sexta-feira, 6 de maio de 2011

Acordou decidida a ser piegas. Faria daquele dia um feriado da pieguice. Começou dando bom dia ao papagaio e elogiando suas cores, arco-íris da natureza em forma de penas. Depois desejou um ótimo dia de trabalho ao marido, dizendo que ela estava muito bonito com aquela camisa pólo azul. Sorriu caprichado para o porteiro. Terminada a aula de ioga, em que ficou de cabeça pra baixo por deliciosos três minutos, fechou os olhos e agradeceu a oportunidade de estar viva ali, naquela sala, com aquelas pessoas e aquele corpo menos enferrujado a cada dia. Agradeceu a si mesma por permitir-se aquele autoconhecimento em passos persistentes e evolutivos. Espanou a vergonha, olhou fundo para a professora e disse que ela era um ser muito abençoado. Almoçou feliz uma salada colorida e sorriu para a garçonete, para o cara do caixa, para o carinha do estacionamento, para a senhora que queria passar na sua frente na fila. Voltou pra casa dirigindo devagar, sentindo o motor suave do carro, trocando as más notícias do rádio por música, e assim que virou a chave de casa correu para o computador. Estava decidida a ser piegas.

sábado, 30 de abril de 2011

God save the Princess



Não posso deixar de comentar o casamento real. O que seria dos escritores, afinal, sem os contos de fadas?

Houve quem achasse uma patetice assistir ao casamento, olhos grudados em cada detalhe como o buquê de murta, a linda renda francesa do vestido da noiva e o uniforme da Guarda Irlandesa usado pelo príncipe. Eu mesma me senti meio ridícula ao me emocionar vendo os dois trocarem comentários descontraídos no altar. Sou romântica, gente, fazer o quê?

Fato é que muito da história de vida de todas nós, mulheres ocidentais, está lá naquele DNA azul. Colonizadas que somos, aprendemos que casar de branco é lindo e assim é até hoje. Eu mesma tive um casamento de princesa, num lindo jardim em Itaipava decorado com margaridas. Tivesse tombado para o feminismo raivoso e dispensado toda aquela delícia de ritual, aposto que estaria hoje arrependida. Quando vejo as fotos do casório sinto, além de um nozinho na garganta, uma profunda felicidade por ter me permitido acreditar em cinderelas. Se contasse ainda que empunhei um buquê feito com todo carinho pela minha mãe, vocês veriam aonde quero chegar.

O amor é belo e persiste, meninos. Se em pleno século XXI um príncipe leva uma plebéia para o altar e comove bilhões de pessoas ao redor do mundo, conquistando audiência maior do que a do terremoto japonês, é porque o romantismo e a esperança ainda não acabaram. Até uma prece o casal escreveu junto, para ser lida na igreja. Digam o que quiserem, mas isso tudo é mesmo emocionante.
Acho até que os 70% dos britânicos que ainda apóiam a monarquia não estão nem aí para o regime monárquico. O que eles querem mesmo, no fundo, é a chance de poderem ver outros casamentos como esse.

“O último dos mendigos tem sempre um nadinha de supérfluo! Limitai a natureza às necessidades naturais e o homem se torna um animal”

Shakespeare

quarta-feira, 20 de abril de 2011

O coelho indica




Serrote é tudo de bom. Revista de ensaios, artes visuais, idéias e literatura do Instituto Moreira Salles, a publicação consegue, simplesmente, reunir o fino do fino da bossa. São textos que iluminam as sinapses e nos fazem ter certeza de que pensar ainda vale a pena. E então temos os excelentes ensaios de Beatriz Sarlo sobre o animal político da web e o de Louis Menand sobre o escritor Salinger, por exemplo. Lendo Menand, aliás, e relembrando o personagem de Holden, percebi o quanto grudei em O apanhador no campo de centeio. Vejo influências desse livro em meu trabalho até hoje, se vocês querem saber.

A revista 7, já editada pelo craque Paulo Roberto Pires, também traz fotos pungentes de Edu Marin sobre os estragos feitos pelas enchentes da região serrana fluminense. Nelas não aparecem vítimas, mas marcas de vidas interrompidas, vestígios de um cotidiano devastado pela natureza. De cair o queixo e doer o peito.

Querem uma sugestão? Aproveitem o feriadão para darem um pulo ao IMS. Vejam as ótimas exposições sobre o carnaval e a família imperial, depois tomem um café e comprem a Serrote. Programão.

Boa páscoa, crianças.

P.s. Para quem não sabe, a Serrote também é vendida em algumas livrarias, como a da Travessa. Mas no IMS sai mais barato.

quinta-feira, 7 de abril de 2011

Kitsch, kitsch




A capa nova do sofá, vinho berrante, não funcionou. Sei lá onde eu estava com a cabeça, gente. Deve ter sido o filme da Frida Kahlo que vi um dia antes de escolher o tecido. Fiquei louca com aquelas cores e queria aquilo tudo pra mim. O único problema é que agora preciso me mudar para o México. Hoje as duas, a capa e a parede laranja, disputam para ver quem grita mais alto pelas minhas costas, enquanto tento jantar: “Ela é louca! Loooouca!”. Pobrezinhas. Deve ser duro me terem como dona de casa.

A diversão ultimamente, entre meu marido e eu, é descobrir o que mudar no ambiente para salvar o sofá. Pintamos a parede de branco? Mudamos todos os outros móveis? Tiramos o tapete? O piso? É claro que a opção mais sensata é engolir o preju e mandar fazer outra capa. Mas aí não tem graça, meninos.

Em homenagem ao poder do vermelho, então, eis aí acima uma foto do Bruno Veiga, grande fotógrafo com quem tive o prazer de trabalhar na minha época de freela da Casa Cláudia. A foto faz parte da série Subúrbio, e lembra mesmo a casa do meu avô, em Jardim Primavera, reduto de alemães fãs de paredes revestidas com cacos de ardósia.

Quando freqüentava a casa do meu avô eu era muito nova, tinha dois ou três anos, mas lembro do ambiente até hoje como se estivesse vendo um filme da Frida Kahlo. Lembro da enorme porta de correr de couro com tachas douradas, da lareira, do salão de jogos com mesa de sinuca, da enfermaria (meu avô era médico), da mesa retangular na enorme varanda, do campinho, dos divertidos anões de jardim. Era uma casa engraçada e kitsch, como não poderia deixar de ser. Uma das raízes dessa palavra, aliás, é alemã – verkitschen – e, injustamente, é usada para definir objetos de valor estético distorcido. Mas o kitsch é muito mais do que isso.

Pensem na Carmem Miranda, no tango, nos filmes do Almodóvar, no pingüim de geladeira. Isso é o kitsch: nem cafona, nem brega e tampouco de mau gosto. Feito para sonhar, está acima de qualquer estereótipo. Ele homenageia o bom humor e sapateia pelo clássico, flerta com o lúdico ou revela seu lado cult através da arte pop, que o tornou mais conhecido mundo afora. Acima de tudo, é inocente: ao brincar com a arte e com o exagero, também busca a infância perdida. A origem do termo remete à idéia travessa da cópia, surgida no século 19, na Europa. Foi nessa época que turistas norte-americanos começaram a pedir aos pintores que fizessem apenas esboços (sketch) de quadros, que poderiam então ser vendidos mais baratos. Depois vieram as grandes magazines, os supermercados, os eletrodomésticos coloridos, e ficou mais fácil levar o kitsch pra casa.

Na casa do meu avô, o Opa, o kitsch tinha ainda outra simbologia: a despreocupação. Era uma casa desencanada como a Sandy não é, estava conectada em banda larga ao prazer e reservaria para as revistas de decoração o espaço nobre da lareira (acesa). Não era uma casa de capa de revista. Nem de miolo. E por isso mesmo era tão inesquecível.

P.s Terminei o livro do militar. Como a Dilma já levou a medalha de grã-Mestre da Defesa, eu me contentaria com uma estrelinha de honra ao mérito.

sexta-feira, 25 de março de 2011

Feliz site velho


Como a empresa de hospedagem faz questão de me avisar diariamente, a licença de uso do domínio do meu antigo site, o www.acasadomoinho.com, expirou. Hoje ele se despede da vida cruel e deixa em seu lugar o fiel representante da wordpress, que vocês seis já conhecem (vejam aí ao lado o link pra ele, gente).

Aquele foi o primeiro site e, de certa forma, dá tristeza abandoná-lo. O desenho da página principal, arrematado com logo criado pelo marido, tem enorme valor sentimental. Esses quadradinhos eu desenhava na infância, com giz de cera, e andava sempre com eles nos bolsos das minhas calças adidas. Quando ficava triste desdobrava o papel e olhava para aquele colorido todo. Estava descobrindo, intuitivamente, os poderes da cromoterapia. Deve ser por isso que até hoje adoro uma cor. Como não tenho coragem de abusar delas no armário, acabo colocando cor na casa. Já tenho uma parede laranja e acabei de encomendar, para o sofá da sala, uma capa vinho. Chega domingo. Estamos apavorados.

Mas precisamos jogar fora as coisas velhas para abrir espaço para as novas, é o que sempre dizem. E o novo site é mais profissa, mais ágil, mais objetivo. Só não tem poesias. Essas ficaram no velho e agora, quando acham de acontecer, rumam direto para o blog sem intermediários. Com pena das antigas agora desabrigadas, resgatei umazinha. Para lembrar que todo adeus é tristonho, mas tem seu valor.

Não fujam da angústia, meninos. Ela sempre cobra dividendos. Feliz site velho pra vocês também.


Angústica. A angústia que estica e não está no dicionário. Sim, porque, se estivesse, não seria angústia de verdade. A angústica não se cura com verbetes nem glossários nem bulas testamentosas. Esta aí só com a morte. Mas aí ela deixa de ser angústica. Vê-se, assim, que é uma questão sem solucionamento, que é: vir sempre desacompanhada de solução e pensamento. Ela é feita de emoção densa, espessa, escura, viscosa e muitas vezes chorosa, mas, note-se, não sempre. Ela também passa despercebida num rosto calmo (e principalmente educado). Ela é discreta, mimética, nada dialética. É fácil identificar, na verdade. Basta não saber explicar.

terça-feira, 15 de março de 2011

Pisando em...cascas


Como todos, ando aturdida com a sucessão de desastres do Japão. Mas a mente humana é a coisa mais estranha. Dentre tantas informações impactantes, fui me prender logo a uma metáfora usada pelos especialistas para explicar a fragilidade do solo japonês. Segundo eles, é como se os japoneses vivessem sobre uma...casca de ovo!

Casca de ovo é das coisas mais frágeis que conheço. Mas também é prenúncio de vida. Ou de omelete. É ainda protagonista da questão existencial mais antiga da humanidade, aquela que pergunta quem veio primeiro, o ovo ou a galinha. O ovo também é ovo de Páscoa, ah, vocês entenderam, casca de ovo é algo muito marcante, gente, muito presente no nosso inconsciente.

Então a pessoa assiste o noticiário e lê obsessivamente os cadernos especiais, morre de pena dos japoneses lá do outro lado do mundo, se espanta com a tal comparação do ovo e vai dormir com aquele turbilhão na cabeça, pensando na ironia que é um solo tão frágil servir de base para um país tão sólido, educado, rico e poderoso.

Claro que não podia dar em boa coisa. A minha mente (de vez em quando ela apronta, meninos, já tentei de tudo mas ela não obedece), numa tentativa enviesada de lidar com a tragédia e incapaz de escrever um belo haikai, apelou para a comédia de mau gosto e estilo discutível. E me mandou escrever o seguinte:

Casca de ovo quebra
Gema mole não
Gema esparrama
Casca de ovo não
Gema faz gemada da boa
Já com casca não é bom não
Cascadura enfim não é mole
Mole mesmo é gema no pão

Vai entender. Graças a Deus não sei escrever em japonês.

quinta-feira, 10 de março de 2011

O filósofo Proust



"Porém mesmo do ponto de vista das coisas mais insignificantes da vida nós não somos um todo materialmente constituído, idêntico para todas as pessoas, e de que cada um não tem mais que tomar conhecimento, como se tratasse de um livro de contabilidade ou de um testamento; nossa personalidade social é uma criação do pensamento alheio. Até o ato tão simples a que chamamos “ver uma pessoa que conhecemos” é em parte uma ação intelectual. Preenchemos a aparência física do ser que vemos com todas as noções que temos a seu respeito, e, para o aspecto global que nós representamos, tais noções certamente entram com a maior parte. Acabam por arredondar tão perfeitamente as faces, por seguir tão perfeitamente a linha do nariz, vêm de tal forma matizar a sonoridade da voz como esta fosse apenas um envoltório transparente, que, cada vez que vemos esse rosto e ouvimos essa voz, são essas as noções que reencontramos, que escutamos."


Sempre achei que Proust era tão filósofo quanto escritor, assim como sempre suspeitei que a filosofia passeia pela literatura muitas vezes com mais desenvoltura do que nas ditas ciências sociais. Está aí acima, num trechinho de No caminho de Swann, uma pequena prova. O escritor, com muito mais melodia e elegância, destrincha o conceito do “outro generalizado”, de Mead. De quebra, no mesmo parágrafo, desliza também pela sociologia e pelo conteúdo de A representação do eu na vida cotidiana, de Goffman, livrinho que a gente lê na faculdade e acha o máximo. Depois os anos tratam de mostrar que não é bem assim. Ou que outros explicam a mesma coisa de um jeito infinitamente melhor. Como Proust e seu Em busca do tempo perdido, que, dizia um amigo meu do mestrado, deve ser lido homeopaticamente, que é para a gente se deleitar e não perder nenhuma madeleine.
Uma a três páginas por dia, à noite, é uma boa prescrição. Não é preciso mais para dormir feliz e angustiado, surpreso e acalentado. No mínimo, para lembrar do tempo em que esperar o beijo de boa-noite da mãe era mesmo ato ambíguo, cheio de antecipação amorosa e solidão escura anunciada. Ou para aprender a gostar de filosofia.