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sexta-feira, 4 de setembro de 2009

O lado bom da vida

Já falei muito aqui das agruras de um escritor freelancer. Mas não falei ainda das benesses.
São muitas! Como ser sempre aquela pessoa que pode ir ao supermercado, que pode chamar o bombeiro, receber o cara da Net, dar atenção ao papagaio e sacar o dinheiro da diarista. Ah, gente, é tão bom ser dona do próprio tempo! Assim a gente pode sempre devolver fita na vídeolocadora, trocar o óleo do carro, comprar pão na padaria e, luxo dos luxos, levar a colcha king size para a lavanderia.
É porque a gente trabalha em casa, bobinhos. Então é sempre mais fácil pra tudo, entenderam? Como o meu único chefe presente é um papagaio, nunca posso falar que não, não posso, meu chefe vai me matar. O meu chefe dá trabalho, é verdade, mas ainda (ainda) não me proibiu de sair de casa. Estou tentando ensiná-lo a fazer isso. Daí, triunfante, vou poder dizer que estou com penas até o pescoço, sentada num saco de ração e completamente impossibilitada de mexer os dedos bicados dos pés. Sim, porque as mãos continuarão, esquizofrênicas, grudadas no teclado, tentando trabalhar no meio de tanto.
Bom final de semana pra vocês também.

quarta-feira, 10 de junho de 2009

Sublime, uma obra!

Vocês leram o mesmo que eu? Eu disse que essa obra da cozinha era uma coisa sublime?
(Pausa para o engasgo)
Estou aqui roxa de falta de ar e ainda tenho que ler isso? Vocês só podem estar de brincadeira comigo!
Não, crianças. Nenhuma obra em casa é sublime por mais de duas semanas, mesmo aquelas que têm prazo oficial de três. No final da segunda semana você já brigou com o encarregado das obras porque ele e sua equipe chegam para trabalhar ao meio dia (quando chegam) e já não quer mais escolher cor de rejunte coisa nenhuma. Você quer é atirar o rejunte na cara de todos os pedreiros, principalmente no chefe deles. Você quer mandá-los lamber toda a poeira antes de recolocar os armários de qualquer maneira. Que eles fiquem de cabeça pra baixo, está óóótimo. Também não importa o batente torto nem o acabamento questionável da azulejaria. A prioridade é acabar com a tortura preta da sujeira, com a poluição sonora debilitante e, principalmente, com as dores de cabeça que inevitavelmente acompanham o trabalho de um profissional malandro.
Enquanto isso a escritora freelancer sofre. Quem consegue escrever com esse stress, cambada?
Acudam. Mandem telefones de pedreiros, marceneiros, pintores. Está aberto o processo de recrutamento e seleção para as próximas obras. As de 2020.

sexta-feira, 5 de junho de 2009

Estamos em obras

Finalmente conseguimos começar as obras da cozinha. Que felicidade! Que expectativa deliciosa essa de ver um piso todinho novo, paredes idem, tudo na mais perfeita harmonia estética, sem tintas descascadas e rachaduras polvilhadas por todo o ambiente. Que delícia respirar fundo e sentir as lambadas da poeira lá no fundo do nariz, fechar os olhos e escutar o barulho infernal do quebra-quebra, passar os dedos pelos rodapés e sentir a textura áspera do pó que, provavelmente, vai habitar o nosso lar doce lar por um bom tempo.
Isso sem falar na diversão que é levar toda a cozinha para a sala. Agora tenho certeza de que o insight do loft aconteceu na cabeça de uma pessoa que estava fazendo obras na sua cozinha. O sujeito estava lá, sentadão no sofá, ao lado da geladeira e, num momento divino em que faiscaram luzes nas suas sinapses nervosas, percebeu que precisava apenas esticar os braços para pegar mais uma cerveja. Depois olhou para o outro lado e viu que o seu fogão ficava muito belo e distinto ali, ao lado da janela. E a máquina de lavar perto do aparador? Um luxo! E... eureca! Estava criado o loft! Isso sim é arquitetura, crianças!
Bom, como o nosso loft fica no faroeste e não em NY, ele parece mais um favelão, mesmo. Ao menos é a impressão que dá quando passo correndo por ele, aos soluços, um só olho aberto. E também quando percebo, macarrão encomendado por telefone no colo, que não tenho a menor idéia de onde encontrar um garfo. Deve estar no meio da montanha de louça empilhada na mesa e coberta com uma coleção até então desconhecida de panos de pratos dos mais variados. Como a gente acumula tantos panos de prato, gente? Onde eles estavam esse tempo todo?
Bobagem, vocês dirão. Obra é assim mesmo, não é? Não, não, não é não, essa não é não, senhores, não, não! E sabem por que? Porque essa é a primeira obra que uma escritora freelancer e um roteirista recém contratado bancam em vôo solo, quer dizer, duplo. Não é lindo? Não é emocionante? Não é sublime?
Então. Vou tentar me lembrar disso amanhã, antes de tropeçar no microondas, fazer café na cafeteira com guardanapo no lugar do filtro e sentar no sofá coberto com lençóis para saborear um pão velho. Em cima de um prato de plástico.


P.s Não pensem que vocês vão se livrar dos catarrinhos. Eles continuam.