quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Direto de Búzios

Estou de férias em Búzios. Sim, o tempo não está bom. Vocês acham que estou escrevendo no blog porque?
Ontem, dia nublado, andando sem rumo pela Rua das Pedras, decidi ir a um salão. Não foi a melhor idéia do ano. A recepção foi um tanto frustrante. Acabei de decidir que em 2011 não freqüentarei mais salões. Ao menos não em Búzios.

Eu não faço as unhas.
(Expressão de espanto e reticências do lado de lá)
Não, nunca. Tenho alergia a esmalte e a bifes. E a cheiro de tintas e escovas progressivas. A papo chato também (isso eu não disse, é claro, só pensei).

O que eu faço no salão?
Praticamente nada. Peço para cortarem as unhas, lixarem quadradinho de um jeito que nunca consigo em casa e tirarem levemente o que estiver sobrando nas laterais das unhas. Na cutícula ninguém mexe.

Faço isso há anos. Pago menos. Perco menos tempo. Gosto do resultado, da aparência de limpeza das unhas curtinhas e transparentes. A natureza e as histaminas são muito sábias.

Fazer as unhas sempre me pareceu um ritual meio sem sentido. Depois de encontrar a manicure preferida e encaixar o horário dela na sua agenda, você entra, pinta os cascos de verde ou preto (ou azul, amarelo fosforescente e sei lá que outra aberração cromática) e, dois minutos depois, já está borrado.

Ao menos comigo era sempre assim. Sou estabanada, certo, mas que jogue o primeiro vidro de esmalte importado quem nunca passou por isso. Daí você volta, meio sem graça, e fala para a manicure que te olha com cara de ai, que saco: “Borrou...”.

Acetona, algodão, tudo de novo. Gente, como é que a mulherada agüenta?
Já tive sérios questionamentos a meu respeito por causa disso. Cheguei a pensar que só lésbicas concordariam comigo. Nada contra o povo GLS, mas não é a minha praia. Sou meio desajeitada e não curto moda, mas ainda tenho fé na minha feminilidade. Só não faço as unhas, gente. É tão grave assim?

Aparentemente, para as manicures de Búzios, é gravíssimo.

Dei de ombros, voltei pra casa, cortei as unhas e lixei tudo torto, estendi o meu tapetinho de ioga na varanda e fiz uma saudação ao sol. Que é pra ver se ele aparece e eu paro de escrever bobagens.

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Feliz Natal, cambada!

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Jingle Bells




Ficar doente muda a perspectiva das coisas. Literalmente. Na horizontal, um olho aberto e o outro dolorido, você só enxerga lenços de papel, cartelas de analgésicos, livros, termômetro, copo d’água. O mundo de uma pessoa derrubada por uma virose pode ser bem limitado.

Virose é tudo aquilo que os médicos não sabem dizer o que é. Você se sente mal, tem delírios com a febre de mais de 38, e sempre, sem-pre escuta que “tem um virose rondando por aí”. Sempre tem, já repararam? Parece que elas se encontram no Facebook e combinam assim: “Aí, galera, é final de ano, tá todo mundo estressado e melancólico pensando na vida, tá na hora de aproveitar a baixa imunidade... vamo atacááá!!!”. E assim elas chegam, derrubando o que encontrarem pelo caminho – pessoas inclusive.

Foi mais ou menos isso que os meus neurônios fritos me escreveram num bilhete, antes de partirem sem data de retorno. Também lembraram que a última crise de asma acontecera há mais de dez anos e que foi triste, quase uma sensação de derrota, comprar de novo uma bombinha, usá-la e... não sentir nada, nenhum alívio.

Foi então que acatei a receita, arfei até a a farmácia e não fugi dos antibióticos. Meu médico foi bem sutil: “Se você não tomar vai desenvolver uma pneumonia”. Ele poderia ter sido mais gentil e dito que eu poderia desenvolver uma pneumonia, mas não disse. Parecia estar repassando um twitter da turma da virose. “Aí cambada, pneumonia na branquela ali de olheiras, vambora, um dois e jááá!”. (Isso tem mais de 140 caracteres, gente? Não saberia fazer essa conta agora. O antibiótico, o antitérmico e o granulado fluidificante sabor laranja estragada estão me deixando um tanto confusa).

Eu, hein. Então você dorme, tosse, tem pesadelos, tosse, agradece a santa sogra que mandou entregar comidinha caseira, tosse, desmarca entrevistas e compromissos, tosse, e, tosse, no dia seguinte faz tudo de novo porque a febre continua dando calafrios e depois suadouros.

Ho, ho, ho. Feliz Natal.

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Perto do chão

Nesse final de semana fui ao cinema. NYCC, ícone brega do faroeste. Noite de uma sexta-feira super povoada e abafada, pré-temporal. O programa de índio se justificava porque o filme escolhido tem, no time de roteiristas, uma grande amiga. Passei pelo corredor acarpetado do cinema, numa visão de Las Vegas tropical, e reparei em vários adolescentes sentados no chão de pernas cruzadas. Tão familiar aquela cena...sentar como índio no chão, em rodinha de amigos, com um pacote de biscoitos na mão, mochilas jogadas num canto. Tão adolescente, tão...tão eu quando adolescente, gente!

Ao final do corredor eu já tinha viajado no tempo e lembrado de mim mesma, estudante de comunicação da PUC, sentada de pernas cruzadas no chão com as costas apoiadas em um dos pilotis. Era a hora sagrada de jogar um pouco de conversa fora, combinar o final de semana, marcar o grupo de estudos. Naquela época não existia celular, crianças, e a gente conseguia combinar tudo direitinho, uma façanha.

Naquela hora do sentar de pernas cruzadas, breve respiro antes do estágio no Centro, a vida corrida parecia parar. Quando me formei, me dei conta de que sentiria muitas saudades daquele encontro diário. Claro que eu continuaria encontrando com os meus amigos, mas nunca seria a mesma coisa. Aquela reunião, sagrada, era a certeza da amizade sem muito esforço. Era estar lá, encontrar as pessoas certas e ponto. Sem agendas atribuladas, emails de encontra-não-encontra, mensagens de texto desmarcando horários. Sem maridos, filhos, chefes, empregadas, ou qualquer outro ente capaz de mudar a agenda.

Aquele encontro era garantido, zero estresse. E ainda perto do chão, pura reminiscência da infância. Depois que a gente cresce de verdade, o chão fica cada vez mais longe.

Deve ser por isso que gosto tanto da posição de lótus.

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Blindando a paz II

Esclarecendo melhor a posição do meu biografado, o militar: segundo ele, a ajuda das FA, nesse momento, ainda é ilegal, apesar da autorização do presidente Lula e do aval do ministro da Defesa. É que, em caso de apoio das forças militares, o comando da operação deve ficar a cargo do Exército e não da Secretaria de Segurança do Estado. Trata-se de uma questão de hierarquia prevista em lei da Constituição Federal.

Não é bem uma guerra de egos. Caso um militar, em tiroteio com bandidos, atingisse um civil, por exemplo, ele não poderia alegar em juízo que cumpria ordens do governador ou do comandante da PM, já que o Exército só atende ordens do Ministério da Defesa e da Presidência. E ter a responsabilidade de matar inocentes é tudo o que o Exército, que ainda luta para se livrar da sombra da ditadura, não precisa.

E agora, José?

É claro que, nesse momento, isso parece ser o de menos. Mas realmente pode causar problemas futuros para as FA.
Eu, por enquanto, reles civil amedrontada, ainda não consigo pensar tão longe. Talvez o governador tenha metido os pés pelas mãos, mas confesso que estou gostando da acrobacia. Na torcida para que o contorcionismo de tal parceria não atrapalhe a vida de ninguém, eu sonho, como todos, com um Rio de Janeiro melhor. O que agora, com ou sem quebra de hierarquias, parece ser incrivelmente possível.

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Para blindar a paz

Todos vocês seis já sabem que estou escrevendo o livro de um militar. Mais exatamente um capitão formado na Aman e bem inflexível quanto à participação do Exército na luta contra o tráfico: soldado não é policial e, portanto, não deve ser colocado em situações afins. O soldado não tem o mesmo treinamento que um cabo do Core e, pela Constituição, o uso de sua força em qualquer ação policial é ilegal.Para que essa "parceria" seja possível, seria preciso decretar estado de sítio.

Entendo os argumentos dele. Principalmente quando ele diz que o exército não tem que subir morro para matar traficantes. Mas confesso que ontem, vendo os tanques da Marinha amassarem barricadas como se fossem baratas, recapitulei. Há colaborações e colaborações. Os fuzileiros navais não entraram em confronto direto com os bandidos e foram cruciais na operação de ontem, no Alemão. Tanto que, à noite, quem recapitulou foi o próprio Exército, oferecendo uma ajuda negada há três anos.

Já vi que terei longas conversas com o meu biografado. Mas tudo em nome da paz. Ontem, vendo os noticiários, dava até nó na garganta perceber o apoio da população. Pela primeira vez, desde que me conheço por gente, também tenho esperanças no Rio de Janeiro. E suspeito que isso seja tão importante quanto o empréstimo de alguns urutus.

P.S. Terminei o freela urgente. Era o texto de um projeto inédito de transformação do universo artístico de Adriana Varejão em videoarte. Quando essa exposição despontar no jornal, anotem datas e horários. Sem dúvida vai valer a pena.

domingo, 14 de novembro de 2010

SOS


Azulejaria "de tapete" em carne viva, 1999, óleo sobre tela e poliuretano em suporte de alumínio e madeira

Acontece de vez em quando. Devo ter um certo ímã para emergências. Além de escritora freelancer, também poderia me intitular escritora SOS. Apareço correndo, desarvorada, um tanto sem fôlego, para assumir textos cabeludos que devem ser entregues anteontem de manhã cedo. Geralmente não consigo dizer não. Tenho exercitado esse aprendizado, mas ainda não cheguei ao Nirvana.

Daí pego o freela, fico preocupada, depois levemente desesperada, em seguida quase perco o sono, e mais um pouco caio dentro e gosto. Vai entender. Mas fato é que graças a esse trabalho urgente estou mergulhada no desconcertante universo da artista plástica Adriana Varejão, onde a carne é feliz e o barroco é “puro dentro”.

Quanto terminar o trabalho conto tudo. O blog, enquanto isso, tem que esperar. Ninguém disse que a vida é fácil, crianças.

Bom feriado pra vocês.

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

A princesa limpinha

Queria uma faxineira de verdade, que entendesse os seus conceitos de limpeza. Conceitos de limpeza podem ser muito subjetivos. Queria que as formigas simplesmente desaparecessem do planeta. Queria lençóis cheirosos sempre, toalhas sequinhas, chão brilhando. Serviço de hotel cinco estrelas com charme de pousada, funcionários silenciosos e discretos, vida que funciona sem que você nem se dê conta.

Queria uma vida de princesa, com uma camareira para escolher seus vestidos e lavar seus cabelos. Melhor, queria não ter cabelos. Devia ser de uma liberdade orgástica não ter mais cabelos que ficam oleosos num piscar de olhos ainda irritados com o xampu. Viveria com chapéus ornamentados para os dias de festa e chapéus mais discretos e leves para o ordinário cotidiano. Se bem que se fosse uma princesa o ordinário não existiria. Seria uma sucessão de bandejas de prata com frutas frescas, água gelada com folhas de hortelã, biscoitinhos de canela no meio da tarde, café com broinhas de fubá a qualquer momento. Se bem que assim seria uma princesa gorda, e princesas gordas não existem.

Viveria saltitando entre as dezenas de cômodos do seu palácio, impressionando-se ao ver os rodapés sempre tão limpinhos, sem um átomo sequer de poeira. Então voltaria para o seu arejado quarto e fitaria suas almofadas a prova de ácaros. Sentiria uma coceira leve no nariz e teria vontade de espirrar, mas não o faria porque, afinal, os ácaros não estavam lá. O que lhe traria uma leve saudade de espirrar, breve nostalgia do movimento, espasmo que sacode o corpo inteiro, expelindo micróbios e invejas.

Nesse momento olharia para o seu vestido engomado e perceberia um leve desconforto no abdômen. Vontade de liberdade com dificuldade em traduzi-la. Correria para a varanda. O dia estaria lindo, sol e céu azul lavado, como nas aquarelas que aprendia a fazer nas manhãs de terças e quintas, mas por algum motivo que não o sabia, entristecia.

Sentia enrijecerem seus pés massageados há algumas horas. Um gelado cobria sua cabeça perfumada. Fechou os olhos. Sentia-se asséptica. Incapaz de produzir bactérias, fungos, germes patogênicos e outros bichos similares e invisíveis a olho nu. Abriu os olhos. Viu muitas flores, rosas e antúrios entre elas, mas não sentia-lhes os aromas. Olhou mais uma vez. Pessoas choravam ao seu redor. Velas acesas. Tentou esticar os braços. Não respondiam. Tentou gritar. Garganta muda. Então só lhe restou sentir a textura suave do cetim bege sobre o qual estava deitada. Estava limpo e cheirava a amaciante de lavanda. Finalmente encontrara a higiene perfeita.

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Lançamento

É amanhã o lançamento da antologia de prosa do jornal Plástico Bolha, pela editora Oito e meio. Na livraria Ponte de Tábuas, no Jardim Botânico, às 19h30m. Eu vou, meninos.

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

A caminho



Eu quase desisti. Trânsito comprido, uma ventania até então inédita aos meus olhos semi cariocas, promessa de pancadas de chuva ameaçando a idéia de subir a serra. Enquanto as bandeiras de Serra e Dilma tremulavam forte na Lagoa, parei num posto de gasolina. Entrei na lojinha, comprei chicletes, andei pra lá e pra cá, vou não vou. Decidi. Sim, eu iria para Petrópolis votar. Ninguém mandou não mudar de seção eleitoral. Precisava cumprir o meu dever cívico.

Peguei a estrada orgulhosa de mim mesma. Perto do aeroporto internacional, as gaivotas planavam mais austeras do que nunca. O motorista à minha frente, janela aberta, deixava o forte vento brincar com a sua mão esquerda. Liberdade é isso. É seguir seu próprio caminho, seja ele qual for, desde que seja democrático.

domingo, 24 de outubro de 2010

O caminho do meio



Quando você estiver assim, assim, de moral baixa, desenxabido, descrente da pátria nossa, corra para a livraria mais próxima e leia Jorge Mautner. Ou assista seus bem fundamentados devaneios nos cursos que volta e meia pintam no POP. Siga corretamente suas instruções. Você provavelmente vai parar numa aula de tai chi chuan no Jardim Botânico e, olhando para as palmeiras, vai descobrir que a vida pode ser verde, amarela e... bela.

O futuro, segundo Jorge Mautner:

A civilização superior do amor nascerá no Brasil. Seremos seres exóticos e sentimentais, onde toda afetividade será imediatamente captada por elétrons e a religião se tornará apenas uma questão de consideração com o próximo. Como já disse o poeta Walt Whitman, o Brasil será o vértice da humanidade, onde a capacidade fluídica dos brasileiros de reinterpretar tudo imediatamente, sempre, fará com que justiça e liberdade possam aflorar juntas.

A escolha do Brasil como país sede das Olimpíadas, aliás, já faz parte de uma geopolítica da paz. Darcy Ribeiro já dizia estarmos nos meio da Índia, da China e de todas as terras do mundo, tamanha a riqueza de nossa mistura. É nesse melting pot, onde residem a maior floresta do mundo e índios ainda nativos, que frutificará a semente da convivência pacífica entre todos os povos. Nossa grande inteligência será a emoção e a catarse permanente instigada pela internet, que eliminará toda e qualquer chance de algum processo ditatorial ressurgir, nos levando pela mão à democracia e ao eterno neo-renascimento.

Viveremos eternamente, sem doenças nem segredos, com tempo suficiente para filosofar. Com a descoberta do DNA, do autorreplicante, da nanotecnologia e dos neurônios implantáveis, seremos controlados e controladores e superaremos todos os atritos. Será, finalmente, o fim da metafísica. O Brasil, assim, reviverá sabedorias antigas e será imitado e mimetizado, concretizando o que Ghandi quis fazer na Índia e não conseguiu. Todas as filosofias do mundo, que já estão aqui, serão saboreadas por todas as nações mundiais.

Como profetizou Stephan Zweig, o Brasil será mesmo o país do futuro, com o afeto como moeda forte. Quanto mais local, mais universal será o amor. Nosso caminho do meio será a esperança do mundo, onde tudo será construído através da interpretação do amor, da afetividade, do carinho. Seremos capazes de aplacar todo e qualquer ódio. Triunfaremos sem alarde. Mas com muita festa.

Que Oxalá e todos os 33 milhões de deuses indianos o escutem.

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Quoting the husband

Google é Deus se mostrando aos pouquinhos.

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

De carne e osso

Quando conto o que faço da vida por alguns trocados, costumo colecionar olhares de surpresa e súbita, extrema, incontrolável, implacável curiosidade. “É mesmo? Você é ghostwriter? E como é o seu trabalho, como você faz? ”, perguntam, olhos estatelados em mim como se eu fosse a primeira astronauta da Nasa a ter pulado num pé só em Marte.

Pensei em fazer uma palestra. No primeiro minuto eu diria que odeio o termo ghostwriter. Não sou medium para receber espíritos e nem gostei tanto assim do filme Ghost – já a minha irmã diz ter medo de metrô até hoje por causa dele.

Não, queridos, declino o termo. Sou uma escritora freelancer, ponto. O que quer dizer que escrevo por encomenda, colocando no papel o que o meu contratante não conseguiria fazer por conta própria, ao menos não num formato editorial. A questão de ter crédito de texto, mostrando que existi de verdade no projeto e que o autor não psicografou o livro, portanto, é importante.

Há pouco tempo encomendei um móvel, por exemplo, e não tenho vergonha de dizer que paguei pelos serviços de um marceneiro. Ora, e eu odeio esse termo de livro de matemática também, se uma pessoa não tem a técnica de redação adequada ao seu projeto, ela também não deve ter vergonha de contratar um profissional.

É claro que todo mundo sabe escrever – ao menos quase todo mundo aqui na Bruzundanga, onde milhões, infelizmente, ainda são incapazes de escrever sequer um bilhete. Mas escrever profissionalmente é outra coisa, e não estou comparando qualidades. É só uma questão de adequação e estilo. Well, well, às vezes isso também quer dizer qualidade, vamos ser francos, mas esse não é o xis da questão.

A questão é que escrever por encomenda é estabelecer uma parceria e não uma alegoria fantasmagórica. Também é, em última análise, fazer uma profunda amizade com o autor, estabelecer intimidade e criar laços verdadeiros, porque só assim a confiança surge. E essa é melhor parte. Costumo me apaixonar pelos meus personagens e não desgrudo nunca mais, mesmo quando perdemos contato porque a fila anda e a vida muda.

Escrever é ato de amor suspeito, subjetivo e solidário. Isso é, pra mim, ser uma escritora freelancer. De outro jeito a coisa simplesmente não anda, e os fantasminhas eu deixo para a ficção de gaveta.

Mandem suas perguntas. Responderemos na próxima palestra.

sábado, 9 de outubro de 2010

Eleições

Duas coisas sempre me impressionam em época de eleição. A primeira é a cobertura dos jornais, que focam mais na embalagem do que no conteúdo. Fala-se muito das campanhas, das carreatas, das mudanças de estratégia tipo Dilma trator para Dilma paz e amor, das buscas de votos nos públicos x e y. E parece muito natural transformar essa espécie de análise de discurso em jornalismo. Mas e os programas reais de governo, os posicionamentos econômicos, os compromissos partidários? Isso tudo, numa contradição insólita, é que fica parecendo enfeite.

A segunda surpresa reincidente é com a questão religiosa. É um tal de defender o aborto e depois negá-lo aqui, ir à igreja ali, falar com os evangélicos acolá. Ninguém parece se lembrar que, graças ao Iluminismo, o Estado é laico. Governo e religião não tem nada a ver um com o outro. Se a igreja católica é contra o aborto, problema dela. Os políticos não tem nada a ver com isso, ao menos não num estado democrático. Levar essas questões a sério politicamente é voltar à Idade Média e abrir espaço para um governo fundamentalista, coisa que, acho que todo mundo já sabe, não dá lá muito certo.

Estranho. Os anos passam dando marcha-ré.

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Extra!

Tem texto meu publicado no blog do jornal literário Plástico Bolha! Confiram aqui e aproveitem para flertar com todo o jornal, que é ótimo.

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Rapidinha

Não é por nada não, mas o que era aquele cenário lisérgico do debate de ontem? Tudo bem que o Brasil é o país do futuro, mas não precisavam colocar os presidenciáveis em Netuno...

Boa sorte para nós todos.

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Recordar (também) é viver


Hilda Hilst escreveu Baladas aos vinte. Jorge Mautner definiu como seria o mundo de hoje aos 21, com a Mitologia do Kaos. Meio século depois, as teses de sua trilogia reverberam como nunca pelas cabeças pulsantes.

De repente fiquei me perguntado o que eu, reles mortal, andava umbigando nessa idade. Então achei nos meus alfarrábios digitais um dos trabalhos preferidos da faculdade de jornalismo. Na folha de rosto estava escrito "Teoria da Imagem, prof. Flavio Martins, PUC-RJ, 1996".

Era um texto livre sobre uma foto escolhida pelo aluno. Típica pedida que podia acabar em desastre, mas grudei os olhos no Bispo do Rosário, com seu manto cheio de estandartes, e parti de buzum com uma amiga para a Colonia Juliano Moreira, em Jacarepaguá, hospício onde Bispo permaneceu internado por cinqüenta anos. De acordo com boletins psiquiátricos, era esquizofrênico paranóide. De acordo com os curadores da Bienal de Veneza, era artista da estirpe de Duchamp.

O texto a seguir, é claro, nem de longe se compara aos feitos de Hilst e Mautner. Descobri que amadureço muito lentamente.


Fora dos trilhos


Cenário: Colônia Juliano Moreira, Rio de janeiro, Brasil. Reduto de loucos e experiências psiquiátricas idem. Em bom português, um hospício. O pedaço de terreno que aparece na foto é apenas um retalho de uma prisão da extensão do bairro de Copacabana. O chão de areia branca, o branco do caule das árvores ao fundo e por fim o branco das casas de janelas azuis dão uma sensação de alva paz. Ledo engano. Nem o verde das árvores ao alcance do repouso dos olhos deveria convencê-los de que havia lá tranquilidade. Mas o fato é que convence. Paisagem bucólica, ela sugestiona repouso, descanso. Pensando bem, até que não é de todo mentirosa. Afinal, a exclusão do mundo lá de fora, às voltas com a ditadura da década de 60, não deixa de ser um justificado refúgio. Um diáfano “até logo” do mundo real. No caso de Arthur Bispo do Rosário, o protagonista da cena, um opaco adeus. O mundo dele cresceria ali, sobre o chão de terra batida, que guardaria pegadas de tênis bamba por quase meio século.

Tênis mais azuis do que a calça do uniforme, de onde o ator da cena tirou fios para bordar o manto com o qual se apresentaria a Deus. Visto de longe parece um agasalho peruano, mas basta o zoom para que os bordados desfaçam a primeira impressão. Detalhes, o mundo é feito de detalhes. Muitas vezes são pesados quando os carregamos nas costas. Quando carregamos inconscientemente, então, pesam toneladas.

Há sempre os que reclamam da rotina e bem sabem que ela nada mais é do que uma assemblage de detalhes, como aqueles bordados no manto de apresentação de Bispo. Minúcias que despertam euforia e angústia. Apertadas, traiçoeiras, fazendo graça com seus labirintos, cativam olhos infantis. Comparado a artistas naïfe e representantes da pop art, Bispo jamais conheceu seus contemporâneos de empreitadas artísticas revolucionárias. Preso como um fio terra à terra de seu próprio planeta criado na Colônia, ele jamais teve contato com a arte daqueles tempos. Seu mundo era outro, alojado nos muitos objetos do manto.

Dia após dia, mais desenhos foram morar no manto sagrado. Dia após dia, outras caminhadas no terreno da colônia. Nessas horas a linha do trem conduzia passageiros invisíveis, algarismos romanos faziam a conta inútil das horas, um carrinho de supermercado levava compras que jamais seriam consumidas. Adquiridos todos os objetos de desejo e artigos domésticos úteis que permanecem nos armários do esquecimento, os desenhos dão espaço à singularidade. Porque os dias podem até ser parecidos, mas não venham dizer que cada um deles não tem um babado qualquer de especial. O mundo capitalista costurou a sociedade do consumo, mas a bricolagem recupera os últimos suspiros das metrópoles.Enquanto as mãos estão cansadas e os dedos doendo de tanto bordar em vão, ainda há os olhos das crianças, sempre prontos para acompanhar uma partida de pingue-pongue imaginária. Ou a caminhada de Bispo.

O ciclo se fecha. Visto o manto, entende-se um pouco melhor os passos de marcas discretas no chão de terra branca. Passos lentos e experientes. Sabem para onde estão indo. O manto recebe o vento do impulso e levanta-se, confiante. Estóicas asas de um vôo turbulento. Bispo ganha altura em direção ao horizonte infinito. As árvores disfarçam os muros, o sol discreto é testemunha, assim como uma única pessoa perto das casas. Mesmo assim não vale, ela está de costas. Cúmplice da viagem só mesmo o manto-tapete-voador. Falta pouco para ele sair completamente de cena. O movimento se faz firme, decidido. Traduz toda a consciência do destino e dos passos disfarçados de tênis bamba. O adeus fica no ar. Para o que serve a despedida, se o tempo não estraga os bordados?


Trilhos finais

Silêncio. O sono dorme. Ondas coloridas amortecem os sonhos, outrora pesadelos. O único ruído vem do ressonar do escuro, cansado, anestesiado, com medo do claro. Com medo do amanhecer. As idéias, sufocadas durante o dia, se trancafiam na noite e nela procuram proteção. Acima de tudo, precisam de sanidade. Fechar os olhos é abri-los para um enorme espelho, esquecido no breu e lembrado na mais pura inconsciência. Nele nada se reflete, mas nem por isso nada se vê. Pois é na quietude e no relaxar de exaustas mãos que as imagens se revelam. Não importa se contorcidas ou não. Serão eternamente verdadeiras.


Quem quiser conhecer vida e obra do Bispo pode procurar pelo livro Arthur Bispo do Rosário, o senhor do labirinto, de Luciana Hidalgo (Rocco)

Em breve, pérolas do mestre Mautner pra vocês. Não percam.

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

O gato e as cartas


Habilidoso e rápido com as mãos, o gato de Alice embaralhava cartas sem que suas unhas rasgassem valetes nem damas. Fazia acrobacias com os ases e as copas enquanto explicava como seria a fundação do seu castelo moderno.

– Vejam bem, vou fazer a estrutura em círculo, como uma arena, um pátio interno, um panóptico se preferirem. Como uma torre moderna, uma Pisa rarefeita. Céus, como vocês me fazem ser prolixo. Estão vendo? Já temos aqui a base.

O castelo redondo ia sendo construído numa velocidade sem precedentes.

– Viram só? Já temos o terceiro andar. Agora vou deixar espaço para janelas.

As cartas iam subindo, subindo, e pareciam misturar as histórias buscando um pé de feijão gigante nos céus. Todas se equilibravam com elegância, como se tivessem nascido para estarem, cada uma, no seu devido lugar.

– Agora mais torres. Eu sempre disse isso à Alice, mas aquela garota estressada estava sempre tão preocupada em aumentar ou diminuir de tamanho que não prestava a mínima atenção. Torres são fundamentais. Para poder enxergar longe.

O castelo já era maior do que o gato, que levitava distraidamente para continuar construindo novos andares numa rapidez sem precedentes antes dos precedentes. Em poucos segundos ele estava tão alto que, visto do chão, parecia pequeno como um gato de verdade.

– Não sei se vocês já repararam, mas eu posso continuar nisso indefinidamente. Ouviram? In-de-fi-ni-da-men-te! Vão ficar aí de boca aberta e me deixar sumir no céu com esse castelo? Ou querem que eu pare por aqui? Sim? Até que enfim!

O gato desceu do décimo andar como uma pluma, dançando pra lá e pra cá divertidamente até sentar no chão numa pose um tanto professoral. Esticou as patas, espreguiçou-se e disse:

– Eu sempre falei isso para a Alice, aquela garota teimosa, mas ela nunca me ouvia. A vida é como esse castelo de cartas. Pode ir sendo construída in-de-fi-ni-da-men-te, anotem aí, in-de-fi-ni-da-men-te, mas também pode, ops, cair num segundo!

Com a ponta da unha do seu indicador, fez um gesto de quem quer cortar a cabeça de alguém e derrubou a sua torre de dez andares e uma cobertura num só golpe. Gargalhava.

– Vocês precisavam ver as suas caras agora! Ó, vida, o castelo ruiu! Só faltam os beicinhos... não chorem, seu patetas. Ah, se a Alice me ouvisse. As torres caíram porque assim é um castelo de cartas! É como a vida. Constrói-se tudo em bases muito rarefeitas e, por isso, de vez em quando a casa cai. Mas é claro que cai! É feita de cartas! Já viram um quatro de ouros feito de cimento?

O gato se ajeita, respira fundo e sorri.

– Por isso digam a Alice e não esqueçam: o importante é conhecer as cartas, guardar os coringas, entender os naipes e as regras dos jogos. E jogar. Embaralhar. Jogar de novo. Embaralhar de novo. Trocar de jogo. Embaralhar. Dar as cartas. Apostar as fichas. Perder de novo. Embaralhar. Fazer o castelo. E, quando o castelo cair, começar tudo de novo.

Espreguiçou-se mais uma vez, deitou esparramado no chão e abriu um sorriso ainda maior.

– É tão divertido!

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Àqueles que zumbem



Escritores freelancers são, geralmente, seres de saúde frágil. Tensos, com vontade de comer o mundo e uma certa dificuldade para pôr os pés no chão, costumam sofrer além da conta com detalhes insistentes da vida como contas a pagar, prazos, revisões intermináveis de texto, problemas com o marceneiro, odiosas listas de supermercado. Com isso eles produzem de forma nada poética gastrite, dor nas costas, zumbido. Sim, zumbido. Tinnitus, para os íntimos.

O meu zumbido começou há dez anos, depois de uma crise de tendinite. LER, para os íntimos. A minha cervical pediu as contas, mandou recado à patroa dizendo que estava muito cansada e deixou de lembrança tonturas, enjôos e, tempos depois, um zumbido persistente. Tipo apito no ouvido direito, tipo chiado no esquerdo.

Viraram-me de cabeça para baixo, sacudiram um pouco e não descobriram nenhuma causa orgânica para tal piada de mau gosto das minhas orelhas. Culpou-se, então, a pobre da cervical, que deste então vem se tratando com ioga e massagem e, agora, passou pela via crucis de uma semana de abstinência de café. No segundo dia o cérebro adernou, levantou bandeira branca e deu sinais de que ia abandonar o bote, despedindo-se com um gugu-dadá babado e quase imperceptível. Até hoje continuo tentando me comunicar com ele de forma inteligível – não sei se venho tendo sucesso, sinceramente. Também perdi o discernimento depois de tantas doses de descafeinados.

Abuso de cafeína pode ser uma das causas de zumbido. Muitas vezes basta uma semana de abstinência para que o chiado ou apito sumam ou diminuam o volume. Aprendi isso na palestra realizada aqui no Rio pelo Instituto Ganz Sanchez, da Dr. Tanit, reconhecida hoje como a melhor especialista no assunto do Brasil. A palestra fez parte da Campanha Nacional de Alerta ao Zumbido. Ao contrário do que se imagina, o zumbido é muito comum. E antigo. Van Gogh teria cortado a orelha por isso e Beethoven, em carta ao irmão, escreveu que seus ouvidos "apitavam dia e noite".

Hoje, cerca de 17% das pessoas no mundo sofrem do mal, o que representa mais do que asma, gota, cegueira ou Alzheimer, por exemplo. No Brasil, fazendo as contas, isso quer dizer que 28 milhões de pessoas tem zumbido!

Várias causas de zumbido já são conhecidas e algumas são até fáceis de tratar, como o abuso de cafeína (mais do que três xícaras pequenas por dia), de doces e alimentos gordurosos. Outras causas comuns são exposição a sons altos, otites, labirintites, envelhecimento, diabetes, pressão alta, doenças do coração, da tireóide, problemas emocionais. Uma única pessoa pode, portanto, ter várias causas para o zumbido, e é preciso atacar em todas as frentes.

Há vários tratamentos para o zumbido e é importante procurar um otorrino de confiança. E para evitar que ele se manifeste é preciso controlar o estresse com atividades físicas e relaxantes como... ioga e meditação. Bingo! Juro que foi o folder explicativo que disse isso e não a iogue aqui, crianças. Mas lendo o livro da Dra. Tanit, Quem disse que zumbido não tem cura?, tive a certeza definitiva que tenho mesmo um pezinho 39 na India:

Surpresos com o baixo índice de queixas de zumbido no país, os médicos resolveram averiguar. Vai que a cúrcuma, além de prevenir Alzheimer, também evita o zumbido, devem ter pensado. Depois de pesquisas e entrevistas, perceberam que muitos indianos têm, sim, zumbido. Mas eles acreditam ser o zuim um sinal de que os deuses estão dentro da pessoa, conversando com a sua alma.Portanto, ele deixa de ser um incômodo para se tornar uma benção. E benção não incomoda à noite nem angustia a vida.

Há! Como o meu papo interno não sumiu completamente com a abstinência de cafeína, vou levar fé nessa tese. Fico com os deuses.

Boa noite, crianças. Apreciem o silêncio enquanto ainda é tempo.

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Balada

Água esparrama em cristal,
buraco de concha, segredarei em teus ouvidos
os meus tormentos.
Apareceu qualquer cousa em minha vida cinza,
embaçada, como água
esparramada em cristal.
Ritmo colorido
dos meus dias de espera,
duas, três, quatro horas,
e os teus ouvidos eram buracos de concha,
retorcidos
no desespero de não querer ouvir.

Me fizeram de pedra
quando eu queria
ser feita de amor.


Essa é Hilda Hist aos vinte anos. Quem é gênio nasce gênio.

p.s. O título, para quem não sabe, não remete aqui a uma saída para uma boate. Não, meninos, balada também é um gênero poético, que remete ao poema escrito para ser acompanhado de música em bailes e festas. É um gênero caracterizado pelo uso do estribilho e também pela ausência de rigidez no número das estrofes.
Quem quiser mais que se delicie com Baladas, da Ed. Globo, na bela coleção da obra completa (ou quase)de Hilda Hist que, infelizmente, já não escreve mais baladas. Ao menos não por aqui no mundinho.

Bom feriado, meninos. Louvem a independência.

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Da série É isso aí

Assim que começamos a filosofar achamos que mesmo as coisas mais cotidianas levam a problemas para os quais só podem ser dadas respostas muito incompletas. A filosofia, embora incapaz de nos dizer com certeza quais são as respostas verdadeiras às dúvidas que ela suscita, está apta a sugerir muitas possibilidades que ampliam nossos pensamentos e os libertam da tirania do hábito. Assim, embora diminuindo nosso sentimento de certeza a respeito do que as coisas são, ela aumenta enormemente nosso conhecimento em direção ao que as coisas podem ser.

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

B-azar





Lugar descolado no Horto, tarde de domingo, um blush de leve no rosto para disfarçar a cor verde musgo de quem não sabe mais o que é pegar um solzinho. Respirei fundo e entrei, tentando manter um ar blasé que só os cariocas têm.

“Oi, tudo bem?”, me perguntou de cara um homem que parecia trabalhar no local.

“Tudo...”

“Veio para o bazar?”

Pausa. Nesse momento eu poderia ser ferina e pensar “não, vim fazer feira”, mas o fato é que o rapaz era muito gentil. De verdade.

“É...”

“Então vai colocando na cestinha o que estiver gostando, deixa os cabides nas araras mesmo”, ele ensinou, me entregando uma cestinha vermelha daquelas de supermercado. Mal sabe ele como aquelas informações foram preciosas. Eu já podia me movimentar com algum conforto.

“Qualquer coisa é só me chamar, viu, Carla?”

Meu Deus, ele já havia decorado o meu nome. Agora eu tinha a obrigação de comprar alguma coisa.

Eu estava num bazar da Osklen. Como vocês seis e meio (o meio a mais é sempre uma esperança) aí já sabem, acabei de escrever um livro para o Oskar Metsavaht. Fiquei fã do homem não só pelo império que ele conseguiu criar com a sua marca, mas também pela sua simplicidade e simpatia. De certa forma, o bom trato se refletia nos funcionários, que esbarravam aqui e ali com a Nazaré, mulher dele. Não sei se ela estava trabalhando ou experimentando roupas, já que o Oskar mesmo me disse que eles também aproveitam os bazares. Achei que ele tinha falado isso só para ser legal comigo, que tenho apenas uma camisetinha da Osklen por motivos óbvios. Não insistam por explicações, meninos, fica feio.

Quando recebi o convite para o bazar, portanto, pensei que aquela era a minha chance de prestigiar a marca. Eu tinha que comprar ao menos uma peça para usar quando encontrasse de novo com o homi, gente. Então olhei, olhei, olhei... e nada.

Uma amiga minha saiu de lá carregada e eu não consegui comprar nada, nadinha. Tudo bem, eu não estava muito inspirada no dia, mas me solidarizei com algumas pessoas que, passando as mãos pelas araras, se perguntavam como algumas peças deveriam ser vestidas. Literalmente. “Será que isso é uma camisa?”, perguntou uma mulher ao meu lado. “Acho que sim”, respondi, saindo de fininho. Eu não tinha a menor idéia.

Fato é que as roupas eram muito bacanas, mas não me identifiquei com a coleção. Ok, gostei de uma blusinha estampada, mas era grande pra mim e o P já tinha acabado. O resto me parecia trendy demais para o meu estilo não-me-olhem-assim. Sou sóbria, meninos, mui discreta, mais para o clássico com um quê de esportivo e cheirinho de incenso, e, principalmente, não gosto que a roupa chegue antes de mim.

Bazar, definitivamente, também não é comigo. Gosto mais das peças que estão nas lojas da Osklen, vestidos sonhadores, paletós bem cortados, casacos lindos de couro. E muitos zeros a mais nas etiquetas.

Fazer o quê. Sempre tive o péssimo hábito de gostar das coisas mais caras. A minha mãe costuma dizer que isso é bom gosto. Eu acho que é só azar, mesmo.

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Zen pedregulhos



Do outro lado da janela a Avenida das Américas se movimentava em ritmo frenético, faróis cortando rápido a hora do rush noturno. Cartazes publicitários de um centro comercial se elevavam acima dos carros, numa briga visual silenciosa. Sensação de estar em LA, no alto de um hotel, olhando a metrópole muda rugir lá embaixo. Do lado de dentro da janela, belo contraste: escutava barulhinho de chuva e água corrente. Estava prestes a fazer a melhor massagem de todos os tempos. Deixei quilos de pedras na maca. De repente, a vida era bela de novo.

Vivo dizendo para o meu marido, um roteirista estressado e um tanto caótico, o quanto é importante buscar a nossa paz interna. Parece piegas isso, eu sei, mas não há nada de mais importante na vida. Verdade é que a gente sabe disso quando nasce e depois passa a vida inteira desaprendendo.

Faço ioga há cinco anos e é incrível como, além de adquirir uma força muscular até então insuspeitada (quem acha que na ioga ninguém rala devia experimentar uma das minhas aulas), aprendi a ligar o power off: basta uma musiquinha dessas de cds vendidos no Mundo Verde para eu viajar para o centro da Terra.

Só que, com o tempo, precisamos sair da toca e levar esse estado de espírito para a superfície. E aí a coisa pega. São tantos obstáculos... o caixa mal humorado do banco, a diarista espaçosa, o papagaio que grita e assusta o pobre do vizinho que acabou de se mudar, o supermercado que insiste em continuar existindo. Como ser zen com tudo isso, seus neurônios se perguntam.

Há! Aí é que está! Simplesmente não sendo. A não ser que se mude para um mosteiro, é realmente sobre-humano manter-se calmo e sereno em todos os momentos da vida, principalmente da vida nas grandes metrópoles. O que se deve aprender, além de manter a classe e não arrancar os cabelos, é claro (seus e dos outros), é voltar ao estado de calma mais facilmente. É ligar o power off, mas sem precisar de artifícios como cds do Mundo Verde. Como fazer isso é outra história.

Respirando, por exemplo. Ou mudando naturalmente sua maneira de ver os problemas.

É comum a gente ouvir que os problemas servem para que aprendamos alguma coisa. Papinho. Problemas são problemas, ponto. É claro que você, tendo que passar por eles e sair bem do outro lado do túnel, vai aprender alguma coisa. Mas o aprendizado não ameniza o fato de que os problemas, caramba, são problemas! Problemas! Problemas! Não há nada de feio nesse nome, fale sem medo, não é palavrão!

Foucault já disse que habitamos um mundo constituído pela morte: morte do pensamento que teme a loucura, morte da ação que teme a delinqüência, morte do organismo apavorado pela doença. O homem tornou-se, enfim, um ser definido pelo negativo. Falha, fracasso, morte, falta. Flâmulas castradoras que esteiam o mundo moderno. Por isso mesmo, talvez, queremos sempre empurrar essas palavrinhas desagradáveis para debaixo do tapete, como se elas fizessem feio para as visitas.

Well, well, elas não fazem. Ao menos não quando as visitas ainda carregam algo de humano dentro de si. Como a paz, por exemplo.

Até a próxima. Mandem suas cartas. O consultório sentimental da blogueira zen funciona de segunda a quinta. Sexta, agora, é dia de massagem.

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Oh!



Desde que adquiri uma redentora licença poética e não remunerada do jornalismo, me afastando das manchetes e mergulhando nos livros, venho lendo com alguma desconfiança os jornais de todo dia. Enquanto tomo café, sinto que as chamadas de capa me trapaceiam a vida, me levam lá pra baixo, bloqueiam meu senso crítico ou simplesmente me mordem para depois assoprarem onde ficou ardendo – geralmente no meio da nuca, onde há um pedágio para as idéias que querem subir em terceira marcha, forçando os pistões do motor.

Adoraria fazer a experiência de não ler mais os jornais como faço quando viajo, a cada ano bissexto, se é que ainda sei o que são essas duas coisas, viajar e ano bissexto. Mas no dia-a-dia mesmo, na labuta, não consigo deixar de sujar os dedos com um pouco de chumbo dos produtos jornalísticos. Mas agora, meus amores, acho que a coisa foi longe demais.

Há algum tempo venho recebendo em casa, como um suplemento do jornal O Globo, a revista Oh! . Assim mesmo, uma interjeição de surpresa, espanto, deslumbramento. A revista, com matérias sobre vinhos, carros alemães, viagens para ilhas do mar Mediterrâneo, é para gente rica. Ok, I get it. Mas na última edição, uma determinada matéria me saltou aos olhos e rebelou um pouco o estômago. Saquem o título: “Seu jato...do seu jeito”

Há há há, pensei, é uma piada. Boa, essa. Segui lendo e não encontrei nenhuma confirmação do chiste, nada que me permitisse organizar os pensamentos com uma gargalhada de alívio. “Cama gigante, banheiro com ducha, mobiliário chiquérrimo: fabricantes apostam na decoração para deixar aeronaves com a cara do dono”. Ahn?

Como assim, gente? A reportagem é mesmo sobre isso? É. E continua, num tom muito blasé, afirmando que o mercado brasileiro de jatos está aquecido e que os proprietários não querem apenas um modelo com velocidade e alcance: eles querem decoração personalizada, com poltronas de couro, carpetes de boa espessura e madeiras africanas. Detalhes em tom pérola no acabamento e assentos com impressão em baixo relevo também são muito pedidos, aprendi, enquanto me perguntava por que aquela revista estava nas minha mãos e não nas da Ivete Sangalo. Ora, deve ser porque as revistas que a Ivete lê são importadas, bobinha.

Olhei a ficha técnica: tiragem de 60 mil exemplares. Será possível que existam, no Brasil, um país com metade da população ainda sem tratamento de esgoto adequado, 60 mil pessoas ricas o suficiente para comprarem (e decorarem) um jatinho? Lembrei de uma amiga que, cansada de receber ligações de uma gerente de banco que lhe oferecia planos de investimento, mandou na lata: “Minha filha, você está perdendo tempo comigo. Eu nem poupança tenho!”.

Ah, mas isso não tem nada a ver, vocês vão dizer. Pobre não gosta de ver madame tomando café da manhã nas novelas? Não sei dizer. Fiquei muito confusa agora.

Entrei no site no IBGE. Queria saber como andam os rendimentos da população brasileira. Desisti depois de ver que teria que pagar R$ 50 para baixar uma pesquisa de orçamentos familiares. Deprimi. Eu não só não posso ter um jatinho como não posso ter acesso aos números de quem tem jatinhos.

Agora me digam: não seria melhor não ler os jornais?

domingo, 1 de agosto de 2010

Pro dia terminar feliz




Acordar tarde, ficar na cama lembrando de sonhos emblemáticos (são muitos), fazer pouco caso dos jornais, almoçar sem pressa, esticar para um passeio na Praia da Reserva depois de tentar (e não conseguir porque dormiu-se demais) passear no bosque. Da Barra, crianças. Tudo para o dia terminar leve, sem lobos maus, arrematado com uma batida de pitanga e os melhores pastéis de camarão da cidade. O Rio é lindo, a vida é boa e o amor azulzinho.

Larguem o videogame e respirem ar puro, meninos.

sexta-feira, 23 de julho de 2010

Kant atropelado

Posso dizer que sou amiga da Cissa Guimarães. Durante dois anos fizemos parte de um grupo de estudos de filosofia e nos encontrávamos semanalmente para destrinchar Descartes, Bachelard, Kant, Aristóteles. Não sei como são os cursos convencionais de filosofia, mas sei que aquele foi especial. A turma, de apenas quatro pessoas espantadas com os loopings mentais causados pelas meditações metafísicas de Descartes, acabou criando um elo único, cumplicidade da boa de quem dava linha aos neurônios enquanto bebia goles de vinho em canecas (a sala era a de um consultório e o analista, também professor de filosofia, não tinha copos na copa – mas tinha canecas).

Por muitas vezes estendemos as cambalhotas paradigmáticas para o Diagonal, o Belmonte ou qualquer outro bar à espreita e aberto aos nossos sustos coletivos e solidários. A noite acabava tarde, com neurônios um tanto alcoolizados, mas feliz a toda prova. Era vida o que pulsava ali. Cheia de curiosidade pelo mundo, pelas pessoas, pela sociedade.

Por isso tudo, quando soube da morte do Rafael, o Rafa da Cissa, gelei. Não pude ir ao velório, chorei vendo as fotos pela internet e deixei umas flores na casa dela. Nada disso ajuda, é claro. Não há nada capaz de dissolver uma dor dessas, a gente logo pensa. Lembrei do povo indiano meio hare hare que estufa o peito para dizer assim: “a dor é inevitável, o sofrimento é opcional”. Porra nenhuma. Dizem também os neoindianos que nenhuma emoção dura mais do que um dia e meio. É por isso que, na Índia, o velório é especialmente dramático e há inclusive pessoas incumbidas da tarefa de fazer os parentes chorarem, botando logo toda a tristeza pra fora numa espécie de catarse. Tudo para depois ficar só o tal do sofrimento opcional. Isso na casa deles.

Na nossa, terra sem lei como a deles, aliás, a coisa é mais embaixo.
Lendo as notícias sobre o atropelamento, foi inevitável lembrar das nossas aulas de filosofia.

Estudávamos Kant, tentando desbravar a Fundamentação da metafísica dos costumes. É onde Kant fala da moral. De como ela não é natural, de como precisa de leis e preceitos rígidos para funcionar. A gente pensa e sonha que a sociedade é regida por uma determinada moral, certo? Mentira. A moral não pode se apoiar na natureza humana, mas sim (e somente) na razão.

O que rege alguma coisa na sociedade, quando rege, são as leis. É para isso que elas existem, para que o homem viva de acordo com a razão, constrangido por ela, o que faz dele um ser humano e não um animal que baba e segue o seu instinto. É a razão, na verdade, quem nos permite a liberdade. Somos livres para agir moralmente.

Para Kant, viver moralmente é ser racional, sendo a parte pura da moral o dever. É o entendimento, o poder de pensar segundo regras, o que nos habilita a entender o mundo das coisas. Para ele era o Direito que podia melhorar a humanidade, não a ciência ou a tecnologia. E sim, a razão pode ainda pensar o sensível. Carne e osso pressupõem razão e liberdade. O que quer dizer que ser livre aqui é possível, só que dá um pouco mais de trabalho.

As leis servem para o bem comum, e justamente por isso limitam (aqui a idéia de limite tão valiosa em Kant, em todos os sentidos) as liberdades individuais. É em nome desse bem comum e da segurança conseqüente que aceitamos frear nossos instintos, nossos desejos, nossas veleidades. Mas a razão também é livre para contrariar a natureza e há sempre uma escolha anterior à vontade, que diz se a razão será ou não levada em conta. Ou o que chamam de livre arbítrio. E aí surge o conflito entre a ética e o desejo.

E então acontece que no Brasil, terra da paixão, da raça, do jeitinho, a lei só é considerada quando conveniente. Quando ela incomoda a vida, seja impedindo um determinado trajeto, a guarda de uma criança ou um lazer tão inocente como o skate, ela deixa de ser lei para ser um detalhe irritante.

Ser livre, então, não será agir em conformidade com a parcela moral do homem, mas sim seguir, cegamente, um desejo. E assim todos, infelizmente, farão tudo errado mais hora menos hora: o Rafael e seus amigos andarão de skate em local proibido; os guardas da CET Rio farão vista grossa; os cretinos idiotas babacas imbecis disputarão um pega; os policiais corruptos aceitarão dinheiro para fingirem que não viram um elefante rosa-choque piscante com a tromba destroçada.

Não sobrará uma só alma inocente. Bom, sempre tem alguém pronto a chamar os bombeiros. Mas esse vai chegar tarde. Como sempre chegam as leis.

Se Kant e outros filósofos fossem estudados a sério nas escolas, talvez o Brasil fosse bem diferente.

Força, Cissa.

terça-feira, 13 de julho de 2010

O pátio está vazio e os súditos mortos
Reino sozinha
Presa na torre
olho pra baixo
Não vejo tranças nem crocodilos nem alçapões
Apenas minhas pegadas aflitas
desaparecendo como poeira no vento
Isso é porque finjo que vou mas fico
digo que fico e vou
Cadê as bruxas dentro das mulheres brochas
perguntaria Piva
Onde o rock'n roll?
Morreram todos na batalha moderna
onde o novo é rei
a falta farinha branca que engorda
e o sonho produto ou qualquer coisa vendável
a dez prestações sem juros no Visa
Esconjuro então o meu reino
Mando os soldados para casa
Vão beijar suas mulheres, digo
Vão olhar suas crianças, grito
Eles me olham incrédulos
intraduzíveis
e perguntam entre si
Quem é essa mulher louca
Desviando o olhar se respondem
Deixa ela aí na janela
Deve estar variando
Devia era pegar numa panela
Olha lá que cara amarela, deve estar doente
Olha mais não, irmão
Deixa ela
Uma hora ela cansa, vai doer o cotovelo murcho
E largar da janela
Eu, hein, murmuram
E deixam ela

(E assim morreu o rei e acabou-se o reino. Sem internet, entediou-se a rainha. Engoliu o mouse e, indigesta, nunca mais saiu do castelo.)

domingo, 11 de julho de 2010

Amanhã é segunda

A Copa acabou, crianças. Hora de voltar ao trabalho.
Aproveitem e visitem o nosso novo site:

Moinho Roteiros e Textos

Aceitamos críticas, sugestões, encomendas e simpatias.

sexta-feira, 2 de julho de 2010

Aguenta que ainda é penta



É só um jogo, diz o Galvão. Mas o que fazer se, ao ouvir isso, temos vontade de mandá-lo definitivamente calar a boca?

Confesso que chorei vendo o mea culpa exagerado de Julio Cesar. Não merecia. Nem ele nem eu. Nem vocês e, vou dizer, acho que nem o Dunga.

Parece que o sangue quente, o "pobrema de nervo", é coisa de sul-americano, insinuaram perigosamente os alemães. Os holandeses, claramente, trabalharam em cima dessa tática, cavando faltas ridículas e fazendo cara de nada depois. Vai ver é isso mesmo. Assistir ao Robinho dando bronca no branquelo fingido deu até um pouco de pena. Era a ingenuidade em campo, quase a imagem imaculada do bom selvagem. E logo no lado dos brasileiros, os malandros, os espertos, os Gersons.

Será que estamos perdendo o nosso jeitinho, gente? Será um efeito da globalização? Do aquecimento global? Do Lula? Da Dilma?

Sabe-se lá. Mas não vou criticar a seleção não. Achei que jogaram (e choraram) o que podiam. Que venha 2014. Até lá o meu interesse por futebol, é claro, como há de ser entre a maioria da mulherada, estará hibernando em lençóis limpinhos.

Retornarei revigorada como nunca. Aguardem.

domingo, 27 de junho de 2010

O Brasil é nosso


O Dunga pediu desculpas, o técnico da Alemanha enfiou o dedão no nariz, a Argentina venceu do México, o mundo gira e a lusitana roda e, enquanto isso, a gente tenta trabalhar. Leio A invenção militar do Brasil, de Nelson Werneck Sodré, antigo companheiro de pesquisas. Conheci seu trabalho lendo a História da Imprensa no Brasil e devo a esse livro boa parte da fundamentação da minha dissertação de mestrado.

Dez anos depois, maridão fez o imenso favor de topar com esse livro sobre o exército. Em tempo, caso haja alguém de fora do círculo dos seis fiéis leitores estranhando a área de interesse: o livro que estou escrevendo é sobre a história de um militar. Mais precisamente um oficial formado na Aman, a Academia Militar das Agulhas Negras. A obra não poderia ter chegado em melhor hora.

Além de lançar um lúcido e embasado olhar sobre fases negras como a campanha de Canudos, a Intentona Comunista e, é claro, o golpe de 1964, Sodré também chama a atenção para vários momentos da história do Brasil em que os militares estiveram ao lado do povo (campanhas da Abolição e da República, por exemplo) e de manifestações progressistas e democráticas como a campanha O Petróleo é Nosso.Em todos os casos, lembra que a história dos militares jamais pode ser vista um naco isolado do processo político brasileiro, de todo o bolo de imperialismo e latifúndio de que é feito o nosso país. Uma lufada de esclarecimento numa seara tão contaminada de preconceitos pós-traumáticos.

Outra vantagem de ler Sodré, autor da Velha Guarda, é reciclar o vocabulário: contubérnia, infrene, tíbio, guante, lêmures, madorna, pretoriano, aprisco e janízaro foram apenas algumas das palavrinhas que correram para matar as saudades do Aurélio, sempre em alerta na tela do computador. O que faz lembrar que a gente que é mui jovem, jovenzinha mesmo apesar das ruguinhas de trinta que começam a aparecer, não sabe é de nada.

Boa sorte pra nós amanhã, cambada.

domingo, 20 de junho de 2010

Assim não vale

Eu não sei o que rolou entre o Dunga e o repórter Alex Escobar, da TV Globo. Mas sei que falei cedo demais. Depois de abrir os trabalhos da Copa aqui criticando a imprensa pela implicância com a seleção, capitulei. O comportamento de Dunga hoje na coletiva depois da bela vitória contra os brutamontes da Costa do Marfim mudou o meu placar. Não acredito mais na chave Seleção X Jornalismo. O jogo ali está mais para Dunga versus a pura e simples educação. Uma canelada nos bons modos.Tsc tsc.

sábado, 19 de junho de 2010

Ontem o mundo perdeu algumas vírgulas. O que é triste porque os pontos finais podem ser muito perigosos.

Longa vida a Saramago.

quinta-feira, 17 de junho de 2010

Boa sorte, Brasil


Ok, vocês venceram, vamos falar de Copa.

Em toda Copa é a mesma coisa. Quando começam a se agitar as bandeirolas verdes e amarelas no estilo festa junina, decorando ambientes até então alheios ao futebol, acho um saco. Tenho uma sensação de deprimida rabugenta do tipo “ai, lá vem isso tudo de novo”, como quem reclama que nossa, o natal já está aí – outro comentário cíclico e unânime dos mais irritantes, diga-se. Depois continuo achando um saco, e acho um saco até os quarenta e cinco do segundo tempo, ou seja, no dia do primeiro jogo. É nesse momento que algum espírito leve e patriótico sussurra gentilmente em meus ouvidos algo como “se não pode contra eles, meu bem, una-se a eles...”. Então sento para ver o jogo, ainda sem palhaçadas decorativas como balões, unhas pintadas nas cores da bandeira ou qualquer outra coisa que lembre a fantasia de um torcedor que é muito bonita de ver na televisão, imagem que dignifica e dá sentido ao estádio, mas dentro de casa, convenhamos, é meio patética. Ui, desculpem o mau humor, crianças.

Depois que vejo o primeiro jogo, no entanto, sou tomada de um discreto e silencioso amor à pátria. E então transfiro a minha rabugice ao jornalismo esportivo. Fico com vontade de engrossar o twitter com o Cala boca, Galvão mesmo sem nunca ter entrado em um desses microblogs, e me descabelo com a cobertura coalhada de críticas, essas sim, muito mais recalcadas do que a minha ensimesmada resistência à pura alegria alheia.

Leio a manchete do jornal O Globo no dia seguinte e vejo nitidamente um novo jogo nas rodadas: Jornalistas X Seleção brasileira. Fico me perguntando por que jogar contra. Ok, o jogo foi meio insosso. Era o primeiro da Copa, e estavam todos esquentando os tambores. Mas fazer um título acintoso daquele, que só serve para comprar briga, me parece pura incapacidade de encontrar assunto. Se o Dunga quis manter os treinos em segredo, deve ter sido porque já estava de saco cheio de repórteres sedentos para arrumar algum troço qualquer de errado na seleção. Certo ele. E o que os jornalistas queriam, nesse primeiro jogo, para compensar o mistério de antes? Fogos de artifício? Passes de mágica? Coreografias rebolativas?

Sabe-se lá. Seja o que for que eles busquem para preencher o branco das suas telas de computador, um placar de vitória jamais será suficiente.

p.s. Eu não vi o jogo, mas fiquei triste de saber que os Bafanas Bafanas perderam para o Uruguai. Adorei o jeito deles de entrar em campo, cantando com um ritmo e um decibel que só os africanos têm. De arrepiar.

quarta-feira, 9 de junho de 2010

É isso aí

Em que ponto nos encontramos agora?

EKSTERMAN: Estamos emergindo do grande silêncio, embora ainda intoxicados pelas futilidades dos sentidos e pela afirmação do egoísmo, manipulados pelo mercantilismo que reduziu todos os valores aos valores do mercado. O ser humano deixou de conjugar o verbo ser para conjugar apenas o verbo ter.”

Ler numa despretensiosa manhã de sábado palavras tão corajosamente esclarecidas como essas é algo que me acalenta. Principalmente sabendo que elas estavam em pleno caderno Ela, criando ironicamente uma espécie de clareira do bom senso, espasmo de visibilidade na cegueira geral dos modismos consumistas.

O entrevistado, Abram Eksterman, psiquiatra e psicanalista, é autor de Interlúdios em Veneza – os diálogos quase impossíveis entre Freud e Thomas Mann (Editora Rubio). As conversas do livro, testemunhadas por um casal apaixonado, são fictícias: o psicanalista e o escritor encontraram-se apenas uma vez em suas vidas. Mas as reflexões que surgem delas parecem ser pra lá de reais. A matéria é de Bety Orsini e a entrevista pode ser lida na íntegra em oglobo.com.br/rio/bairros/bety

Vida longa ao Ela.

domingo, 30 de maio de 2010

Livro, livro meu



Pode não parecer, mas a minha profissão ainda é um tanto exótica. Difícil de regulamentar, de mensurar custos, de estabelecer contratos e créditos, de receber pelo combinado no prazo correto e de lucrar. No entanto, na hora em que uma pessoa descobre o que faço da vida, surge um inexplicável vínculo íntimo, como se nessa hora ela descobrisse que, além de eu ter a profissão mais acessível do mundo, ainda torcemos para o mesmo time e para a mesma escola de samba.

Então, subitamente, as regras e convenções de trabalho entram em suspenso e ser escritora freelancer passa a ser o mesmo que pertencer a uma espécie de seita criada especialmente para ajudar todos aqueles que tem um livro para publicar ou que querem contar sua história numa biografia. E não são poucas essas pessoas. O problema é que, por mais interessante que toda história de vida seja (e acredito piamente que todas elas são), nem todas são interessantes editorialmente. O que quer dizer que nem todas tem chances de serem publicadas, ou ainda que não tenho bola de cristal para saber o que vai virar ou não um best-seller.

Posso ter algum olho clínico já um pouco treinado, é claro, mas não sou mancomunada com o povo que escolhe os Jabutis nem participo de reuniões secretas do Pen Clube. O que tenho é algum conhecimento aqui e ali, o que me permitiu por exemplo levar o original do livro da Ana para a Ediouro, mas só enfiei aquelas 257 páginas num envelope e rumei para Bonsucesso no táxi mais caro de todos os tempos porque tinha plena confiança no potencial da história. Eu sabia que ali tinha tempero e que o editor, que eu já conhecia, poderia curtir. Deu certo e o resto da história vocês seis, felizmente, já sabem.

Mas nada disso sobe à superfície nesses encontros amenos da minha vida e volta e meia volto pra casa com textos para ler e, quem sabe, editar e publicar. São noites angustiadas as que se seguem. Atualmente, por exemplo, tenho na minha mesa de cabeceira uma biografia de 250 páginas que aceitei ler porque queria de fato poder ajudar o autor e porque, no fundo, no fundo, acho mesmo que todo mundo pode ser publicado. Mas as leituras, infelizmente, insistem em me dizer o contrário. Todas as histórias são interessantes, sim, mas daí a serem publicadas é uma questão que só os deuses editoriais responderiam, se existissem.

Enquanto não resolvo tais dilemas, penso em mil coisas. Umas delas é criar um selo editorial especializado em histórias de gente comum, em não-celebridades, em pessoas que não precisaram cruzar as Américas numa bicicleta nem descobrir o modus operandi dos gafanhotos para se considerarem dignas de algum crédito, de um rótulo qualquer do fait-divers que organiza a nossa existência. Pessoas que, como diria Charles Dana, criador do jornal The Sun, exemplo clássico de imprensa sensacionalista, foram mordidas por um cão – e não o contrário. Seria um selo, enfim, especializado em seres mortais, algo como Rame Rame publicações porque jamais podemos perder o bom humor.

Outra saída seria esquecer o mercado, editar todos esses livros e levá-los para editoras que publicam sob encomenda, a custos nem tão altos, e ainda distribuem os livros xodós com muita sobriedade. Seria um nicho, sem dúvida. Mas nem todas as pessoas físicas tem condições de pagar pelo meu trabalho de copidesque e nem todo escritor freelancer quer ficar alijado das prateleiras da Travessa pra sempre.

Então volto à leitura, pensando no texto que vou ter que escrever no dia seguinte para o projeto do momento. Capaz de eu misturar as histórias e incluir reflexões filosóficas profundas no livro do militar objetivo.

Talvez as pessoas tenham razão: meu trabalho é diferente mas, de tão dado aos caos, muito humano. Logo muito próximo, muito acessível, muito do tipo que faz todo mundo querer tirar uma casquinha. Pena que a casquinha vem sem seguro e nem sempre garante a bola de sorvete. Muito menos a cobertura.

Bom domingo, crianças. Pensem nas suas futuras biografias e peçam uma banana split por mim.

sábado, 15 de maio de 2010

Pronto, falei



Agora que já saiu na imprensa posso falar. Momento histórico, meninos. Um dos livros que venho escrevendo (está na reta final) é sobre o estilo de vida carioca inspirado em Ipanema. Entenda-se por estilo de vida aqui a maneira de ver o mundo, de lidar com o corpo, de cuidar da saúde, de não julgar demais as atitudes alheias. Isso é Ipanema: alma livre, pegadas sensatas, corpo enxuto.

Quem assina é Oskar Metsavaht, da Osklen, com quem tive o prazer de conviver por um tempinho no ano passado. Sim, vocês seis aí já sacaram: é ele o gentleman de Ipanema. No seu apartamento, com uma vista alucinante do Arpoador, conversamos de tudo um pouco, de A a Z, até eu me dar conta de que a cabeça criativa do Oskar é como a internet: as idéias começam aqui, depois dão um pulo lá na frente, cambam para a direita, dão meia volta, derrapam e pronto, eis mais um insight. Puro hipertexto. Confesso que muitas vezes me perguntei de onde, no meio daquela barafunda viajante que eu reconhecia rindo sozinha ao ler os depoimentos, eu poderia tirar algo coerente o suficiente para ser chamado de livro.

Mas não é que deu? Oskar também sabe seguir a onda: deixou Ipanema falar lá da janela e mostrou o caminho desse estilo de vida que anda cativando gente do mundo inteiro. A idéia do projeto, aliás, veio de um produtor americano, sedento pelo nosso colorido e pela possibilidade de vender o livro em Miami, endereço da mais nova loja da Osklen. Tem tudo a ver.

Quanto estive em Miami há exatamente dez anos, deixei nas minhas pegadas de all star todos os preconceitos batidos de mestranda neo-hippie da UFRJ que até então carregava na mochila. O queixo balançou, caiu discretamente e, garanto, adorei Miami. Claro que ela pede um cartão de crédito à altura, mas no meio de um transe entre uma Victoria’s Secret e uma Abercrombie dá para fugir dos shoppings e passear sentindo a maresia em South Miami, encher os olhos com a arquitetura de Philippe Starck no Hotel Delano ou com os jardins deslumbrantes da Mansão Viscaya, em Coconut Grove. Entre um programa e outro, uma enorme e deliciosa Ceasar Salad, daquelas que nem o Outback faz igual.

Enquanto o livro não é lançado, fico sonhando com um retorno a Miami. Só não sei se vai dar para comprar alguma roupitcha na Osklen. Lembrem-se, crianças, sou uma escritora freelancer. E ainda não encontrei o meu Harry Potter. Raios.

quinta-feira, 6 de maio de 2010

O psicopata mora ao lado



Eu nunca fui muito de televisão. Quando era criança acho que nem sabia onde ela ficava, mais interessada que estava em dar comida para os cachorros, levar couve para o coelho, ver se as codornas tinha botado ovo e apertar tanto os porquinhos da índia que sinceramente não sei como eles sobreviviam. Eu não morava numa fazenda, era apenas um sítio, e por isso mesmo vivia dizendo que, quando crescesse, queria casar com um fazendeiro rico.

O fazendeiro não apareceu e acabei indo morar com um roteirista. Que diferença. Fora o meu papagaio, a televisão é hoje a grande estrela da casa. E de lá, surpresa, começaram a sair coisas boas. Filmes, muitos, mas especialmente seriados. Eu, que até poucos anos atrás mal sabia que Sony também era um canal além de uma marca, me vi viciada em uma penca de seriados.

Comecei com Mad About You. Na época escrevia a minha dissertação de mestrado e a hora do seriado era mágica, sagrada e redentora. Era quando eu descansava dos meus rocamboles teóricos e ainda aproveitava para fazer um lanchinho. Telefones eu não atendia nem a pau e quem tocasse a campainha naquela hora levava bala. Depois vieram Friends, The Nanny, Seinfeld, Medium, Sopranos, Mad Men. Com exceção de The Nanny e Medium, vi todos, to-dos os episódios desses seriados (estou esperando ansiosamente a segunda temporada de Mad Men).Fiquei tão nerd que algumas vezes cheguei a citar diálogos do Friends em conversas com amigos, só para me fazer explicar melhor – ainda salvo a minha pele lembrando que tenho mestrado ou agora é tarde?

Teve ER também, mas depois que meus pais tiveram o mau gosto de se operarem como que por hábito larguei. Mesmo hoje, com os dois bem comportados, não tenho mais vontade de ver. Por que tem sempre alguém com câncer nesses roteiros, meninos? Tsc, tsc, que falta de imaginação.

Mas nenhum desses seriados, até hoje, me fez sofrer tanto quanto Dexter. Dexter é um psicopata do bem, se é que podemos falar assim. Aos 3 anos foi adotado por um policial. Na adolescência, começou a manifestar seu comportamento psicopata matando um cachorro do vizinho. Quando o pai descobriu, se justificou dizendo que o cachorro latia demais. Ops. Sabendo a encrenca que botara para dentro de casa, o policial Harry começou a treinar o filho, ensinando-o a controlar seus instintos, a fingir empatia pelos outros e extravasar seus impulsos violentos com a caça de animais de grande porte.
Antes de morrer, quando Dexter já era um adulto bem treinado, deu o último conselho: se tiver que matar, mate apenas quem merece.

Esse, basicamente, era o código de conduta do Harry, o Harry’s Code. Com isso deu-se um serial killer competente, à prova de evidências e versado em sangue. Detalhe: Dexter trabalha para a polícia americana e sua irmã também é policial. Mas ninguém sabe que por trás daquela carinha de bebê Johnson tem um monstro capaz de matar com alguma sofisticação aqueles que a justiça não consegue emendar.

Só isso já é bastante pano para manga. Mas o pior é o que o seriado te joga na cara e você não tem tempo nem de fechar os olhos: os psicopatas são irreconhecíveis tanto no convívio social como entre quatro paredes. Um deles pode, de fato, morar ao lado e você nem suspeitar. O que nos faz pensar em como conhecemos pouco as pessoas à nossa volta, e a verdade incômoda é que nunca conheceremos o suficiente.

Não é cultura do medo isso, é um fato. Nem todos psicopatas são serial killers, há muitos psicopatas na publicidade, na política, na justiça. São aqueles que não conseguem ter empatia pelo outro e, por isso, só pensam em si. O narcisismo, aliás, é uma espécie de parente da psicopatia. Só eu, que praticamente tenho o mesmo círculo de relacionamentos que um monge, poderia apontar meus dedinhos em direção a alguns narcisistas clássicos.

Ou seja, estamos bem servidos. Se vocês quiserem perder o sono como eu, experimentem ver Dexter.

quinta-feira, 29 de abril de 2010

Aiô, Silver!

É emocionante viver no faroeste. Você pode sair de carro de manhã e, ao contornar a praça de sempre, perceber uma movimentação diferente alguns metros à frente causando, é claro, um pequeno trânsito. Então você reduz a marcha, entre curiosa e levemente irritada, diminui o volume do rádio como se isso fosse fazer alguma diferença, olha comprido por trás dos óculos escuros ainda sonolentos e avista... um carro do Redbull. Sim, aquele energético que te dá asas. Você tira os óculos, esfrega os olhos e vê um carro promocional parado em plena agulha, com uma lata gigante chamando a atenção de todos e, claaro, uma bonitona de saia quase inexistente e decote até o umbigo chamando mais atenção ainda.

A cena, que dúvida, é suficiente para dragar todos os sentidos de todos os seres regidos pela testosterona que contornavam ingenuamente a pracinha tão bucólica. E quando você acaba de perceber então o motivo do trânsito e começa a digerir a cena confusa e um tanto aviltante para os seres não dominados pela testosterona, você olha para o lado e vê um carro atravessando o sinal vermelho. Olha de novo, ainda aturdida, e vê que aquele não era o Redbull ganhando asas, era simplesmente um carro da...polícia.

E o dia estava apenas começando no faroeste.

terça-feira, 20 de abril de 2010

No meu ou no seu café?



O meu marido, que é roteirista, só escreve em cafés. Eu, acostumada a ficar enfiada no escritório com os meus cansados e solitários miolos, achava isso muito estranho. Como alguém pode se concentrar em meio a tanta conversa alheia, gente? Pois às vezes são justamente as conversas alheias, me explicou o roteirista em questão, que salvam o vácuo de algum diálogo ou o furo de algum perfil de personagem. Bem diz o documentarista Eduardo Coutinho: a vida real é bem mais interessante do que a ficção.

Depois que passou a estranheza ao hábito, comecei a achar muito charmoso escrever em café. Muito parisiense isso, muito Baudelaire. Tentei algumas vezes, mas o problema é que meus dedos, imantados já ao teclado, esqueceram como é que se escreve à mão e me apresentam garranchos sofridos e na maioria das vezes indecifráveis. Pensei então em comprar um netbook, daqueles pequenininhos, só para escrever de vez em quando em companhia. É claro que depois de ver os preços desses brinquedinhos desisti e voltei para a toca da loba.

Até que finalmente descobri o que posso fazer, e muito, nos cafés. Posso ler longos depoimentos. Looongos. Posso fichá-los entre um expresso e outro e assim evitar o sono e as cabeçadas que às vezes acontecem quando as páginas estão lá no escritório, quietinhas, soprando suavemente nos meus ouvidos: “Isso dá um sooono...”

Ahá! Agora também sou chique, cambada. Leio muito em cafés. Não consigo fazer isso o dia inteiro porque as costas reclamam mas já dá para mandar os neurônios circularem um cadinho. E aqui lembro da minha dissertação de mestrado que, em determinado momento, ao refletir sobre a autoria, resgata a figura do ator público, muito bem definida por Sennett. Aí vai de brinde pra vocês:

“Na medida em que domina uma multidão de espectadores silenciosos, o ator público, lembra Sennett, é enganosamente uma figura simples:

‘Os espectadores silenciosos precisavam ver no ator público certos traços de sua personalidade, quer ele a possuísse, quer não. Fantasiosamente investiam nele aquilo que na realidade poderia lhe faltar. (...) a imagem da dominação sugere que sem o ator não pode haver espectador. Mas o observador silencioso permanece no público, mesmo quando não há qualquer personalidade sobre a qual se concentrar. As necessidades projetadas no ator se transmutam então: os espectadores se tornam voyeurs. Movimentam-se em silêncio, na proteção que os isola uns dos outros, desafogando-se através da fantasia e do devaneio, observando a vida passar pelas ruas. As pinturas de Degas sobre a pessoa silenciosa e sozinha num café apreendem a qualidade da sua vida. E aqui se encontra em germe a cena moderna da visibilidade em público, apesar do isolamento interpessoal’”


That´s all folks. O feriado está chegando e os cafés andam muito convidativos. Carreguem seus livros.

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Aqui ou em Paraty





Um dos livros que estou produzindo, vocês seis já sabem, é sobre a Academia Militar das Agulhas Negras, a Aman, escola de formação de oficiais do exército. É a história de um tenente que passou por todas as agruras do curso conhecido por, entre outras coisas como causar a morte de alguns cadetes durante exercícios sobre-humanos, ter inspirado o treinamento do Bope. Sem as aulas de tortura, diga-se.

Muito bem. Quando conversei com o biografado em questão, meus dentes caninos de jornalista cresceram e eu queria sangue. Queria publicar todos os podres de bastidores, todas as atrocidades cometidas nos trotes feitos com os “bichos”, todos os sofrimentos impostos aos pobres dos cadetes. O biografado, no entanto, muito metódico é claro, já tinha um sumário pronto. Sabia exatamente o que queria contar – hello, crianças, o cara é um militar.

Lembrei então que aquele era um trabalho de encomenda, olhei a minha conta bancária, respirei fundo e fiz o que faço de melhor: escutei. Escutei, escutei, escutei e escutei mais um pouquinho. Quando senti que os ouvidos já estavam mais do que atentos, me permiti afiar as perguntas e os questionamentos. E hoje, depoimentos praticamente prontos nas mãos, fico rindo sozinha relendo as entrevistas. São longas conversas de um ET tentando convencer uma Alien orelhuda de que o seu mundo é sim viável, ao menos na teoria. Na prática a teoria é outra, mas isso não tira o caráter nobre da disciplina, dos valores morais e éticos que sim, existem no mundo onde regras são respeitadas.

“Na sociedade de hoje, quem faz o certo é visto como bobão”, diz o tenente desiludido. E ele não deixa de ter razão. Não à toa, o mundo da Aman é muitas vezes definido como uma bolha, ambiente excluído da “vida lá fora”, espaço onde as crenças têm fronteiras: quando elas escorregam para fora dos belos portões da academia de Rezende, batem de frente com um mundo tão inóspito quanto o território inimigo. “Então você se choca muito com a realidade”, explica o tenente.

A boa e velha divisão do mundo de lá e do mundo de cá, etnocentrismo radical e inevitável. Nem em Paraty, onde passei a semana santa, consegui desviar desse desfiladeiro intrínseco à humanidade. Estava eu curtindo o centro histórico, tropeçando de cinco em cinco minutos no calçamento pé-de- moleque, quando me deparei com o sujeito aí das fotos. Calça de juta, corrente na mão, o escravo encenava um bem construído monólogo em cima de uma pedra. Explicava aos turistas incautos que aquela era uma cidade feita com o suor dos escravos, inclusive crianças escravas, e que seus casarões e igrejas trazem misteriosos símbolos maçônicos. Contou que a cidade, fundada em 1667 em torno da Igreja Nossa Senhora dos Remédios, aquela mesma que crescia atrás de suas costas doídas, não possuía rede de esgoto, sendo periodicamente “lavada” pela água do mar quando a maré subia e alagava as ruas. Daí todos os sobrados serem construídos com mais de um metro de distância em relação ao solo. Quando a maré subia, o centro se tornava uma Veneza dos trópicos e os caiçaras atravessavam as ruas de canoa.E com os narizes tampados, provavelmente.

Depois de contar também a história da igreja de Santa Rita e lembrar de toda pedraria e todo o ouro que passavam pelo porto de Paraty no século XVIII, o escravo terminou sua apresentação dizendo já estar há um ano e cento e cinqüenta dias naquela pedra e que a cultura afro-brasileira, para ser verdadeiramente livre, precisa ainda aprender a lidar com o passado. Logo em seguida, sorriso largo, começou a atender os pedidos de turistas interessados em tirar fotos com ele. “Já são cerca de cem mil fotos pelo mundo”, ele dizia, simpático. Mas quando uma mulher tentou dirigir a foto, dizendo que ele não precisava não colocar as correntes ao redor dos punhos dela, tascou logo: “Aqui quem manda sou eu, sinhazinha”.

Anderson Mota da Silva tem 28 anos e é, nas suas corretas e afiadas palavras, “a primeira estátua viva de escravo no Brasil”. Decidiu arcar com o título depois de pesquisar as estátuas vivas já criadas até hoje e perceber que nenhuma delas era de um escravo. Então um dia se olhou de cima a baixo no espelho e decidiu: a estátua que faltava estava bem ali.

Tudo isso já seria muito interessante só que tem mais:
O que Anderson fazia antes de passar o chapéu de escravo moído? Anderson, pasmem, era sargento. Instrutor da Aman. “Aqueles cadetes sofreram muito na minha mão”, ele contou rindo. E largou um emprego tão seguro por que, Anderson? “Porque lá a gente fica muito afastado da realidade”.

Céus. Fui correndo beber uma caipirinha.

Galeria








Um livre ensaio de fotos pra vocês:

quarta-feira, 7 de abril de 2010

Já volto

Assim que eu conseguir um bote para voltar ao Rio conto tudo sobre Paraty. Empunhem seus remos, meninos.

terça-feira, 30 de março de 2010

Anota aí também

Perguntas inúteis também são perguntas, mesmo em dia de estreia do super acelerador de partículas que promete reproduzir o Big Bang:

Como um surdo que mora sozinho faz quando precisa acordar com despertador?
Se foi tão interessante ir à lua, por que os homens nunca mais repetiram a experiência?
Se o homem veio do macaco, por que ainda existem macacos?
O que os criacionistas fazem com os fósseis de dinossauros, jogam pra debaixo do tapete?
Por que dizem que os homens preferem as louras?
Se vivemos sempre atrás do novo, o novo não passa a ser sempre o mesmo?
Por que a gente perde tempo com tanta bobagem?
Como saber o que é e o que não é bobagem nessa vida boba?

Na semana santa vou a Paraty. Quem sabe lá, assistindo as tradicionais procissões da cidade, eu encontre alguma das respostas.
Boa Páscoa, crianças. Não exagerem no chocolate.

segunda-feira, 22 de março de 2010

Alice e seus mistérios




Há livros que a gente lê quando criança e, apesar de virar a última página com dedinhos felizes e um suspiro de saudades antecipadas, não percebe ainda quão geniais eles são. Com Alice no País das Maravilhas foi assim. Li quando criança, com um pé na adolescência e outro ainda descalço e sujo de terra. Gostei tanto que batizei a minha boneca preferida de Alice e vivia dizendo que, quando tivesse uma filha, ela também teria esse nome.

Já mudei de idéia quanto ao nome da filha mas agora, relendo o livro na linda edição da Cosac Naify, percebi que ele é muito mais mirabolante e fantástico do que eu lembrava. Deve ser porque fantasia de criança não precisa de cogumelos nem de narguilé para voar, o que fazia daquele universo fantástico um mundo quase familiar.

Só que o livro é mais do que um sonho de criança. É também um desabafo. A cada vez que Alice se depara com uma criatura estranha que não sabe o que raios poderia ser uma menina e não responde de acordo com nenhuma convenção social aprendida na escola ou em casa, ela se sente perdida. E dá de cara com uma questão incômoda e nova para a sua idade. Afinal de contas, quem ela é e que mundo é esse?

Boa pergunta. Estamos sempre tendo que encolher ou crescer para tentar respondê-la. Às vezes a gente chora e inunda o ambiente, às vezes fica tão grande que não enxerga mais o pé. Mas tudo muda muito rápido, cenários e criaturas, e não dá tempo nem de tentar entender toda a maluquice.

Alice é sábia e aprendeu cedo:

_ Meu Deus, meu Deus, como está tudo esquisito hoje! E ainda ontem as coisas estavam tão normais... Será que mudei durante a noite? Deixe-me ver: será que eu era a mesma quando acordei hoje de manhã? Quase consigo me lembrar de ter me sentido um pouco diferente... Mas, se não sou a mesma, a questão seguinte é: Quem sou eu neste mundo? Ahá! Eis um grande mistério!

Ahá! Parem os relógios e tomem um chá. E deixem as deliciosas ilustrações de Luiz Zerbini fazerem o resto.

sexta-feira, 12 de março de 2010

Falar ou não falar, eis a questão

"O que é importante é ter a alma na ponta dos lábios e estar pronto para partir."
Sêneca

Vocês seis aí já sabem que tenho uma paixão irrefreável pela filosofia. Mesmo já sendo uma macaca quase velha (ainda tenho auto-estima, garotos), venho pensando até em fazer uma segunda graduação. Não há matéria-prima mais fértil para um escritor do que as cambalhotas de Descartes e os golpes precisos de Foucault, por exemplo, autor da frase limpa, sem borrões: “Toda literatura é uma dança para enganar a morte”.

Como Sherazade, o escritor está sempre adiando o the end, o gran finale, o ponto final. O blog mesmo, construído no cimento do presente, do agora.com, também parece querer adiar o definitivo, as frases resistentes à tecla delete. Espécie de protesto contra o texto póstumo. Nada de post scriptum, vivemos mais os prefácios, inchados de pensamentos instantâneos que rechaçam, velozmente, qualquer coisa que se pareça com uma verdade insistente – ou que seja maior do que o espaço de um post.

Foucault, pensador e epistemólogo francês contemporâneo, dedicou boa parte da sua vida a pensar a resistência. Uma ironia ele mesmo ter sido levado pela Aids, invencível batalha. Mas deu tempo de explicar: resistir é não ser indiferente. É ser um amontoado de carne, sim, mas não indiferente ao que se passa nela e ao redor dela. É experimentar e vivenciar o que a atravessa. Na sua filosofia, esse era o lugar em que aquele que fala faz com que o dito se remeta a ele próprio, dizendo e marcando de verdade o que ele é. Em que ele encontra algo, finalmente, que não é diferente dele mesmo.O que é bem outra coisa do que ficar respondendo, histericamente, às demandas de fulano e beltrano. Em outras palavras, não ser indiferente é ser franco e assumir os riscos de tal perigo.

Mas vivemos muito bem com as mentiras. A Parrecia, espécie de jogo da verdade que emerge na democracia antiga, passa pelo cristianismo e é suprimida pela modernidade, é muito perigosa. É onde não é mais possível se omitir, mesmo que isso signifique, depois, se anular. Ou ter a morte decretada pelo imperador, algo como “Gostei dos seus conselhos, meu caro, agora se mate. Dou-lhe uma semana”. O filósofo Sêneca, por exemplo, foi um dos poucos conselheiros que sobreviveram à Nero – fez isso pedindo para matar-se antes.
Mais de vinte séculos depois, ainda parecemos ter medo de imperadores.

Fato é que a franqueza liberta, mas depois manda a conta. No entanto é assim que surge a autoria, como um cuidado de si e formação de si mesmo, como uma maneira de se dar as próprias leis e constituir o que importa no próprio conhecimento. É falando sem medo que crescemos e aparecemos. Isso é sinceridade. Mas também pode ser, como disse uma das alunas do curso que estou fazendo, um “sincericídio”.

Escolham seus times.

Quem achou que hoje escrevi grego acertou. É grego mesmo, mas grego do bão. E pode ser encontrado nas aulas do prof. Henrique Antoum, no Polo de Pensamento Contemporâneo. Recomendo.

quinta-feira, 4 de março de 2010

De um dia para o outro

Escrever blog é meio perigoso. O texto sobe tão rápido para a rede que muitas vezes chega impulsivo, dado a arrependimentos. Lembro que na época da faculdade, em priscas eras, uma professora de técnicas de redação dizia ser muito importante deixar o texto dormir. De um dia para o outro, muita coisa muda. Você pode escrever algo que considera brilhante à noite e, na manhã seguinte, se envergonhar de um dia ter pensado possuir alguma intimidade com as palavras.Ela tinha razão, a professora. O problema é que hoje, em termos de produção criativa, ninguém mais tem tempo de dormir. Deixar o texto de molho de um dia para o outro é luxo para poucos.
E por que estou falando tudo isso? Porque, graças a Deus, ainda exercito esse luxo. O texto aí embaixo, por exemplo, foi escrito há séculos. Topei com ele por acaso nos meus arquivos e achei que, finalmente, ele merecia algum crédito. Saído de um longo coma, ele representa uma época que, ufa, já passou. Viva a liberdade. Viva os blogs.

"Ousar é perder o equilíbrio momentaneamente. Não ousar é perder-se."
Sêneca

Libertem-se, meninos.


Bananeira não

É duro escrever por encomenda, a verdade é essa. Principalmente se a encomenda for institucional, e não me perguntem o que é isso. Seguir um roteiro, um projeto ou qualquer outra fôrma pré-estabelecida pelo seu big boss é como tentar plantar bananeira algemado. Você tenta usar seu corpitcho, seu gingado, seus reflexos e até mesmo aquilo que chamam de criatividade, mas os braços não estão livres. Então você se estabaca. Cai de cara no chão. Seu texto volta cheio de senões e ressalvas, porque a proposta não está sendo cumprida. Não é que eles, os big bosses, não queiram que você encontre outras perspectivas de criação. Sim, eles querem algo ousado, sim, eles querem algo diferente, sim, eles querem um texto com “diferencial”. Mas onde já se viu plantar bananeira pra isso? Nananina-não. É preciso seguir o roteiro. É o que você já tinha entendido mas não queria compreender: eles querem algo criativo na língua deles. E o dicionário deles é bem diferente do seu.
Então você brocha. Repensa a vida. Cogita mandar o big boss pra puta que pariu (desculpem, crianças). Chega a pensar em largar tudo e, como diria Tom Wolfe, gigante do New Journalism, jogar tudo para o alto, alugar uma cabana e se entregar a ele, ao Grande Romance. E, com alguma sorte, retornar triunfante, transformado, vingado até.
Bem, tem o leite das crianças, você se lembra. Ou a ração do papagaio. Tem o dentista, o carro que vive mais na oficina do que na sua garagem, o supermercado. Whatever. Siga o seu big boss. Diga amém e guarde as bananeiras para mais tarde.