, analisada e dada às mais diversas relativizações, não acreditava muito nas três letras perigosas e sempre achou muito machistas as piadas a respeito. No fundo tinha vontade de, com os olhos já vermelhos de chorar porque acabou o cotonete ou porque não conseguiu encontrar um par de meias, inflar o peito e urrar com alguma saliva projetada: “TPM é o cacete, seus merdas!”
Mas no domingo passado, esperando mais uma vez o meu entrevistado, que costuma se atrasar, comecei a folhear o meu caderno de anotações com um insuspeitável mau humor – logo atribuído, logicamente, ao atraso do tenente. Cumprir horário, afinal, não é a primeira coisa que um militar aprende, gente?
Então eis que esbarro no seguinte esboço de poesia, escrito em letrinha miúda:

Mau humor da porra
Porra nenhuma
se resolve
Saco de filó
E te olho ó
de lado
Sobrancelha levantada
desconfiada
cansada
e só.

Achei tudo muito familiar. Era a mesma sensação que eu estava sentindo naquele momento, e a data não me deixava nenhuma rota de fuga: tal desabafo pseudo poético havia sido escrito há, adivinhem, um mês. Merda.
Pronto, falei. Mas e daí? Tão olhando o quê? Nunca viram? Ninguém aí tem mais o que fazer, não?

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

O perigo da curva

Eu sei que vocês não estão lá muito interessados, mas na tabula rasa desse blog já estava a intenção de explicar o que vem a ser a vidinha de um escritor freelancer. Coloco assim no masculino porque pressuponho um grupo mais ou menos homogêneo de tal espécie, que englobaria indivíduos de todos os gêneros e subgêneros interessados em viver da letra. É claro que assim me engano. Afinal só posso falar de minzinha, mulherzinha, escritorazinha de bastidores. Mas o fato é que estou aqui pra isso, gente, pra explicar qual é a dessa mulher estranha.

Vejamos. A mulher estranha escreve dois livros ao mesmo tempo porque não vive de luz e porque a ração do papagaio está cada vez mais cara. Em sua defesa, no entanto, explico que ela tem o cuidado de separar os projetos por fases, assim: enquanto estão sendo feitas as entrevistas de um livro, o outro, com depoimentos já colhidos, pode ser escrito. Jamais dois livros, literalmente, serão escritos ao mesmo tempo. Tal insanidade até já aconteceu, mas foi por um breve período de tempo que a memória dessa mulher, muito seletiva e precavida, tratou de bloquear.

Então, enquanto o livro do gentleman de Ipanema já está sendo escrito aos poucos, o projeto do militar ainda está na fase das entrevistas semanais. Nesse meio tempo a assistente que transcrevia as entrevistas deu no pé por motivos nobres como um salário seguro, portanto as entrevistas, em gordos arquivos de áudio, seguem se acumulando no computador enquanto a mulher desamparada não arruma outra boa alma para transcrever tudo. No livro da bela menina, por exemplo, só para vocês terem uma idéia, ela conseguiu a proeza de reunir 800 páginas de depoimento. Sim, 800, não há aqui nenhum zero digitado a mais por distração. Ter alguém para transcrever tais testamentos é uma das necessidades primordiais de um escritor de dois livros, portanto, isso se ele ainda fizer questão de ter luxos como dormir e tomar banho. E paga-se bem por isso, meninos.

Mas eis que, por motivos irritantes como a imprevisibilidade da vida, um projeto está encostando no outro e as pole positions estão sendo disputadas perigosamente. O cronograma do livro do gentleman de Ipanema, por falta de brechas na agenda do mesmo, já furou. Era para o livro estar pronto a essa altura e tem-se apenas um terço dele escrito. O final do ano está chegando e a mulher começa a sentir as pontadas do desespero: sim, aquela hora grave em que os dois vão se encontrar na curva está cada vez mais possível e próxima. Até o final do ano as entrevistas com o tenente estarão terminadas e aí, crianças, aí o buraco é mais embaixo. Aí seria hora de pensar em instituições militares e não em estilo de vida carioca.

Nessas horas, entretanto, o desespero parece tornar tudo muito coerente. Hoje, depois de cansar a vista olhando para o computador na espera de um email que poderia definir a vida, a mulher decidiu fazer um trabalho de campo. O que, para o primeiro projeto, significaria andar pelo calçadão e olhar o povo se curtindo a beira-mar. Uma delícia, vocês vão dizer. Sim, uma delícia. Tão delicioso que a consciência até pesa e a mulher coloca, na mochila, pelo sim pelo não, um livro sobre o espírito militar. Então, depois de olhar a praia e tentar identificar alguns personagens e rabiscar alguma coisa no moleskine que ganhou de presente, a mulher com dupla personalidade começa a ler sobre a formação de oficiais do Exército. O mundo de lá e o mundo de cá.

É claro que tudo então se confunde e ela se pega imaginando quais seriam as regras rígidas de disciplina da praia e qual o savoir-faire dos militares. Fica pensando se a liberdade não está em limites bem definidos e não no elástico conceito de individualismo que abarca tudo (tudo pode) menos o cuidado com o outro, com o companheiro. Se não existe pelotão nem patrulha, por que o interesse pelo conjunto, afinal? Se não há trauma coletivo palpável, qual o impulso da camaradagem?

Depois de tomar uma água de coco, a mulher se recupera da confusão mental e volta pra casa com um riso de canto de boca. Estou dizendo, negada, essa mulher não bate nada bem.

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Brasileiros e nem tão anônimos assim

E não é que a convocação às letras surtiu efeito?
Gabriela Gonçalves, de Vitória, mandou quase uma autobiografia, oito páginas carregadas de reflexão e coragem, e escreveu assim no email que trazia em anexo trechos da sua vida:

“Estou escrevendo há horas, não fique completamente satisfeita, mas fiz um rascunho dos meus 27 anos. Legal isso, chorei em vários trechos, relembrei fatos e filosofei comigo. Se a história não valer a pena, vai valer a experiência vivida hoje, só posso agradecer pela oportunidade.”

Eu é que agradeço, gente! Foi bonito demais ver brotar uma história assim de pronto, no impulso dos dedos correndo pelo teclado. O resumo da vida de Gabriela, hoje grande executiva e autora de blog, é o primeiro texto do baú. Está guardado pelo Reciclando Mentes com todo o carinho e cuidado.
Para quem ainda não sabe, o instituto recém criado é pautado no construcionismo social, conjunto variado de contribuições teóricas que tem ganhado espaço na psicologia nas últimas décadas, inicialmente na psicologia social mas tendo se espalhado também para outros campos como o da psicoterapia. Seus principais autores afirmam que o construcionismo se articula em torno de quatro idéias centrais: a ênfase na especificidade cultural e histórica das formas de conhecermos o mundo; o reconhecimento da primazia dos relacionamentos na produção e sustentação do conhecimento; a interligação entre conhecimento e ação; e a valorização de uma postura crítica e reflexiva.
A primeira das quatro idéias foca a atenção no contexto, na nossa janela de mundo, na nossa bossa. A segunda, muito importante, fala da importância de se olhar com calma e fundo para o outro, prática que, numa sociedade cada vez mais individualista, parece infelizmente estar fora de moda. A intenção do projeto é justamente resgatar esse olhar e assim trabalhar pela redução da violência, levando em conta as outras duas premissas, que basicamente dizem que não basta saber: é preciso pensar sobre o saber para depois agir.
Na prática, isso significa formar gestores de ONG em terapia narrativa e outras ferramentas capazes de transformar histórias sociais. No coração, isso quer dizer parar de pensar que nada tem jeito, deixar de lado a casca do doente e olhar a doença por outros ângulos, com gana de tirá-la do foco e dar espaço à vida. Quer dizer também, no final da linha, evitar o bombardeio de helicópteros.

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Anônimos e brasileiros


Já me disseram os búzios que sou de Oxalá. Oxalá, me explicou um amigo que sabe tudo de candomblé, é o pai maior, que tem a energia da paz e da criação e está sempre em busca do respeito. É muito bom ser de Oxalá, diz ele. Mas, como tudo na vida, também tem sua desvantagem. É que Oxalá é meio lento, é do ar, da dinâmica rarefeita do devagar quase parando. Quando soube disso fiquei ainda mais baiana por dentro, meio chocha, pensando “pô, logo eu, ex-jornalista da ativa, cumpridora de prazos impossíveis?”. É, neguinha, você mesma.
Neste sábado tive a confirmação. Devo ser meio marcha lenta mesmo, ao menos em alguns níveis, ou naqueles mais importantes. Na verdade, como diria uma amiga minha, meu ritmo é praticamente o de um cágado em dia de sol. Talvez até Caymmi parecesse um estressado ao meu lado. Anteontem, ao ler o Prosa & Verso, tive a nítida sensação de ter perdido algum bonde enquanto dormia de olhos abertos, pensando na morte da bezerra (ninguém até hoje me disse do que ela morreu, gente), sonhando acordada no mundo da lua. Estava lá, no subtítulo: “O teórico francês Philippe Lejeune fala sobre a associação criada para ler e comentar autobiografias de gente comum”.
Peraí, essa idéia era minha! Ô meu deus, que desânimo, velho, que preguiça. O que posso fazer se tiveram as minhas boas idéias antes de mim?
Depois que lancei o livro da Ana, fiquei muito impressionada com a quantidade de pessoas que me procuraram querendo contar suas histórias. Eram histórias de gente comum, e é impressionante como elas podem ser mais interessantes do que a ficção. Algumas mais outras menos, é claro, mas tem sempre um fio que pode ser puxado, sempre uma esperança de publicação. Sem querer desperdiçar tais histórias, pensei em criar para a minha editora o projeto de um selo baseado exatamente nisso, em histórias de gente comum, de anônimos que tinham muito a dizer e a ensinar. O nome do selo seria algo como Anônimos ou mesmo Histórias de gente comum, e poderia ser organizado por temas como Drogas, Amor, Superação etc. Devo ter pensando nisso por alguns dias e depois bateu aquela dúvida, aquela insegurança, aquele “será que é bom isso?”, e acabei deixando pra lá. Em defesa de Oxalá, também é verdade que deixei o assunto de lado porque me envolvi em outros trabalhos e coloquei então a idéia na gaveta, à espera de uma brecha.
Mas agora vejo que o erro, ou o descuido, foi ter pensado nessa idéia comercialmente. A sacada do francês é não só muito mais coerente como mais proveitosa: a Associação pela Autobiografia e pela Preservação do Patrimônio Autobiográfico (APA), instituição fundada na cidade de Amberieu-em-Bugey em 1992, tem a linda missão de receber, ler, comentar e preservar todo e qualquer escrito autobiográfico que lhe seja encaminhado. Entre cartas, diários e narrativas, recebem cerca de 180 textos por ano. A idéia foi inspirada numa localidade italiana que se autonomeou Cidade do Diário. Anualmente é promovido por lá um concurso nacional de escritas autobiográficas, o que engorda o acervo que já conta com mais de cinco mil itens. Quando conheceu a cidade, o professor Lejeune, então já autor de O Pacto Autobiográfico (traduzido pela UFMG), ouviu o clique e decidiu levar a idéia para a França.
De certa forma, ainda sem saber bem como, é o que o instituto Reciclando Mentes vem ensaiando fazer nos trópicos. Já falei sobre ele aqui e quem quiser conhecer o trabalho baseado em terapia narrativa pode acessar o site ou ler o post Reciclando.
Mas saber que escrevi um projeto para a instituição não me faz perder a sensação de que preciso, ai ai, recuperar o tempo perdido. Imaginem a quantidade de narrativas incríveis que não estão por aí escondidas, nas favelas, nos subúrbios ou nas varandas da zona sul, nas casas quietas de idosos imigrantes, nas ruas. O diários não escritos do Brasil dariam um belo compêndio da história latino americana.
Então, crianças, para retomar o pique, estalar os dedos, arregaçar as mangas e enxotar o pai maior marcha lenta, convido todos a me mandarem cartas, diários, pequenos textos autobiográficos, argumentos, sinopses baseadas em histórias reais, o diabo. O meu compromisso será recolher e organizar todo o material e trabalhar, junto ao Reciclando Mentes, numa compilação de vida e forma brasileiras.
Falo sério. Abram as gavetas. Quem estiver interessado que se manifeste, sou toda ouvidos.

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Rebuliço do bom




Já contei que comprei uma penca de livros de filosofia na Bienal. Estou encarando Hume e, acreditem se quiser, é menos difícil do que parece. Outro dia me perguntei o porquê disso tudo e dois segundos depois já sabia a resposta. Estou mergulhando nisso porque vivo. Porque respiro.
Durante dois anos fiz parte de um grupo de filosofia e o que aprendi lá, entre vinhos sorvidos em canecas e gargalhadas nervosas causadas por loopings mentais, valeu tanto quanto o meu mestrado. Lá experimentei, de certa forma, virar as chaves do cérebro, dar linha aos neurônios, empurrar a caixola para rumos nunca antes explorados. E o que acontece é que a coisa toda causa um rebuliço do bom, daqueles que deixam a gente com fome de vida apesar, ah, apesar de toda a angústia que faz parte do jogo – eu não disse que entrei para a igreja, gente, disse que injetei Descartes e Kant na veia. E garanto, crianças, dá um certo barato. Daqueles que, a principio, não incomodam os pais (eles só não podem ser da Universal).
Mas a filosofia não é a única que abre cadeados. Hoje percebi que a yoga também é boa nesse esporte. Pela primeira vez desde que pratico, há quatro anos, consegui fazer uma invertida sobre os ombros completa, encostando os pezinhos lá atrás no chão e esticando as pernas. Foi emocionante, meninos. Para imaginar a emoção é só reler a última frase e se tocar de que eu pratico há anos, o que quer dizer que meu alongamento ficou perdido em algum momento das minhas aulas de balé da infância e que não tenho a mesma malemolência dos indianos (muita gente não sabe, mas a verdade é que eles são feitos de borracha). A minha professora, por exemplo, não tem ossos. São grandes e maleáveis cartilagens se fingindo de sólidas. Tudo ilusão de ótica.
Quando mudei de perspectiva, sentindo que poderia cair lá atrás sem quebrar ao meio, fui tomada por uma certa epifania, tal qual nas aulas de filosofia. Os olhos marejaram mesmo fechados e o coração acelerou um pouquinho mais do que o normal. Era mais uma virada, mais uma afrouxada de linha. Prenúncio de novos tempos, de novos desafios, de infinitas outras possibilidades.
É por isso que tento estudar filosofia e pratico yoga entre um projeto e outro. Para enlouquecer com classe. E corpinho enxuto.

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Lusco fusco

Faltou luz ontem. Por quatro horas. Acontece muito aqui no faroeste. Então fui tomar banho à luz de velas:

Sombra trêmula na parede
Raio X molhado
Medos e tecidos
ensaboados
Nesgas de luz
enxaguadas
Tempo descendo
sujo limpo
pelo ralo
Água olhos torneiras
fechados
Mão ágil e cega
mecânica escorregadia
quente seca
nua
viva.

Pra depois acabar tudo na toalha.

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Bienal, eu fui

Fomos à Bienal. Como nos outros anos, usamos a nossa tática de guerra. Alvos certeiros, metas definidas, cartões de crédito em punho e... marchamos. Três horas e três pavilhões depois, eu tinha pena do meu marido só de olhar para as sacolas que ele carregava já com alguma dificuldade. Deixamos lá as calças, as meias e só não oferecemos as roupas íntimas porque havia muitas crianças circulando.
Mas, como em todos os anos, valeu a pena. Saí de lá com o meu projeto Filosofia mais do que alinhavado. Tenho Hume e Bacon e Galilei para me ocupar por um ano pelo menos. Desde que meu grupo de filosofia se desfez, venho procurando alternativas. Como as que encontro ou são caras ou fora do itinerário (morar na Barra tem disso), resolvi apelar para o autodidatismo. Veremos. Se eu sobreviver com sanidade prometo contar um pouco da experiência. Se não, idem.
Não sei se foram os gastos que me deixaram meio alterada ou se as câimbras das pernas comprometeram o fluxo sanguíneo do meu cérebro mas fato é que fiquei muito impressionada, dessa vez, com duas coisas. Uma era o alto-falante que anunciava eventos, promoções e outras coisas que não consegui entender no meio do meu transe. Por um bom tempo me perguntei se não estava no Mundial fazendo compras de mês e só me certifiquei de que tal horror não estava acontecendo porque belisquei o meu marido e tive a certeza de que sim, ele estava do meu lado. Quando me desfiz dessa impressão incômoda, estranhei o respeitável número de pessoas tirando fotos em estandes. Até com uma armadura do estande da Biblioteca do Exército tinha gente tirando foto. Valia tudo: cadeira da Biblioteca do Senado, árvore da Floresta de Livros, cartazes da Turma da Mônica adolescente e até o balão de sinalização da entrada. Isso porque não estou contando o gramado onde estavam os tais balões e que acolhia pessoas sentadas de pernas cruzadas e dentes direcionados a algum flash.
É nobre, claro que é nobre valorizar a Bienal a ponto de registrar a própria presença no evento, num clima assim “Bienal, eu fui”, mas não sabia que ela já tinha conquistado um status, vamos dizer, turístico. Estranho, muito estranho. Pelo sim, pelo não, da próxima vez vou incluir a máquina fotográfica no meu arsenal.

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Copi o quê?

Como vocês seis já sabem (piada velha, eu sei), peguei mais um copidesque. Aí vocês podem, um tanto irritados, perguntar o que é, afinal, esse tal de copidesque. Well, well, é uma boa pergunta.
O termo, como é um tanto óbvio, vem de copy desk. Surgiu nos EUA, berço do nosso chamado jornalismo moderno. Na idade da pedra, antes dos computadores, copy desk era uma mesa em formato de U, que unia o editor chefe (sentado na borda de dentro) aos copy editors, que zuniam ao redor da mesa como abelhas, checando informações, atualizando números e, entre um e outro telefonema, tomando fôlego para agüentar o deadline das matérias, a hora grave em que as máquinas de escrever teriam que silenciar e agradecer (ou não) por mais um dia de manchetes cumpridas.
Os editores de copi, vamos dizer assim, são importantíssimos até hoje nos EUA. São eles que finalizam reportagens, fazem as perguntas que os leitores fariam não fossem eles (e as respondem) e ainda atendem às exigências da diagramação, aumentando ou reduzindo textos.
O termo pegou e é muito usado também no mercado editorial. Por um tempo achei que copidesque e preparação de texto fossem coisas diferentes, mas não. Fazer um copi é preparar o texto para ser publicado, acertando as arestas, melhorando aqui e ali, mudando títulos, incluindo ou tirando trechos, enfim, editando.
E descobri que adoro poder fazer um copi entre um projeto e outro. É que para fazer copidesque não preciso descascar nenhum abacaxi. Portanto é uma espécie de trégua, com os neurônios a meia voltagem, concentrados em mexer no texto dos outros, geralmente no texto de uma pessoa que você nunca viu na vida (nem vai ver). Levando em conta que o texto já vem de um ghost writer, a distância do autor é maior ainda. É como trabalhar escondido no escuro, luzinha de abajur refletindo na tela cúmplice do monitor. Ou seja, é a maior promiscuidade. Fazer um copi, crianças, é quase a mesma coisa que entrar num bacanal. Mas não contem aos seus pais que disse isso. E não, não vou explicar o que é um bacanal.

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Poesia ruiva

Um pouco de Sylvia Plath pra vocês:

Herr Deus, Herr Lúcifer
Cuidado.
Cuidado.

Saída das cinzas
Me levanto com o meu cabelo ruivo
E devoro homens como o ar.

Sorry, guys, mas em inglês é ainda melhor:

Herr God, Herr Lucifer,
Beware
Beware.

Ou of the ash
I rise with my red hair
And I eat men like air.

(Lady Lazarus 4)

Pra quem não sabe, Sylvia Plath foi um escritora americana que teve o descuido de se suicidar logo depois da publicação do seu romance A redoma de vidro. Tinha apenas 30 anos e depois disso os críticos se interessaram mais pela sua vida trágica do que pela sua obra. Mas os poemas que escreveu no último ano de vida resultaram num marco da poesia contemporânea, Ariel , publicado pelo seu marido infiel dois anos depois. Hoje se sabe que ele havia retirado, da publicação metodicamente organizada por Plath, poesias consideradas “pessoalmente ofensivas”. A intrusão foi descoberta anos mais tarde e o livro, felizmente, reeditado.
Ela era tão poderosa que influenciou até mesmo Hilda Hilst, a mais poderosa das mulheres no meu ideário. Hilst costumava falar da “maldição de Sylvia Plath” e dizia que seus editores esperavam ela morrer para valorizar a sua obra. Por sorte boa parte da sua coleção foi reeditada antes disso.
São muito bobas, às vezes, as razões que nos trazem alguma identificação com um poema. Lady Lazarus acima me pegou por três bobaginhas: uma é o uso do Herr, o equivalente ao Mr. em alemão. Dá a Deus e Lucifer, igualmente, um tratamento com tintas graves ligeiramente nazis, o que me soa ousadíssimo e surpreendente. Depois gosto do melódico Beware, beware, que também é algo irônico, um dedo em riste e um olho encristado em direção a algum incauto. O último e terceiro motivo bobo é o cabelo vermelho. Só porque, durante a faculdade, eu podia dizer que era ruiva. Henna vermelha da boa, natural, dessas que não existem mais. Adorava ser ruiva. Era uma transgressão de leve, uma maneira de fazer as mechas falarem o que sua dona não conseguia. Hoje sou loura e vivo ameaçando virar ruiva de novo, o que deixa o meu marido muito tenso.
Acho ainda que, na versão original da poesia, a última frase tem mais o sentido de comer como o fogo, e não como o ar. Ela devora homens como a labareda que sobe alimentada pelo ar. O cabelo ruivo levanta e devora os homens como numa chama. Tenho a impressão de que o sentido é esse, ou ao menos foi o que imaginei, mas eu, hein, quem sou eu pra me meter.

P.s Peguei mais um copidesque. Entre um projeto secreto e outro meio secreto, é o mínimo que posso fazer para entreter vocês. E também o máximo que posso fazer para descansar um pouco a cuca entre um e outro.
Cuidado com as ruivas, meninos.

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

O lado bom da vida

Já falei muito aqui das agruras de um escritor freelancer. Mas não falei ainda das benesses.
São muitas! Como ser sempre aquela pessoa que pode ir ao supermercado, que pode chamar o bombeiro, receber o cara da Net, dar atenção ao papagaio e sacar o dinheiro da diarista. Ah, gente, é tão bom ser dona do próprio tempo! Assim a gente pode sempre devolver fita na vídeolocadora, trocar o óleo do carro, comprar pão na padaria e, luxo dos luxos, levar a colcha king size para a lavanderia.
É porque a gente trabalha em casa, bobinhos. Então é sempre mais fácil pra tudo, entenderam? Como o meu único chefe presente é um papagaio, nunca posso falar que não, não posso, meu chefe vai me matar. O meu chefe dá trabalho, é verdade, mas ainda (ainda) não me proibiu de sair de casa. Estou tentando ensiná-lo a fazer isso. Daí, triunfante, vou poder dizer que estou com penas até o pescoço, sentada num saco de ração e completamente impossibilitada de mexer os dedos bicados dos pés. Sim, porque as mãos continuarão, esquizofrênicas, grudadas no teclado, tentando trabalhar no meio de tanto.
Bom final de semana pra vocês também.

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Epicuro a pão e água

Um dos livros que estou escrevendo, o do gentleman de Ipanema, é sobre estilo de vida. Tema amplo, não? Pois é. Não posso dar outros detalhes mas também se pudesse não teria lá muito mais a contar. Fato é que o gentleman viaja muito e as entrevistas, infelizmente, andam escassas. Por isso estou aqui tirando leite de pedra. Leite não, iogurte. Yogoberry. De frutas vermelhas.
Resolvi apelar para a filosofia, porque só a filosofia salva. Vamos então de Epicuro, filósofo preferido do gentleman ocupado.
Epicuro, filósofo nascido em Atenas no ano 341 a.C., acreditava em coisas muito simples e consistentes, como por exemplo que a obra principal da vida é a natureza. Sua filosofia era uma filosofia do prazer, que se afastava dos falsos prazeres e dos bens ilusórios para buscar a saúde do corpo e a serenidade do espírito, combinação que seria a real fonte de prazer, prazer de verdade – e suprema maneira de viver. “Meu corpo fica saturado de prazer quando tenho pão e água”, dizia.
Sua idéia de busca do prazer (hedoné) foi muito mal interpretada, no entanto, fazendo o hedonismo virar palavrão. O prazer que interessava a Epicuro não tinha nada a ver com a volúpia nem mesmo com o gozo sensual. Ele falava de um corpo sem dor e de tranqüilidade da alma. Essas condições é que trariam uma atmosfera de felicidade que ele gostava de comparar à superfície do mar suavemente agitado. Na tranqüilidade do mar, assim, estava o segredo da felicidade. Nem mais nem menos. Simples como a idéia de que todo ser vivo procura com certeiro instinto a condição adequada à sua vida. Acreditando que todo o bem e todo o mal residem na faculdade de sentir e que os órgãos sensoriais são infalíveis, Epicuro colocava na mão do homem a responsabilidade pelo seu próprio destino, numa atitude muito ousada para uma época ainda governada pelos deuses gregos e que ainda não tinha a física quântica para respaldar o livre arbítrio. Para Epicuro era só dele, do homem mortal, a chance de ouvir seus desejos e entender que cada dia novo é uma dádiva. É a arte da vida requintada ao máximo.
Não é bonito, crianças?
Mais de Epicuro para vocês coalharem seus iogurtes:

A morte não é nada para nós, pois aquilo que já foi dissolvido não possui mais sentimentos. Aquilo, porém, que não possui mais sentimentos, não nos importa.

Se aquilo que ocasiona prazer aos libertinos eliminasse os anseios do espírito, dos fenômenos da natureza, da morte e das dores, e se ainda ensinasse o conhecimento da limitação das ânsias, nada teríamos a desaprovar nessas pessoas.

Devemos gravar em nosso espírito o alvo que temos em mente, tudo que é real para nós, e no qual podemos basear nossas suposições. Se não fizermos isso, reinarão unicamente obscuridade e confusão.

O essencial para a nossa felicidade é nossa condição íntima: e desta somos nós os amos.

Quem menos sente a necessidade do amanhã mais alegremente se prepara para o amanhã.

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

O blog da bela menina

Foi um choque. Os olhos acompanhavam sedentos as linhas e sabiam que precisavam ser rápidos porque eles mesmos ameaçavam aguar tudo. Palavras eram sorvidas como cerejas do bolo de chocolate e marshmallow mais gostoso de todos os tempos, aquele que a gente nunca esquece e faz questão de anotar a receita (mas nunca consegue fazer igual).
Com o estômago em estado de alerta, preocupado em não deixar passar migalha, descobri que a Ana acabara de botar um blog no ar. A idéia era antiga. Surgiu logo depois do lançamento do livro, há pouco mais de um ano. Para incentivá-la, fui desbravar o Blogger e consegui, heroicamente, criar um blog sozinha. Vocês estão aí rindo mas é muita coisa para quem há até pouco tempo (não vou falar quanto) era virgem de msn e smartphone. Foi um feito e tanto, meninos. Mas não serviu para que a Ana seguisse o exemplo. Ela titubeou, pensou duas vezes, três vezes, viajou para Bali e nunca mais falou no assunto. Chegamos a pensar em fazer um blog juntas, mas eu achava que o texto tinha que ser só dela.
A intenção era divulgar a obra, dar vazão às dezenas de pessoas que queriam fazer contato com a Ana depois de ler o livro e seguir adiante com o projeto, quem sabe vendendo a história para o cinema. Eu mesma comecei a trabalhar na escaleta do roteiro com o meu marido e as coisas iam muito bem, até que ele recebeu uma proposta para trabalhar em uma grande produtora. Foi motivo de comemoração, é claro, mas o convite trouxe, com ele, um inevitável the end para o nosso projeto de roteiro. A agenda ficou apertada e paramos por aí.
Então o tempo passa, o tempo voa, outros trabalhos surgem e acabei ficando um pouco afastada da bela menina. Entre uma mensagem de email e outra, pegava apenas as notícias da superfície. E agora dou de cara com A bela menina do cachorrinho, blog amadurecido, bem humorado, bronzeado e de bem com as escorregadas da vida. Carimbado ainda com o blog da Mariah, filha mais velha que tem 18 anos mas escreve com tarimba de 30. Coisas de família.
A menina é bela e a vida também, crianças. Quem estiver perdido (ou nostálgico, quem sabe) e quiser relembrar a história toda pode dar uma volta por aqui:

A bela menina
O poder do Ela
O poder do Amaury
O grande dia
Feliz bela menina
Deus e a bela menina

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Até que o enter nos separe


Terça feira à noite, barzinho em Botafogo, lançamento do site Enter rolando, amigos do marido e povo do HQ chegando, chopinho na mão. Caminho até a meia muvuca para procurar Heloisa, a anfitriã da noite e quem me convidara para o evento. Abraço apertado como sempre, festa, sorrisos. Até que pergunto se ela recebeu meu email, coisas de trabalho. E ouço que não, ela não abriu o email porque seu filho, Pedro, andava sequestrado. O chope deu meia trava. Vontade de arrotar um imenso e gordo COMO ASSIM?
Aquele já era um momento de alívio. Os bandidos já haviam sido presos, Pedro já estava em casa, a imprensa começava a noticiar o fato. Depois de todo o sofrimento, era mesmo de se comemorar, se é que faz bem pra saúde entender comemoração assim, como euforia por não ter virado mais um número de estatística. No entanto não consegui parar de pensar naquele contraste. O telão ali do site rolando, as pessoas conversando animadas, a vida seguindo. E saber que algumas horas antes o filho da idealizadora do site que reúne alguns dos artistas mais interessantes do páreo hoje como Fábio Moon e Gabriel Bá, Fábio Lyra, Omar Salomão e Cecília Giannetti (esses dois últimos também curadores do projeto que Heloisa batizou de soft book) estava amarrado, amordaçado e sendo ameaçado de morte.
Valha-me.
Nos resta o alimento da alma. Enter vale o clique e explica que escritores blogueiros são, na opinião dos estudiosos do assunto, escribicionists: autores que experimentam a escrita num espaço abertamente público e tiram daí efeitos propriamente literários, criando uma dicção crítica e ácida, fruto de uma óbvia auto-ironia.
Se sou uma escribicionist não sei, mas que esse blog me levanta um cadinho o humor negro, levanta. Mas também aprendi com o site que o enter tem outro valor: o de mudar de assunto, de partir para outra, de abrir outro parágrafo. É o enter que leva o usuário a uma nova lógica / linguagem / espaço. Então a gente pensa que entre lançamentos e seqüestros ainda vale a pena rebolar, e sai rebolando. Até o próximo enter.

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Na mosca

Eu não sei o que é mais difícil: quando gostam ou quando não gostam. Quando não gostam do seu texto, jogos de cena à parte, você se sente a mosca que, de tão insignificante e incapaz, não teve nem pontaria para pousar no cocô do pangaré do bandido. Já quando gostam, você respira, sim, aliviado. Mas logo vem à tona um “aimeudeus tanto trabalho agora pela frente”, pensamento especializado em fazer arder as idéias como uma espécie de pimenta cerebral. O que reflete no estômago que arde e grita lá pra cima: “Gente, será que vai dar?”, e se encolhe quando começa a ouvir seu eco, “vai dar?”, “vai daaar?”... No que o cérebro, muito altivo e auto-centrado, não se digna a responder. E nem pode, sob pena de desagradar sua platéia: os neuroniozinhos se amarram num suspense.
Desse pequeno circo aí se conclui que escritora freelancer sofre de chatice aguda e não tem salvação. Pula do paraíso para o inferno e vice-versa quinhentas vezes por minuto. Nem ela se agüenta, é claro. Então ela ataca pela primeira vez Uma temporada no inferno, de Rimbaud, e entende que seus dramas são fichinhas mais insignificantes do que a vida medíocre da mosca cega. O que a faz ficar um tantinho deprimida, é claro. No que ela adoece e o resto vocês não teriam paciência de saber. Nem ela.
Em homenagem então ao (não) sofrimento da freelancer, aí vai o último fragmento nonsense do Romance de Gaveta, que teve a sua publicação suspensa até que se entenda mais ou menos o que vinha sendo publicado.
Podem todos respirar aliviados, assim, juntos: ufaaaa. Nem pangarés nem bandidos nem mocinhos. Apenas um último suspiro, que outros textos urgem.

A ladeira era tão íngreme que precisávamos subir em zigue zague para não cair. Encontrar a inclinação certa levava tempo. Era uma favela chic, uma espécie de vila. Animada, a comunidade vivia em festa. Estava na moda fazer exposições de temas ordinários. Coleção de isqueiros, chaveiros, pentes. Síndrome de nostalgia do mundo antigo. Artigos do dia-a-dia viraram relíquias. Um creme de barbear, por exemplo, causava ao mesmo tempo espanto, reverência e uma certa coceira na boca, vontade de rir que vinha lá do fundo da garganta. Fazer a barba pra quê, meu Deus.

sexta-feira, 31 de julho de 2009

Nós todos



Fernando Mello da Costa, Guti Fraga, euzinha, Marta Porto e Zezé Silva no lançamento do livro Nós do Morro 20 anos, ontem, no Centro Cultural de Furnas, com direito a exposição comemorativa, mostra de curtas, quentão e uma pequena multidão de gente interessante.
Lançamento é sempre bão. É quando finalmente as costas param de sentir o peso do piano.
Parabéns para Nós!

quinta-feira, 30 de julho de 2009

Deu a louca na outra

Disse Armando Freitas Filho: “A felicidade também é feita de carne.”
Ele não sabe mas nesse dia salvou minha pelanca:


Rasgar o tecido
Estancar o sangramento com algodões
Olhar bem lá no fundo
de uma vezada só
(prender a respiração)
Fechar
Suturar
Desinfetar
Rezar muito depois


Afastar as costelas
Segurar o coração
Evitar as cócegas
Acompanhar a dança
Admirar o ritmo
Cuidar com as lágrimas
Fechar
Dar pontos
Enfaixar
Pedir a Deus que chame a enfermeira



Como virar do avesso
Instruções


Respire com um pulmão
e depois com o outro
Chore de tristeza com um olho
e de alegria com o outro
Junte os braços e os avise:
Vocês não tem nada um do outro
Ande para frente querendo andar para trás
(ou vice-versa)
Tome sorvete
pensando em café
(ou vice-versa)
Pense em deitar na calçada cansada
Durma em pé no metrô
Olhe o dinheiro como se nada fosse
Escreva com canetinha no seu lençol
Escreva Acorde, vagabundo
Depois jogue o lençol fora
e coma o travesseiro na hora do almoço
Se nada disse der certo
Tente somente
viver.

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Papai Noel existe




Finalmente, mais de vinte e cinco anos depois, encontrei pessoalmente de novo com o Papai Noel. A primeira vez em que nós nos vimos tudo se deu muito rápido, sem chance para qualquer diálogo. Quando dei por mim, as renas já estavam voando no céu frio e estrelado de Petrópolis. Dizem que a imaginação das crianças é muito poderosa, mas não é bem assim não. O fato é que elas vêm coisas que os adultos já decidiram não enxergar mais.
Depois daquela noite, foi dada a largada para o ceticismo galopante, aquele que vai grudando nos ossos ao longo dos anos e, década a década, nos enfia aos poucos num caixão lacrado com desconfianças.
Mas no final de semana passado, tudo mudou. Eu estive de novo frente a frente com o Papai Noel, crianças! Enquanto ele segurava a minha mão, eu me perguntava o que gostaria de pedir a ele. Foi uma decisão penosa porque, afinal de contas, eram muitos os pedidos acumulados. Então resolvi ser magnânima e pedir algo que pudesse ser útil a todos. Pensei na minha cidade, tomei coragem, ajeitei o meu gorro e mandei: “Papai Noel, eu queria uma cidade limpa, organizada, cheia de flores, onde as pessoas fossem gentis umas com as outras e onde os motoristas parassem na faixa de pedestres mesmo onde não houvesse sinal.” Enquanto ele me olhava, mudo, eu me regozijava por antecipação. Finalmente as minhas preces seriam atendidas! Gente, vocês não estão entendendo: eu estava na casa do Papai Noel, na sua aldeia! Seus bobões, como os meus pedidos não seriam atendidos?
Com o nariz vermelho de frio, o Papai Noel sorriu. “O seu pedido já está atendido”, ele disse. Jura? “Juro”. “Mas você precisa ficar aqui em Gramado!”. Espertinho o velhinho, não?
Fiquei revoltada. Ah, a maturidade. Repleta de decepções. Saí da casa do barbudo batendo a porta e fui caminhar para espairecer. Foi quando uma de suas renas escrutinou meus pensamentos com o seu olhar. Decepcionada estava ela com a grosseria que eu havia feito ao seu patrão. Tremi e pedi desculpas abaixando a cabeça. Ela meneou os chifres de volta, altiva, sábia, condescendente. Segui meu caminho com as mãos no bolso, andando sem fazer barulho, pensando que eu merecia sentir o meu nariz gelar até doer.
Papai Noel existe, meninos. Só não faz milagres.

quarta-feira, 15 de julho de 2009

Volto já


Escritor freelancer também é filho de Deus e de vez em quando tira uma folguinha. Amanhã vou pegar um tam tam tam tam para o Sul e na sexta tenho o meu primeiro encontro com a cidade de Gramado. Se eu não congelar nem perder a ponta do nariz, na semana que vem conto tudo. Boa viagem a todos.

quarta-feira, 8 de julho de 2009

De perder a tampa



Vocês estão aí achando que o tormento das obras acabou, não é? Ah, as crianças. Tão ingênuas.
Terminada a obra, tivemos pouco tempo para curtir a cozinha nova. Não sei pra vocês, mas secar um piso alagado, nos meus critérios de lazer, não parece nada divertido.
Sim, queridos: atendendo a pedidos, vamos voltar ao quebra-quebra! U-hu! Só tenho a agradecer ao mestre de obras, que fez a gentileza de quebrar um cano pluvial e fechar tudo mesmo assim sem me falar palavra. Ah, não, estou sendo injusta: disse ele ontem que colocou um durepoxi no buraco. Ele não é um amor? E não é culpa dele se o durepoxi não agüenta o tranco de uma chuva, certo? Tampouco é responsabilidade dele o lago que se cria no ambiente a cada dia de elevações pluviométricas. Também não deve ser por mal que ele não atende mais os nossos telefonemas. Gente, como vocês são maldosos! Deixem o pobre do homem em paz!
Eu havia indicado essa doce figura para uma menina que conheci no curso Arte de Viver. A obra dela está parada há dois meses. Estou sem cara. Nunca mais indico ninguém, prometo.
Tudo isso me fez pensar. Há um tempo fiquei muito impressionada com uma notícia que li no jornal. Era sobre um psicólogo social que passara oito anos fingindo ser gari. Fazia parte da sua pesquisa de tese de mestrado na USP. Por oito anos, Fernando Braga da Costa varreu as ruas de São Paulo, tomou café com seus colegas em latas retiradas do lixo e experimentou a sensação de ser invisível. Da casta dos intocáveis, para usarmos uma temática atual.
Constatou ele que, para a maioria, os trabalhadores braçais são invisíveis e sem nome. Logo, não precisam receber cumprimentos como “bom dia” ou “boa noite”. Trata-se do que ele chamou de “invisibilidade pública”. “Professores que me abraçavam nos corredores da USP passavam por mim e não me reconheciam por causa do uniforme. Às vezes esbarravam no meu ombro e, sem ao menos pedir desculpas, seguiam me ignorando, como se estivessem encostado em um poste ou em um orelhão”, diz o psicólogo.
A coisa ficou ainda pior. Certo dia, um dos garis o convidou para almoçar no bandejão central. Então Fernando entrou no Instituto de Psicologia para pegar dinheiro, passou pela biblioteca, pelo centro acadêmico, pela lanchonete. Havia muita gente conhecida em todo o trajeto e ninguém o viu. Foi então, descreve ele, que seu corpo tremeu como se ele não o dominasse e a tampa da sua cabeça ardeu como se ele tivesse sido sugado. “Almocei sem sentir o gosto da comida e voltei para o trabalho atordoado”, conta o psicólogo.
Hoje Fernando é amigo dos garis que conheceu durante sua experiência, freqüenta as suas casas na periferia da cidade e nunca, em hipótese alguma, deixa de cumprimentar um trabalhador.
O que isso tem a ver com as minhas mesquinharias? Acho que tudo. Eu nunca deixei de cumprimentar o Edson, o tal mestre de obras, e quando dava providenciava café para toda a sua equipe e ficava por ali batendo um papinho. Mas tenho lá a minha suspeita de que a vida passou rápido e ele desistiu de ser reconhecido por bem. Desistiu de ganhar respeito e prestígio como ex-pedreiro e hoje mestre de obras. Então, cansado de buscar um espelho que lhe coubesse, começou a buscar o reconhecimento que vem de cabeça pra baixo. Aquele que vai fazer arder a tampa da cabeça dos outros, que é para eles verem o que é bom pra tosse.
Fato é que empatia não é vocação, não é talento, não é milagre. Empatia se ensina. E saber se colocar no lugar do outro, seja ele um gari, um pedreiro ou uma escritora exausta com a sua cozinha, é dos exercícios mais importantes da vida. Empatia é o primeiro passo do amor pelo ser humano e sem ela não sobra nadinha.
Esse psicólogo devia ganhar o Nobel da Paz. Pra mim ele é um Buda contemporâneo, que largou seu palácio acadêmico para viver na pele o sofrimento dos menos privilegiados. Esse nunca mais vai deixar de ver um gari, de cumprimentar um gari. Esse nunca mais vai ter dúvidas do que quer dizer a palavra respeito. Acho que se todos fizessem algo parecido, o mundo seria no mínimo menos violento. E com menos canos furados.
Last but not least, para ficarmos no clima, recomendo aqui com todas as forças o filme Escritores da Liberdade. Por isso o cartaz lá em cima. Queria colocar aqui embaixo, mas o Blogger não deixou. Se vocês não entenderam o que eu quis dizer aqui nesse post multitemático, vão entender vendo o filme.

sexta-feira, 3 de julho de 2009

E eles continuam...

O Ibope foi tão fraco que quase esqueci deles. Mas aí vai mais um catarrinho. Vocês sabem como é, expectorar dá trabalho, cansa os pulmões, dá dor nas costas e na garganta. Mas depois fica tudo limpinho, limpinho.
Um bom final de semana pra vocês também.

IV

Havia os que moravam no metrô. Alguns buracos já existiam e foram só aproveitados, outros foram abertos mesmo para servir de casas que viviam repletas de ratos. Algumas, apesar da sujeira, tinham gás e luz, puxada de gatos da estação. O Clever, que se chamava assim porque se achava genial e um dia, folheando um dicionário resgatado do lixo, aprendeu que clever, em inglês, queria dizer inteligente, tinha um desses buracos com luz, mesinha e até TV. Pensou ainda em fazer um varal, não porque precisasse, não lavava roupa mesmo, mas porque o faria lembrar de alguma coisa da sua infância que não sabia bem o quê. Em poucos meses, praticamente decorou o dicionário, o que fez com que criasse uma linguagem muito particular. Não sabia articular as frases, mas sempre que podia jogava no ar uma palavra em inglês. “Você está hungry, man?”, ele perguntava aos ratos que passavam pela sua sala.

quarta-feira, 24 de junho de 2009

Elogio é bom e a gente gosta

Aconteceu mais uma vez. Abri a caixa postal e estava lá, inquestionável, indelével, irresistível: mais um elogio ao livro Por trás da Entrevista! Se vocês soubessem como isso acalenta o frágil coração escritor, meninos!
Quem escreve dessa vez é o jornalista Marcos Lessa que, obra ou não do acaso, já tem de cara, no sobrenome, pedigree de bom jornalismo. Diz ele que esbarrou no meu livro numa livraria perto de casa, que adorou a entrevista com o Joel Silveira e que gostaria de me dar os parabéns pela idéia da publicação e pela indicação ao Jabuti. Ah, sim, e que o tema deveria ser mais procurado por atuais e futuros jornalistas. Obrigada, Marcos. A idéia é essa.
Pelas minhas contas, aliás, o livro deve estar indo bem nas vendas. Assim que ele foi lançado, recebi um cheque gordo da Record. Depois de pular por toda a casa, comemorar cinco vezes e gastar todo o dindim em contas atrasadas, veio a puxada de tapete. Recebi, belo dia, uma prestação de contas que não só dizia que eu não teria mais nada a receber, como também que eu estava devendo à editora!
Depois de tomar uma aspirina para evitar um infarto, liguei para o setor de Direitos Autorais e eles me explicaram tudo. Ou ao menos tentaram. Ouvi, ainda com uma leve dor no peito, que eles pagam logo ao autor o valor correspondente ao primeiro lote de livros enviados às livrarias. Se os livros forem vendidos de primeira, negócio encerrado. Mas se as prateleiras criarem um pouquinho de pó e os livros do tal lote começarem a ser devolvidos, o acerto de contas entra em ação. E o que acontece é que o saldo subitamente devedor do autor vai sendo descontado nas próximas prestações de contas trimestrais, quando os livros vendidos no período compensam aqueles devolvidos. Portanto não é preciso desembolsar o dinheirinho já recebido (e gasto, diga-se), mas o autor não recebe mais até que a conta esteja equilibrada. Entenderam? Eu também não, mas assim é.
No fundo acho essa uma atitude simpática da editora, que dá ao autor a oportunidade de comemorar a publicação em grande estilo. Só lamento que não tenham me avisado de nada disso antes, para que eu não corresse o risco de gastar todo o chequinho no Pronto Cor.
Mas o que vale é que a minha dívida está diminuindo e isso é um ótimo sinal. Sinal de que os livros estão saindo das prateleiras e, logo, logo, o meu saldo editorial pode ficar azulzinho de novo. E se enquanto isso o livro continuar ajudando jornalistas como o Marcos, é sinal de que a vida pode ser bela e que nada mais importa.
Em tempo: Lessa também tem um blog. No lessa27.blogspot.com ele fala de jornalismo e de políticas públicas (ou a falta delas) com fervor. Cita inclusive o Jailson de Sousa, do Observatório de Favelas, quem tive o prazer de conhecer quando editei Favela, Alegria e Dor na Cidade (X Brasil e Senac Rio). Lessa também fez o dever de casa. Entrevistou João Ubaldo Ribeiro e Luis Fernando Veríssimo, em duas conversas agradáveis e divertidas. Fica aqui a dica de leitura.

quarta-feira, 17 de junho de 2009

Mais um!

Deve ter sido efeito colateral da Makita. Makita, pra quem não sabe, é um instrumento de tortura usado para fatiar cérebros de escritores incautos. Os pedreiros dizem que ele serve para cortar cerâmica. Na verdade, Makita é a marca da máquina. Também existem os ditos cortadores de pedra da Bosch, por exemplo. Mas é mentira isso de cortar pedra. Mentira! Ninguém fala sobre isso, mas a verdade é que essas ferramentas sádicas são especialmente criadas para fazer pequenos furos na massa cinzenta. O barulho – ziiiiiiiiim, zeiiiiiiim – vai aumentando na mesma proporção em que ganham profundidade os buracos na caixa craniana. Quando você menos percebe, com o restinho de consciência boiando na sua sopa mental, buracos negros de tamanhos variados já engoliram sua memória, sua capacidade de concentração, seu raciocínio, sua paciência e, principalmente, a sua noção do perigo.
Eu devia estar assim, cambaleante, vista turva, sonolenta, com o meu bom senso perdido em algum lugar dos meus neurônios esburacados quando, no sábado passado, aceitei fazer mais um livro. Disse, impulsivamente, sim, sim, sim! Só depois de dois dias entendi mais ou menos o que tinha acontecido. Mas aí já era tarde. Engoli poeira demais, crianças.
Então é isso. São três livros em andamento. E só não me jogo da varanda porque ela fica apenas no primeiro andar e porque quem me chamou para esse trabalho foi a Heloisa Buarque, minha eterna mestra, de quem estava com saudades há tempos. Com ela sinto que estou realmente aprendendo, aprendendo pra valer. E esse aprendizado não quebra, não faz barulho nem cria poeira. Ele é à prova de qualquer Makita.

quarta-feira, 10 de junho de 2009

Sublime, uma obra!

Vocês leram o mesmo que eu? Eu disse que essa obra da cozinha era uma coisa sublime?
(Pausa para o engasgo)
Estou aqui roxa de falta de ar e ainda tenho que ler isso? Vocês só podem estar de brincadeira comigo!
Não, crianças. Nenhuma obra em casa é sublime por mais de duas semanas, mesmo aquelas que têm prazo oficial de três. No final da segunda semana você já brigou com o encarregado das obras porque ele e sua equipe chegam para trabalhar ao meio dia (quando chegam) e já não quer mais escolher cor de rejunte coisa nenhuma. Você quer é atirar o rejunte na cara de todos os pedreiros, principalmente no chefe deles. Você quer mandá-los lamber toda a poeira antes de recolocar os armários de qualquer maneira. Que eles fiquem de cabeça pra baixo, está óóótimo. Também não importa o batente torto nem o acabamento questionável da azulejaria. A prioridade é acabar com a tortura preta da sujeira, com a poluição sonora debilitante e, principalmente, com as dores de cabeça que inevitavelmente acompanham o trabalho de um profissional malandro.
Enquanto isso a escritora freelancer sofre. Quem consegue escrever com esse stress, cambada?
Acudam. Mandem telefones de pedreiros, marceneiros, pintores. Está aberto o processo de recrutamento e seleção para as próximas obras. As de 2020.

sexta-feira, 5 de junho de 2009

Estamos em obras

Finalmente conseguimos começar as obras da cozinha. Que felicidade! Que expectativa deliciosa essa de ver um piso todinho novo, paredes idem, tudo na mais perfeita harmonia estética, sem tintas descascadas e rachaduras polvilhadas por todo o ambiente. Que delícia respirar fundo e sentir as lambadas da poeira lá no fundo do nariz, fechar os olhos e escutar o barulho infernal do quebra-quebra, passar os dedos pelos rodapés e sentir a textura áspera do pó que, provavelmente, vai habitar o nosso lar doce lar por um bom tempo.
Isso sem falar na diversão que é levar toda a cozinha para a sala. Agora tenho certeza de que o insight do loft aconteceu na cabeça de uma pessoa que estava fazendo obras na sua cozinha. O sujeito estava lá, sentadão no sofá, ao lado da geladeira e, num momento divino em que faiscaram luzes nas suas sinapses nervosas, percebeu que precisava apenas esticar os braços para pegar mais uma cerveja. Depois olhou para o outro lado e viu que o seu fogão ficava muito belo e distinto ali, ao lado da janela. E a máquina de lavar perto do aparador? Um luxo! E... eureca! Estava criado o loft! Isso sim é arquitetura, crianças!
Bom, como o nosso loft fica no faroeste e não em NY, ele parece mais um favelão, mesmo. Ao menos é a impressão que dá quando passo correndo por ele, aos soluços, um só olho aberto. E também quando percebo, macarrão encomendado por telefone no colo, que não tenho a menor idéia de onde encontrar um garfo. Deve estar no meio da montanha de louça empilhada na mesa e coberta com uma coleção até então desconhecida de panos de pratos dos mais variados. Como a gente acumula tantos panos de prato, gente? Onde eles estavam esse tempo todo?
Bobagem, vocês dirão. Obra é assim mesmo, não é? Não, não, não é não, essa não é não, senhores, não, não! E sabem por que? Porque essa é a primeira obra que uma escritora freelancer e um roteirista recém contratado bancam em vôo solo, quer dizer, duplo. Não é lindo? Não é emocionante? Não é sublime?
Então. Vou tentar me lembrar disso amanhã, antes de tropeçar no microondas, fazer café na cafeteira com guardanapo no lugar do filtro e sentar no sofá coberto com lençóis para saborear um pão velho. Em cima de um prato de plástico.


P.s Não pensem que vocês vão se livrar dos catarrinhos. Eles continuam.

quarta-feira, 3 de junho de 2009

Quem quer abacaxiii?

Ahá! Acharam que eu ia desistir? Nananina-não, crianças. Aí vai mais um catarrinho, antes que vocês mudem de idéia. Ou que não mudem, sei lá. Ando tão confusa...

III

Era na Travessa Chinesa, n° 5. Um destes fast-foods chineses. Curioso comemorar o aniversário de um amigo japonês em um restaurante chinês. Já no táxi, o desespero de Duda por não achar o lugar. Sempre ficava muito nervoso nestas horas. Do outro lado da rua imunda, uma calçada escura cheia de estrangeiros dopados. Na saída do hotel, quando percebi que tinha esquecido tudo e me lembrei da pantera do outro lado da porta de madeira com uma única tranca, tremi e pedi um copo d’água para um colega que não voltou mais. Tinha ido comprar os comprimidos e acabou preso. Ainda lembro dos olhos dele, arregalados, incrédulos ao andamento da nova lei.
Na casa de folhas, que a gente chamava assim porque tapava as janelas com folhas grudadas a cola, nada disso acontecia. A droga, qualquer uma, era visita freqüente. Depois, com folhas grudadas no corpo por pura diversão, vinha a brincadeira do gol. Um goleiro, um jogador e uma bola. A bola era sempre o perdedor. Arremessado, geralmente se machucava.
Tudo isso a gente lembrou na Travessa Chinesa. Eu com a mesma mochila de Primeiros Socorros que a Quênia também usava. Não servia para nada, mas em cavalo dado não se olham os dentes, era o que se dizia. Era bom mesmo não olhar, porque deviam estar tão podres e fedidos quanto os becos e ruelas ali perto. Eu mesma não tomava banho há três dias. Ou o que eu achava que eram três dias. Já havia perdido a noção do tempo fazia muito tempo, ou algo parecido. Acho que contava os dias de acordo com os pesadelos da pantera. Ficavam piores a cada dia. Se ao menos a gente morresse logo de susto, antes de ser comido vivo por ela, negra, com os dentes molhados de saliva pedindo carne de mulher, sua preferida. Foi uma eternidade enquanto a porta de madeira agüentou.

quarta-feira, 27 de maio de 2009

Vum ta tá

Antes de publicar aqui mais um catarrinho, tenho que conversar com vocês sobre o vum ta tá. Vum ta tá é o seguinte, acompanhem comigo: vum-ta-tá-vum-ta-tá-vum-ta-tá. A bolinha do karaokê cai sempre em cima do último tá, assim: vum-ta--vum-ta--vum-ta-, e o ritmo é esse mesmo, meio sincopado. Vocês aí que bateram os pezinhos no chão já entenderam. Estamos falando de uma valsa. Uma valsa alemã. Uma valsa alemã é bela e, como tudo que é alemão, também é rígida. Não tem jeitinho, rebolado nem gingado. É dançada direitinho, passos curtos pra lá e pra cá com um ligeira levantada dos pés ao final de cada movimento, para dar leveza e impulso. É bonito, gente, mas é tudo programado, dentro do script, sem guinadas nem grandes ousadias.

Pois bem. Em uma das nossas viagens para divulgar o livro Marilia Carneiro no Camarim das Oito, ganhei da Marilia esse apelido. Isso mesmo, eu sou uma vum ta tá. Estávamos em Belo Horizonte e, depois da noite do lançamento, esticamos para um jantar na casa de um chef e, conversa vai conversa vem, a coisa acabou na mais alta madrugada. No mesmo dia, de manhã, tínhamos uma entrevista coletiva no hotel. Bom, ao menos chamavam aquele lugar de hotel, mas eu tenho certeza de que era uma casa de repouso disfarçada. As janelas do quarto eram anti-ruído e as cortinas tinham o blackout mais poderoso de todos os tempos. A intenção dos donos era clara: que você entrasse, se jogasse na cama de molas americana, afundasse no travesseiro gordo e nunca mais acordasse. Ou melhor, que acordasse um mês depois para pagar a conta do que deveria ser apenas um final de semana.

Naquela manhã que ainda parecia noite, me senti na Finlândia. Nunca estive na Finlândia, mas deve ser assim viver sem a luz do sol. Era quase impossível sair da cama, ainda mais com uma leve ressaca. Mas lembrem-se, eu sou vum ta tá. Aos tropeços me arrumei, peguei até meu bloquinho para anotar contatos de jornalistas locais e, na hora marcada, cara limpa, eu estava lá. Se bem me lembro acho que passei até um batonzinho.

Fui a única. Nem os jornalistas apareceram. E olha que eles não estavam hospedados no mesmo hotel. Quando o atraso da Marilia já contabilizava meia hora nos meus ponteiros alemães, liguei para o seu quarto. Tirei-a de um sono profundo.

Mais tarde, num almoço, uma jornalista apareceu, leve e faceira. “Matei a coletiva”, disse, rindo e pedindo mais uma caipirinha. Gente, qual o segredo desses mineiros? Olhando aquela cena, aquela soltura toda, tirei o chapéu para a Marília. Ela tem toda razão. Eu sou vum ta tá em todos os espirais do meu DNA.

Isso tudo foi só para falar que a vum ta tá aqui sempre teve dificuldade de ler um livro sem passar antes pela introdução, pelo prefácio, por todo o caminho recomendado formalmente. De preferência, dando também uma olhadinha na ficha bibliográfica. Achava uma rebeldia sem tamanho pular essas preliminares. Com o tempo, no entanto, fui gostando de ler um livro sem ser antes influenciada por ninguém. Gostei de liberar as minhas próprias impressões e depois compará-las com o que diria o prefácio. Rebolei em plena valsa, crianças, uma loucura.

Por isso aqui vai mais um catarrinho sem bula. Sem explicações, sem sinopse, sem apresentação de personagens, sem justificativas. Virem-se. Aos poucos, com alguma sorte, vocês vão entender alguma coisa. E então a gente pode conversar de novo para que vocês me expliquem tudo. Sem hora marcada, é claro.

II

Esse incidente aconteceu no lançamento do livro de uma amiga minha, antes de tudo acontecer. Antes dos pesadelos, antes da pantera, antes da tragédia que virou a vida aqui. Dos meus 32 anos, é praticamente só o que eu lembro. Antes deste dia parece que nada existiu ou aconteceu. Dizem que é efeito dos remédios, mas pode ser choque. Não o elétrico, o psicológico. Estado de choque. Talvez esta seja a melhor maneira de definir os fantasmas que sobraram. Se é que eles estão por aqui, andam em estado de choque fulminante. Também falam em crise de abstinência, mas deve ser tudo junto, porque as overdoses continuaram, o que mudou foi a receita. O Clever, por exemplo. Agora ele deu pra comer lata velha de tomate. Diz que os fungos dão barato. As manchas verdes em volta da boca eu não sei se já são dos fungos, talvez seja coisa pior. O fato é que ele dá pulinhos quando encontra uma lata dessas no lixo, bate com a colher nela como quem entoa uma batucada e depois lambe como se fosse um doce de leite ou alguma coisa dessas doces que a gente tomava quando ainda existia leite. Outro dia ele também olhou comprido para um hambúrguer estragado, mas não fiquei para ver o horror show.

terça-feira, 19 de maio de 2009

Fora de si

O jornalista e escritor José Castello é um dos entrevistados do meu livro Por trás da Entrevista. Isso ele sabe. O que ele não sabe é que também é meu mestre. Leio as colunas semanais dele no Prosa & Verso como quem saboreia palavras de um guru. Leio atenta e guardo tudo o que o meu limitado material cinzento permite. Ou seja, muito pouco. Mas há ensinamentos inesquecíveis, como o de sábado passado. A citação era de uma “idéia feroz” de João Cabral de Melo Neto: “Escrever é estar no extremo de si”. E agora é Castello falando: “Nessa última fronteira, em que o Eu desvanece, o escritor pisa a parte mais inóspita de si mesmo – aquela em que se transforma em outro. Literatura não é confissão, é invenção.”
Fim da aula. Lembro da reação dos meus pais ao lerem o que vocês seis vão começar a ler agora: “É muito estranho pensar que foi você quem escreveu isso”, disseram, em uníssono. Fiquei imediatamente feliz com a declaração, sim, de papi e mami – ou vocês acham que eu ia mostrar o texto para mais alguém? Naquela época eu ainda era sã, crianças.
O fato é que escrever é mesmo isso. Quanto menos você se reconhecer no texto, melhor. Sinal de que o ego deu um tempo e abriu espaço para o que realmente interessa, que é a tal da literatura. Bom, não sei se posso chamar o Romance Inacabado de Gaveta de literatura. Provavelmente não, mas vá lá. Ao menos é um voleio, um gingar de corpo, um reboladinho. Molecas letrinhas urrando funduras.
E como já disse, aceito qualquer trocado. Afinal de contas eu podia estar roubando textos alheios, podia estar assaltando críticos, podia estar matando, mas estou aqui, trabalhando honestamente, oferecendo a alma e pedindo um minuto de sua atenção.
Poupem o motorista. A culpa toda é do trocador.

I

O que dava mais nojo nem era a saliva que jorrava na minha cara, era a língua rebolante, histérica, que não parava de se enrolar e mais parecia um bicho de tanta força que tinha. Uma minhoca rebelde, vamos dizer assim. Tirei forças sei lá de onde e arranquei um pedaço da minha blusa. Enrolei o pano em dois dedos da mão direita, dobrei e enfiei lá, naquela boca louca. Acho que consegui segurar a língua imensa, porque ao menos ele parou de revirar os olhos. A ambulância, porra, cadê essa ambulância? Nos seriados que via na Warner tudo acontecia bem mais rápido nestas emergências. E o dedo lá, na bocarra. Medo de ser mordida e perder a mão. Solta ele, berrou um cara que se disse médico, me empurrando. Aí foi patético. Fui empurrada para o lado mas como não consegui tirar a mão de dentro da caverna babada, tombei e fiquei presa ao corpo do epiléptico exausto. Vem cá, esse macaco aí é médico? Chama outro, gritei. Ele começou a fazer força para soltar a minha mão, mas aquela língua parecia mais uma algema. Inacreditável, fiquei pensando, e olha que nem tinha percebido ainda que, por causa do rasgão na blusa, meu peito todo estava aparecendo. Maravilha. Pior só escutar de algum imbecil que o pobre coitado da língua insana precisava era levar um choque.

Continua (se vocês seis quiserem)

terça-feira, 12 de maio de 2009

Bota-fora


Entrei na Garage Sale. Estou em liquidação. Bota-fora total. Preços inacreditáveis!

E tudo por causa da respiração. É que depois de inspirar e expirar em modalidades e ritmos até então inimagináveis, terminei o curso Arte de Viver preenchida com uma sensação de... catarro. Sim, em bom português, catarro do bom.
O curso terminou há uma semana e continuo tossindo os pulmões pelo avesso, o que faz com que a minha garganta fique irritada e eu me engasgue subitamente de maneira cinematográfica uma ou duas vezes por dia – geralmente em público. No início, mesmo sem perceber qualquer outro sintoma além da tosse, achei que tinha contraído a gripe suína. Já estava me despedindo do mundo cruel quando resolvi mandar um e-mail para a instrutora do curso e, quando ela confirmou que esses sintomas são comuns em alguns participantes respiradores, caiu a ficha. É claro.
O que aconteceu foi que o processo de respiração me proporcionou uma faxina interna daquelas. São anos e anos de ar parado e asmático mandando a conta. Mas também são anos e anos de quietude, de textos feitos pra dentro, de palavras confinadas ao espelho da crítica interna. Agora, que tenho blog e tudo, está na hora mesmo de expectorar. De cuspir fora medos, algemas, gradis. De abrir o peito, literalmente.
Mas para que um ar fresquinho entre, é preciso liberar a nhaca que estava lá dentro. E vou dizer uma coisa, meninos, a nhaca era grande. A última vez que tossi e me engasguei assim como uma condenada retorcida foi há mais de dez anos, depois de uma viagem ao exterior. Numa dessas vezes, tossi tanto que vomitei em pleno shopping (desculpem, contar isso também faz parte do meu processo, entendem?). Naquela época, o que eu estava botando pra fora era stress em estado bruto, mas um stress não expirado e muito menos nomeado.
Só que agora o meu super catarro tem nome, senhores. Não tem título, mas tem nome. Ele se chama Romance. Ao menos é assim o título do arquivo do word, “Romance”.
Não é nada que eu preze enormemente, tanto que resolvi liberar aos poucos aqui, no Garage Sale, aceitando qualquer trocado e jogando-o aos tubarões da rede. Mas é um exercício de texto que, agora vejo claramente, me permitiu escrever A bela menina. Ele não tem lá muito valor por si só, mas sim pelo caminho que deixou pronto para os passos mais recentes, dados com relativa segurança.
Portanto, esse é o combinado. A partir de agora, em catarrinhos semanais, publico trechos do bom e velho e inevitável Romance Inacabado de Gaveta. Em troca, aceito receitas caseiras de xarope.
É como dizem: para abrir espaço para coisas novas, é preciso se livrar das velhas.

quinta-feira, 7 de maio de 2009

Arte de Viver

Como eu já disse, o espécime dos escritores freelancers costuma ser meio estressado. É dado a fases de insônia, ataques súbitos de gastrite, obsessões e ansiedades variadas.
Hoje já sou bem mais light, mais equilibrada e livre de somatizações, mas penei um bocado no passado. Comecei a procurar meu jeito zen de ser há quatro anos, quando aceitei que a minha mãe me levasse pela mão à sua aula de yoga. Gostei tanto que já sei que vou continuar até ficar velhinha. De lá pra cá tive alguns insights no corpo e na alma. Um deles me dizia para aprender também a meditar. Seria um canal de criatividade, me dizia a vozinha interior. Por isso, quando uma amiga me perguntou se eu não queria fazer o curso Arte de Viver com ela, topei na hora.
Pra quem não sabe, o curso Arte de Viver ensina técnicas milenares e poderosas de respiração, meditação e relaxamento (sim, é aquele da propaganda com a Juliana Paes). No último final se semana, um desses cursos acontecia aqui, no faroeste, numa sala do colégio Anglo-Americano. Eram quase 50 pessoas juntas respirando o que nem seus pulmões sabiam serem capazes. Os meus pulmões, asmáticos, estão boquiabertos até agora. Eles não sabem o que é uma crise há mais de dez anos e não conseguiriam mais reconhecer uma bombinha, mas mesmo assim ficaram impressionados com suas performances.
O curso é cheio de surpresas e, para que permaneça assim, não posso contar muitos detalhes. Eu não poderia contar, por exemplo, que em determinado momento me vi imitando um elefante. Nem que as lágrimas rolaram sem parar no último exercício, no qual experimentei um transbordamento de profunda gratidão por existir. Também não poderia contar que, por causa da respiração, acho que perdi o meu medo de altura.
Então o que vou falar mesmo, de verdade, é que o trabalho dessa organização, presente em mais de 100 países, é um dos mais lindos que já vi. Seus programas, creditados pela ONU e pela OMS, já melhoraram a vida de mais de 20 milhões de pessoas em todo o mundo. Também é a maior ONG em número de voluntários. Todos os instrutores do curso, por exemplo, são voluntários. O astral positivo até a medula de Renata Baldi, nossa professora, não deixava qualquer fiapo de dúvida quanto ao poder da respiração.
Recentemente, em Bangalore, Índia, onde fica o ashram do Arte de Viver, foram comemorados os 25 anos da Fundação. Na filmagem do evento, o que se vê é literalmente um mar de gente, mais de dois milhões de pessoas encobrindo os limites do horizonte. Foi uma das cenas mais emocionantes dos últimos tempos. Agora imaginem aquele oceano de amor entoando o OM. Me dá arrepio só de pensar. Deve ter sido um daqueles momentos que fazem valer a existência.
A vida é sagrada. Celebre a vida. Cuide das pessoas e compartilhe o que tem com os menos afortunados. Amplie sua visão, porque o mundo inteiro lhe pertence.”

Sri Sri Ravi Shankar
(fundador do Arte de Viver)

quinta-feira, 30 de abril de 2009

Consta não

GRAVAÇÃO Bom dia. Bem-vindo ao 102. Para telefone comercial, digite 2. Para demais solicitações, digite 3.

Carla digita o número 2.

CARLA Alô, eu queria...

GRAVAÇÃO Diga o nome da cidade de onde está falando.

CARLA Rio de Janeiro.

GRAVAÇÂO Entendi. Rio de Janeiro

CARLA (???)

GRAVAÇÃO Diga o nome do estabelecimento que deseja pesquisar.

CARLA Baton Rouge.

GRAVAÇÃO. Entendi. Barra World Shopping.

CARLA Não! Cadê o atendente?

GRAVAÇÃO Diga se o nome está correto.

CARLA Não!

GRAVAÇÃO Diga se o nome está...

CARLA Não!!!

GRAVAÇÃO Aguarde um instante. Já iremos atendê-lo.

Musiquinha

ATENDENTE (mal-humorada) Alô, 102.

CARLA Oi, eu queria o telefone da loja Baton Rouge, é B-A-T...

ATENDENTE Consta não.

Som de ligação concluída (tu-tu-tu...)



“Consta não”? Isso é pior do que ser atendida por uma máquina, gente! Meu Deus, a mulher desligou na minha cara! E se eu quisesse outra informação?

Mas eu não sei porque me espanto. Essa ainda é a Telemar.
Pouca gente sabe disso mas no início do século trabalhei longos três anos para a Telemar. Fazia a revista interna deles e devo dizer que hoje tal lembrança me dá uns arrepios nas costas. A única coisa boa daquela época é que o salário da revista, que eu fazia em duas semanas, me permitia escrever o livro da Marilia Carneiro nas outras duas semanas vagas do mês.
E também aprendi algumas coisas:
Fazer alguém esperar por você é realmente uma tática política. Certa vez esperei mais de duas horas por uma reunião e, quando marcava entrevistas, tomava o cuidado de enfiar na pasta os livros que andava lendo na época. Era a única maneira de não quicar na cadeira ou comer o meu crachá.
Os odiosos gerúndios (“vou estar fazendo, vou estar ligando”), que de fato não podem ser considerados erros gramaticais, já me disse em entrevista o grande gramático Bechara, nasceram sem dúvida lá. Assim como as expressões emprestadas e mutiladas do inglês. “Suportar”, por exemplo, significava, pra eles, “dar suporte”. Vinha de to suport que, em inglês, aí sim, significa dar apoio. Isso eu achava engraçadíssimo, porque acabava sendo, de certa forma, um ato falho coletivo: “Então nós vamos suportar esse programa...”, eles diziam, enquanto eu me contorcia na cadeira. Também ouvi o termo “splitar”. Esse foi o recordista. “ Split”, em inglês, significa separar, quebrar em uma ou mais partes. Então era assim: “Nós vamos, agora, 'splitar' esse processo, e na próxima etapa vamos estar divulgando...”. Nessas horas não era tão engraçado. Pra falar a verdade, eu tinha vontade de cortar os pulsos.
Mas o meu aprendizado mais importante aconteceu numa reunião com altos diretores da empresa. Gráficos à mostra, eles falavam dos lucros e dos novos direcionamentos. Fusões, investimentos em commodities e celulares eram, se não me engano, os principais objetivos. E durante a reunião, em que não abri a boca como de costume, percebi que ficara de fora um pequeno detalhe: a insatisfação do consumidor. Quando o assunto veio à tona (não por minha causa, é claro), a resposta foi curta e clara. O consumidor que se danasse. Eles não estavam, de fato, preocupados com ele. Havia muita coisa para lucrar antes disso. O atendimento que ficasse para depois, quando todas as possibilidades de crescimento econômico tivessem sido exploradas. Sim, é difícil de entender, mas façam um esforço: essa, simplesmente, não era uma questão. Entenderam?
Dentro da minha bolha auto protetora, fiquei me perguntando o que eles fariam quando chegasse a concorrência, como a da Brasil Telecom.
Bom, quem lê jornal já sabe que eles compraram a Telecom (provavelmente dando uma gorda gorjeta para o governo) e viraram de novo um grande monopólio.
E o atendimento? Consta não.

quarta-feira, 22 de abril de 2009

SOS

Então está combinado. Eu continuo não contando os detalhes dos meus projetos secretos e vocês, com exceção da family, santa family, continuam não comentando.
Parece justo.
Ontem mesmo saí animada de mais uma entrevista com o militar. Percebendo a minha empolgação, meu marido vasculhou a sua coleção de filmes e me pôs para ver Nascido para Matar, de Stanley Kubrick. Já na primeira parte do filme, senti que o clima da história estava tenso. “Alguma coisa horrível vai acontecer, não vai?”, perguntei, já encolhida no sofá. “Vai”.
A minha primeira providência foi tirar o papagaio da sala. A segunda foi me afundar nas almofadas e continuar assistindo com um olho só. “Acho que agora você não precisa olhar”, disse o meu marido. Eu já estava com os olhos fechados há muito tempo.
Agora me digam, meninos: Como posso escrever a biografia de um militar se não consigo nem assistir Nascido pra Matar? O que é aquele gordo com cara de demo, gente? Eu só pensava em acender um incenso e gritar paz e amor, paz e amor!
O que eu faço? Não posso devolver o adiantamento porque ele já foi parar em contas, consertos de carro, pagamentos por serviços de pesquisa e transcrição de depoimentos e outras cositas.
Peço pra sair e encaro a humilhação? Consulto o meu papagaio? Mando um SOS em código Morse para escritores familiarizados com o tema? Socoooorro!
É isso que dá se meter a escrever por encomenda. Se vocês ainda não sacaram, isso é ser escritora freelancer. Não recomendo.

domingo, 19 de abril de 2009

Top Secret

Os meus cinco leitores andam indóceis. Querem saber, afinal, quais são os meus novos projetos. Pensei então em contar hoje, que estou com um tempinho livre antes de sair para mais uma entrevista. Seria legal é claro falar sobre eles, que são de fato interessantes, não fosse por um pequeno grande detalhe. Esses projetos interessantes são também...confidenciais! E agora, José?
O que faço eu, crianças? Fecho o botequim, coloco as cadeiras pra cima e acabo com esse blog, amarrando os meus dedos com esparadrapo todas as manhãs? Mas e os meus cinco fiéis leitores?
Mandem sugestões. Podemos inventar alguns códigos, podemos não inventar nada e mudar o nome dos personagens principais, podemos contratar um advogado, ou podemos continuar a encher lingüiça aqui até que os livros estejam prontos e possam ser divulgados. Não, isso nem vocês cinco agüentariam. Seria uma overdose de Índia, de yoga, de filosofias baratas, de poesias suspeitas.
Também poderíamos contar meias histórias. Posso contar, por exemplo, que um dos livros é uma biografia de um militar que, descrente da instituição, decidiu contar seus bastidores antes de mudar de vida (e de país, espero).
E dá para dizer que o outro livro é de uma pessoa importante no meio da moda. Um gentleman de Ipanema. Não posso contar o conteúdo das entrevistas, mas posso contar do cenário em que elas se dão. É num apartamento lindo, enorme, de andar inteiro e de olho no mar, daqueles que dão matérias memoráveis da Casa Vogue ou Casa Claúdia. Na minha primeira visita ao apartamento, fui recebida por um mordomo, que me ofereceu água e me mostrou um bowl recheado de balinhas e chocolates. Entrevista encerrada, ele foi orientado a me acompanhar até a portaria e pedir um táxi. “De cooperativa, não pega qualquer um, não”, disse o entrevistado gentleman.
Eu não estava de carro, é verdade, mas não ia voltar pra casa de táxi. E o motivo devia ser o mesmo pelo qual não tenho um mordomo. Mas quando um mordomo eficiente recebe a ordem de te colocar num táxi, você não tem qualquer alternativa. Então fui de Ipanema até o Leblon de táxi, parei para tomar um café, tirei o sapato de cristal e rumei para o ponto de ônibus do metrô que me levaria até o faroeste.
Isso é ser uma escritora freelancer.