Deve ter sido efeito colateral da Makita. Makita, pra quem não sabe, é um instrumento de tortura usado para fatiar cérebros de escritores incautos. Os pedreiros dizem que ele serve para cortar cerâmica. Na verdade, Makita é a marca da máquina. Também existem os ditos cortadores de pedra da Bosch, por exemplo. Mas é mentira isso de cortar pedra. Mentira! Ninguém fala sobre isso, mas a verdade é que essas ferramentas sádicas são especialmente criadas para fazer pequenos furos na massa cinzenta. O barulho – ziiiiiiiiim, zeiiiiiiim – vai aumentando na mesma proporção em que ganham profundidade os buracos na caixa craniana. Quando você menos percebe, com o restinho de consciência boiando na sua sopa mental, buracos negros de tamanhos variados já engoliram sua memória, sua capacidade de concentração, seu raciocínio, sua paciência e, principalmente, a sua noção do perigo.
Eu devia estar assim, cambaleante, vista turva, sonolenta, com o meu bom senso perdido em algum lugar dos meus neurônios esburacados quando, no sábado passado, aceitei fazer mais um livro. Disse, impulsivamente, sim, sim, sim! Só depois de dois dias entendi mais ou menos o que tinha acontecido. Mas aí já era tarde. Engoli poeira demais, crianças.
Então é isso. São três livros em andamento. E só não me jogo da varanda porque ela fica apenas no primeiro andar e porque quem me chamou para esse trabalho foi a Heloisa Buarque, minha eterna mestra, de quem estava com saudades há tempos. Com ela sinto que estou realmente aprendendo, aprendendo pra valer. E esse aprendizado não quebra, não faz barulho nem cria poeira. Ele é à prova de qualquer Makita.
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quarta-feira, 17 de junho de 2009
domingo, 19 de abril de 2009
Top Secret
Os meus cinco leitores andam indóceis. Querem saber, afinal, quais são os meus novos projetos. Pensei então em contar hoje, que estou com um tempinho livre antes de sair para mais uma entrevista. Seria legal é claro falar sobre eles, que são de fato interessantes, não fosse por um pequeno grande detalhe. Esses projetos interessantes são também...confidenciais! E agora, José?
O que faço eu, crianças? Fecho o botequim, coloco as cadeiras pra cima e acabo com esse blog, amarrando os meus dedos com esparadrapo todas as manhãs? Mas e os meus cinco fiéis leitores?
Mandem sugestões. Podemos inventar alguns códigos, podemos não inventar nada e mudar o nome dos personagens principais, podemos contratar um advogado, ou podemos continuar a encher lingüiça aqui até que os livros estejam prontos e possam ser divulgados. Não, isso nem vocês cinco agüentariam. Seria uma overdose de Índia, de yoga, de filosofias baratas, de poesias suspeitas.
Também poderíamos contar meias histórias. Posso contar, por exemplo, que um dos livros é uma biografia de um militar que, descrente da instituição, decidiu contar seus bastidores antes de mudar de vida (e de país, espero).
E dá para dizer que o outro livro é de uma pessoa importante no meio da moda. Um gentleman de Ipanema. Não posso contar o conteúdo das entrevistas, mas posso contar do cenário em que elas se dão. É num apartamento lindo, enorme, de andar inteiro e de olho no mar, daqueles que dão matérias memoráveis da Casa Vogue ou Casa Claúdia. Na minha primeira visita ao apartamento, fui recebida por um mordomo, que me ofereceu água e me mostrou um bowl recheado de balinhas e chocolates. Entrevista encerrada, ele foi orientado a me acompanhar até a portaria e pedir um táxi. “De cooperativa, não pega qualquer um, não”, disse o entrevistado gentleman.
Eu não estava de carro, é verdade, mas não ia voltar pra casa de táxi. E o motivo devia ser o mesmo pelo qual não tenho um mordomo. Mas quando um mordomo eficiente recebe a ordem de te colocar num táxi, você não tem qualquer alternativa. Então fui de Ipanema até o Leblon de táxi, parei para tomar um café, tirei o sapato de cristal e rumei para o ponto de ônibus do metrô que me levaria até o faroeste.
Isso é ser uma escritora freelancer.
O que faço eu, crianças? Fecho o botequim, coloco as cadeiras pra cima e acabo com esse blog, amarrando os meus dedos com esparadrapo todas as manhãs? Mas e os meus cinco fiéis leitores?
Mandem sugestões. Podemos inventar alguns códigos, podemos não inventar nada e mudar o nome dos personagens principais, podemos contratar um advogado, ou podemos continuar a encher lingüiça aqui até que os livros estejam prontos e possam ser divulgados. Não, isso nem vocês cinco agüentariam. Seria uma overdose de Índia, de yoga, de filosofias baratas, de poesias suspeitas.
Também poderíamos contar meias histórias. Posso contar, por exemplo, que um dos livros é uma biografia de um militar que, descrente da instituição, decidiu contar seus bastidores antes de mudar de vida (e de país, espero).
E dá para dizer que o outro livro é de uma pessoa importante no meio da moda. Um gentleman de Ipanema. Não posso contar o conteúdo das entrevistas, mas posso contar do cenário em que elas se dão. É num apartamento lindo, enorme, de andar inteiro e de olho no mar, daqueles que dão matérias memoráveis da Casa Vogue ou Casa Claúdia. Na minha primeira visita ao apartamento, fui recebida por um mordomo, que me ofereceu água e me mostrou um bowl recheado de balinhas e chocolates. Entrevista encerrada, ele foi orientado a me acompanhar até a portaria e pedir um táxi. “De cooperativa, não pega qualquer um, não”, disse o entrevistado gentleman.
Eu não estava de carro, é verdade, mas não ia voltar pra casa de táxi. E o motivo devia ser o mesmo pelo qual não tenho um mordomo. Mas quando um mordomo eficiente recebe a ordem de te colocar num táxi, você não tem qualquer alternativa. Então fui de Ipanema até o Leblon de táxi, parei para tomar um café, tirei o sapato de cristal e rumei para o ponto de ônibus do metrô que me levaria até o faroeste.
Isso é ser uma escritora freelancer.
segunda-feira, 18 de agosto de 2008
Karma?
Aconteceu de novo. Foi a quarta vez. Bom, tudo começou com a Ana, mas aí podemos chamar de coincidência. Como vocês seis já estão enjoados de saber, na época a gente se esbarrava no mesmo consultório. Então veio A bela menina e toda aquela montanha russa de histórias ligadas ao uso de drogas como um meio de aplacar a dor da alma, aquela que dói quando a gente suspira e pensa na vida. Alguns meses depois do lançamento do livro, uma mulher de São Paulo entrou em contato comigo, por email. Queria contar a história dela. Caía naquela categoria de mulheres que amam demais, sofrem a vida inteira e, aos poucos, conseguem recuperar seus caquinhos. Fiquei interessada, trocamos vários emails mas acabei desistindo porque não acredito em entrevistas à distância. É como um namoro por correspondência: simplesmente não dá certo. Bom, pelo menos comigo nunca deu.
Antes disso, outra pessoa, dessa vez um homem, já havia pedido os meus contatos na editora. Esse tem uma história insólita, daquelas que num dia a pessoa tem tudo do bom e do melhor e do poder e no outro não resta nada além de uma sensação estranha de que tudo não passou de um sonho esquisito, alcoolizado e drogadito. Fiquei interessadíssima, conversamos (desta vez ao vivo) e encaminhei o caso para o meu marido, que é roteirista e já tem até parte da escaleta do filme na cabeça. Combinamos que vou pegar o bonde um pouco mais tarde, em outra esquina, quando as entrevistas já estiverem mais adiantadas.
Na semana passada, me ligou um amigo da Ana Karina. Disse que a história dela é fichinha perto da dele, ou essa foi a minha interpretação das entrelinhas. Acertamos de conversar em setembro, depois de terminado o livro do Nós do Morro.
Mas agora eu me pergunto: gente, será um karma escrever histórias tão pesadas? Sei que ajudo de verdade os meus, digamos, personagens. Mas porque será que tanta coisa carregada anda chegando por aqui? Será coincidência ou eu tenho uma missão nesse estranho mundinho? Preciso de um banho de sal grosso ou simplesmente sentar a bunda e escrever sobre isso tudo até que isso tudo ganhe outro significado além da dor? Ser ou não ser, eis a questão. Opinem, por favor. Também aceito conselhos, rezas e simpatias.
Antes disso, outra pessoa, dessa vez um homem, já havia pedido os meus contatos na editora. Esse tem uma história insólita, daquelas que num dia a pessoa tem tudo do bom e do melhor e do poder e no outro não resta nada além de uma sensação estranha de que tudo não passou de um sonho esquisito, alcoolizado e drogadito. Fiquei interessadíssima, conversamos (desta vez ao vivo) e encaminhei o caso para o meu marido, que é roteirista e já tem até parte da escaleta do filme na cabeça. Combinamos que vou pegar o bonde um pouco mais tarde, em outra esquina, quando as entrevistas já estiverem mais adiantadas.
Na semana passada, me ligou um amigo da Ana Karina. Disse que a história dela é fichinha perto da dele, ou essa foi a minha interpretação das entrelinhas. Acertamos de conversar em setembro, depois de terminado o livro do Nós do Morro.
Mas agora eu me pergunto: gente, será um karma escrever histórias tão pesadas? Sei que ajudo de verdade os meus, digamos, personagens. Mas porque será que tanta coisa carregada anda chegando por aqui? Será coincidência ou eu tenho uma missão nesse estranho mundinho? Preciso de um banho de sal grosso ou simplesmente sentar a bunda e escrever sobre isso tudo até que isso tudo ganhe outro significado além da dor? Ser ou não ser, eis a questão. Opinem, por favor. Também aceito conselhos, rezas e simpatias.
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