Foi um choque. Os olhos acompanhavam sedentos as linhas e sabiam que precisavam ser rápidos porque eles mesmos ameaçavam aguar tudo. Palavras eram sorvidas como cerejas do bolo de chocolate e marshmallow mais gostoso de todos os tempos, aquele que a gente nunca esquece e faz questão de anotar a receita (mas nunca consegue fazer igual).
Com o estômago em estado de alerta, preocupado em não deixar passar migalha, descobri que a Ana acabara de botar um blog no ar. A idéia era antiga. Surgiu logo depois do lançamento do livro, há pouco mais de um ano. Para incentivá-la, fui desbravar o Blogger e consegui, heroicamente, criar um blog sozinha. Vocês estão aí rindo mas é muita coisa para quem há até pouco tempo (não vou falar quanto) era virgem de msn e smartphone. Foi um feito e tanto, meninos. Mas não serviu para que a Ana seguisse o exemplo. Ela titubeou, pensou duas vezes, três vezes, viajou para Bali e nunca mais falou no assunto. Chegamos a pensar em fazer um blog juntas, mas eu achava que o texto tinha que ser só dela.
A intenção era divulgar a obra, dar vazão às dezenas de pessoas que queriam fazer contato com a Ana depois de ler o livro e seguir adiante com o projeto, quem sabe vendendo a história para o cinema. Eu mesma comecei a trabalhar na escaleta do roteiro com o meu marido e as coisas iam muito bem, até que ele recebeu uma proposta para trabalhar em uma grande produtora. Foi motivo de comemoração, é claro, mas o convite trouxe, com ele, um inevitável the end para o nosso projeto de roteiro. A agenda ficou apertada e paramos por aí.
Então o tempo passa, o tempo voa, outros trabalhos surgem e acabei ficando um pouco afastada da bela menina. Entre uma mensagem de email e outra, pegava apenas as notícias da superfície. E agora dou de cara com A bela menina do cachorrinho, blog amadurecido, bem humorado, bronzeado e de bem com as escorregadas da vida. Carimbado ainda com o blog da Mariah, filha mais velha que tem 18 anos mas escreve com tarimba de 30. Coisas de família.
A menina é bela e a vida também, crianças. Quem estiver perdido (ou nostálgico, quem sabe) e quiser relembrar a história toda pode dar uma volta por aqui:
A bela menina
O poder do Ela
O poder do Amaury
O grande dia
Feliz bela menina
Deus e a bela menina
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quarta-feira, 19 de agosto de 2009
segunda-feira, 1 de setembro de 2008
Foi mal, Gagu!
Eu sabia que era um convite perigoso. Aniversário da Ana, com direito a participação de um grupo Hare Krishna e a presença de alguns personagens do livro, era de dar um friozinho na espinha. Primeiro por solidariedade ao meu marido que, tímido que só, ficou em cólicas só de pensar no risco de ter que sentar no chão de pernas cruzadas, descalço, e entoar hare hare hare rama. Mas ele foi corajoso e eu também. Encaramos.
A noite estava fria e linda, as velas enfeitavam a piscina e o clima todo era de uma Índia que talvez só exista nos nossos desejos. Próspera, com cheiro de incenso, animada e saudável toda vida. Um showzinho de um grupo Hare Krishna rolava ao fundo, com ótimo instrumental (tinha até violino!), tranqüilo, e não lembro de ter visto ninguém descalço. Relaxei. O meu marido também. Fui sendo apresentada aqui e ali como a autora do livro e estava adorando a oportunidade de conversar com aquelas pessoas todas que povoaram tanto a minha cabeça, por tanto tempo, antes mesmo de eu as conhecer.
Até que chegou o Gagu, que no livro chamamos de Gagoo. Eu já tinha sido avisada pela anfitriã: “O Gagu já brigou comigo algumas vezes, não gostou do que falamos sobre ele no livro”. Puxei pela memória e relembramos, juntas, as passagens em que ele participa da história. Pô, ele é até elogiado! É ele aquele cara espirituoso, praticante de ioga, que não falava mal de ninguém e tomava um suco de clorofila antes de cheirar. Ops. A mãe dele pode não ter gostado disso. Quando o vi, congelei. Apesar de todo o tom de brincadeira que envolvia as queixas, fiquei realmente apreensiva. Sei lá, gente. E se ele resolvesse partir pra cima da magrinha aqui? O cara era grande! Fiquei na minha, sentadinha num pufe, compenetradíssima no meu prato de comida indiana. Quando ele sentou do meu lado, ainda tentei por alguns minutos fingir que nada tinha acontecido. Mas não teve jeito e por um nada não engasguei com o arroz de lentinhas. Levei um pito de leve e ainda tremi por dentro por alguns segundos. Mas acontece que o Gagu, lembrem-se, é espiritualizado. E logo estávamos conversando sobre Santo Daime, clorofila e a temporada dele no Havaí, e não sou boba de contar mais uma palavra que tenha saído da sua boca.
O que importa é que Gagu é do bem. Assim como todos os outros personagens que estavam naquela noite, adotados ou não pelo livro, comungando do mesmo carinho que tenho pela aniversariante de ontem. Quer dizer, o aniversário oficial é hoje, mas isso é só porque a mãe dela não gostava do mês de agosto e pulou um dia na hora de registrá-la. O que é a cara da família. Pela primeira vez na vida, ela comemorou no dia certo. Mais um avanço. Depois do bolo, a noite acabou leve, feliz e com uma certeza: é arriscado escrever no Brasil, mas vale a pena. Parabéns, Ana!
A noite estava fria e linda, as velas enfeitavam a piscina e o clima todo era de uma Índia que talvez só exista nos nossos desejos. Próspera, com cheiro de incenso, animada e saudável toda vida. Um showzinho de um grupo Hare Krishna rolava ao fundo, com ótimo instrumental (tinha até violino!), tranqüilo, e não lembro de ter visto ninguém descalço. Relaxei. O meu marido também. Fui sendo apresentada aqui e ali como a autora do livro e estava adorando a oportunidade de conversar com aquelas pessoas todas que povoaram tanto a minha cabeça, por tanto tempo, antes mesmo de eu as conhecer.
Até que chegou o Gagu, que no livro chamamos de Gagoo. Eu já tinha sido avisada pela anfitriã: “O Gagu já brigou comigo algumas vezes, não gostou do que falamos sobre ele no livro”. Puxei pela memória e relembramos, juntas, as passagens em que ele participa da história. Pô, ele é até elogiado! É ele aquele cara espirituoso, praticante de ioga, que não falava mal de ninguém e tomava um suco de clorofila antes de cheirar. Ops. A mãe dele pode não ter gostado disso. Quando o vi, congelei. Apesar de todo o tom de brincadeira que envolvia as queixas, fiquei realmente apreensiva. Sei lá, gente. E se ele resolvesse partir pra cima da magrinha aqui? O cara era grande! Fiquei na minha, sentadinha num pufe, compenetradíssima no meu prato de comida indiana. Quando ele sentou do meu lado, ainda tentei por alguns minutos fingir que nada tinha acontecido. Mas não teve jeito e por um nada não engasguei com o arroz de lentinhas. Levei um pito de leve e ainda tremi por dentro por alguns segundos. Mas acontece que o Gagu, lembrem-se, é espiritualizado. E logo estávamos conversando sobre Santo Daime, clorofila e a temporada dele no Havaí, e não sou boba de contar mais uma palavra que tenha saído da sua boca.
O que importa é que Gagu é do bem. Assim como todos os outros personagens que estavam naquela noite, adotados ou não pelo livro, comungando do mesmo carinho que tenho pela aniversariante de ontem. Quer dizer, o aniversário oficial é hoje, mas isso é só porque a mãe dela não gostava do mês de agosto e pulou um dia na hora de registrá-la. O que é a cara da família. Pela primeira vez na vida, ela comemorou no dia certo. Mais um avanço. Depois do bolo, a noite acabou leve, feliz e com uma certeza: é arriscado escrever no Brasil, mas vale a pena. Parabéns, Ana!
quarta-feira, 27 de agosto de 2008
Deus e a bela menina

Quando tudo parecia silencioso no front e eu não esperava ver mais nada publicado sobre A bela menina, eis que me cai nas mãos o texto mais debruçado ao livro que já vi até hoje. Num belo ensaio de quatro páginas da Oralidades, revista de história oral da USP, Ricardo Santhiago traça uma acurada análise sobre o livro, com direito a reflexões que eu mesma, até então, só havia feito de maneira intuitiva, em algum canto ininteligível do meu cérebro. Ninguém, até hoje, havia explicado tão bem o meu trabalho. Fiquei surpresa. Meu trabalho é bem legal, gente!
Vejamos. Santhiago, que é jornalista, pesquisador, produtor cultural e editor da revista, identificou no livro um comprometimento com o alerta e com a transformação social. É também fonte de alívio pessoal para quem conta a história, para quem passou por muitas provações e, por isso, tem o dever de relatá-las para que elas não se repitam. Com, isso, fica claro pra mim que já cumpri grande parte das minhas boas ações do ano.
Mas tem mais, e preciso aqui transcrever o trecho: “(...) dado o volume presumível de gravações, as tarefas de textualização e organização se complicam e exigem o empenho de um autor responsável e criativo, interposto entre a oralidade e a escrita a fim de garantir a esta não apenas entendimento, mas atração e encanto. O texto de Carla faz isso. Além de convencer como letra impressa, seduz.”
Que tal? Logo depois ele escreve que tropecei em alguns pronomes possessivos mas, well, well, os escritores são assim, revolucionários e voluntariosos, capazes até de bater o pé com o revisor algumas vezes.
Santhiago lamenta que as relações entre entrevistado e entrevistadora, as situações de narração e as soluções da escrita não tenham sido reveladas numa introdução. De fato, elas ficaram de fora do livro, mas estão num artigo que pode ser lido em www.terapianarrativa.com.br/artigos.html . Isso é novidade, queridos.
E para o final do ensaio, o jornalista reserva uma análise curiosa:
“(...) não é à toa que o testemunho autobiográfico, literário, jornalístico e religioso sejam um só. Na busca de uma vida normal e segura, testemunhar é artifício natural para quem tem no desabafo o símbolo da vitória e de outra história que ‘não tem a palavra droga a cada cinco páginas’”.
Não, vocês não leram errado. Ele quis dizer religioso, mesmo, “testemunho religioso”. Segundo ele, Deus e religião aparecem como explicações para toda a construção narrativa. É a Ana freqüentando a Igreja Universal, espaço mais seguro do que o NA, e seus pedidos sendo atendidos com a chegada do Gustavo, seu “salvador gentil”.
Engraçado, não havia percebido que a fé estava tão aparente nas últimas páginas. De fato ela existe na vida real, à sua maneira, mas no livro me parecia estar disfarçada por trás de um humor sempre ácido e algo inglês, coisa talvez de quem experimentou em Londres a chance de ver a vida sob outra perspectiva.
Se Deus e religião fecham o livro eu não sei, mas acabo de saber uma coisa. Essa história que caiu no meu colo e outras que andam chegando estão longe de ser um karma. Estão mais para uma cortesia do cara lá de cima. Amém. Poupem o sal grosso.
A Revista Oralidades pode ser adquirida pela Internet, no site http://www.oralidades.com.br/ A edição de que falamos é a Nº 3 – Jan-Jun/2008.
Vejamos. Santhiago, que é jornalista, pesquisador, produtor cultural e editor da revista, identificou no livro um comprometimento com o alerta e com a transformação social. É também fonte de alívio pessoal para quem conta a história, para quem passou por muitas provações e, por isso, tem o dever de relatá-las para que elas não se repitam. Com, isso, fica claro pra mim que já cumpri grande parte das minhas boas ações do ano.
Mas tem mais, e preciso aqui transcrever o trecho: “(...) dado o volume presumível de gravações, as tarefas de textualização e organização se complicam e exigem o empenho de um autor responsável e criativo, interposto entre a oralidade e a escrita a fim de garantir a esta não apenas entendimento, mas atração e encanto. O texto de Carla faz isso. Além de convencer como letra impressa, seduz.”
Que tal? Logo depois ele escreve que tropecei em alguns pronomes possessivos mas, well, well, os escritores são assim, revolucionários e voluntariosos, capazes até de bater o pé com o revisor algumas vezes.
Santhiago lamenta que as relações entre entrevistado e entrevistadora, as situações de narração e as soluções da escrita não tenham sido reveladas numa introdução. De fato, elas ficaram de fora do livro, mas estão num artigo que pode ser lido em www.terapianarrativa.com.br/artigos.html . Isso é novidade, queridos.
E para o final do ensaio, o jornalista reserva uma análise curiosa:
“(...) não é à toa que o testemunho autobiográfico, literário, jornalístico e religioso sejam um só. Na busca de uma vida normal e segura, testemunhar é artifício natural para quem tem no desabafo o símbolo da vitória e de outra história que ‘não tem a palavra droga a cada cinco páginas’”.
Não, vocês não leram errado. Ele quis dizer religioso, mesmo, “testemunho religioso”. Segundo ele, Deus e religião aparecem como explicações para toda a construção narrativa. É a Ana freqüentando a Igreja Universal, espaço mais seguro do que o NA, e seus pedidos sendo atendidos com a chegada do Gustavo, seu “salvador gentil”.
Engraçado, não havia percebido que a fé estava tão aparente nas últimas páginas. De fato ela existe na vida real, à sua maneira, mas no livro me parecia estar disfarçada por trás de um humor sempre ácido e algo inglês, coisa talvez de quem experimentou em Londres a chance de ver a vida sob outra perspectiva.
Se Deus e religião fecham o livro eu não sei, mas acabo de saber uma coisa. Essa história que caiu no meu colo e outras que andam chegando estão longe de ser um karma. Estão mais para uma cortesia do cara lá de cima. Amém. Poupem o sal grosso.
A Revista Oralidades pode ser adquirida pela Internet, no site http://www.oralidades.com.br/ A edição de que falamos é a Nº 3 – Jan-Jun/2008.
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