Ahá! Acharam que eu ia desistir? Nananina-não, crianças. Aí vai mais um catarrinho, antes que vocês mudem de idéia. Ou que não mudem, sei lá. Ando tão confusa...
III
Era na Travessa Chinesa, n° 5. Um destes fast-foods chineses. Curioso comemorar o aniversário de um amigo japonês em um restaurante chinês. Já no táxi, o desespero de Duda por não achar o lugar. Sempre ficava muito nervoso nestas horas. Do outro lado da rua imunda, uma calçada escura cheia de estrangeiros dopados. Na saída do hotel, quando percebi que tinha esquecido tudo e me lembrei da pantera do outro lado da porta de madeira com uma única tranca, tremi e pedi um copo d’água para um colega que não voltou mais. Tinha ido comprar os comprimidos e acabou preso. Ainda lembro dos olhos dele, arregalados, incrédulos ao andamento da nova lei.
Na casa de folhas, que a gente chamava assim porque tapava as janelas com folhas grudadas a cola, nada disso acontecia. A droga, qualquer uma, era visita freqüente. Depois, com folhas grudadas no corpo por pura diversão, vinha a brincadeira do gol. Um goleiro, um jogador e uma bola. A bola era sempre o perdedor. Arremessado, geralmente se machucava.
Tudo isso a gente lembrou na Travessa Chinesa. Eu com a mesma mochila de Primeiros Socorros que a Quênia também usava. Não servia para nada, mas em cavalo dado não se olham os dentes, era o que se dizia. Era bom mesmo não olhar, porque deviam estar tão podres e fedidos quanto os becos e ruelas ali perto. Eu mesma não tomava banho há três dias. Ou o que eu achava que eram três dias. Já havia perdido a noção do tempo fazia muito tempo, ou algo parecido. Acho que contava os dias de acordo com os pesadelos da pantera. Ficavam piores a cada dia. Se ao menos a gente morresse logo de susto, antes de ser comido vivo por ela, negra, com os dentes molhados de saliva pedindo carne de mulher, sua preferida. Foi uma eternidade enquanto a porta de madeira agüentou.
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quarta-feira, 3 de junho de 2009
quarta-feira, 27 de maio de 2009
Vum ta tá
Antes de publicar aqui mais um catarrinho, tenho que conversar com vocês sobre o vum ta tá. Vum ta tá é o seguinte, acompanhem comigo: vum-ta-tá-vum-ta-tá-vum-ta-tá. A bolinha do karaokê cai sempre em cima do último tá, assim: vum-ta-tá-vum-ta-tá-vum-ta-tá, e o ritmo é esse mesmo, meio sincopado. Vocês aí que bateram os pezinhos no chão já entenderam. Estamos falando de uma valsa. Uma valsa alemã. Uma valsa alemã é bela e, como tudo que é alemão, também é rígida. Não tem jeitinho, rebolado nem gingado. É dançada direitinho, passos curtos pra lá e pra cá com um ligeira levantada dos pés ao final de cada movimento, para dar leveza e impulso. É bonito, gente, mas é tudo programado, dentro do script, sem guinadas nem grandes ousadias.
Pois bem. Em uma das nossas viagens para divulgar o livro Marilia Carneiro no Camarim das Oito, ganhei da Marilia esse apelido. Isso mesmo, eu sou uma vum ta tá. Estávamos em Belo Horizonte e, depois da noite do lançamento, esticamos para um jantar na casa de um chef e, conversa vai conversa vem, a coisa acabou na mais alta madrugada. No mesmo dia, de manhã, tínhamos uma entrevista coletiva no hotel. Bom, ao menos chamavam aquele lugar de hotel, mas eu tenho certeza de que era uma casa de repouso disfarçada. As janelas do quarto eram anti-ruído e as cortinas tinham o blackout mais poderoso de todos os tempos. A intenção dos donos era clara: que você entrasse, se jogasse na cama de molas americana, afundasse no travesseiro gordo e nunca mais acordasse. Ou melhor, que acordasse um mês depois para pagar a conta do que deveria ser apenas um final de semana.
Naquela manhã que ainda parecia noite, me senti na Finlândia. Nunca estive na Finlândia, mas deve ser assim viver sem a luz do sol. Era quase impossível sair da cama, ainda mais com uma leve ressaca. Mas lembrem-se, eu sou vum ta tá. Aos tropeços me arrumei, peguei até meu bloquinho para anotar contatos de jornalistas locais e, na hora marcada, cara limpa, eu estava lá. Se bem me lembro acho que passei até um batonzinho.
Fui a única. Nem os jornalistas apareceram. E olha que eles não estavam hospedados no mesmo hotel. Quando o atraso da Marilia já contabilizava meia hora nos meus ponteiros alemães, liguei para o seu quarto. Tirei-a de um sono profundo.
Mais tarde, num almoço, uma jornalista apareceu, leve e faceira. “Matei a coletiva”, disse, rindo e pedindo mais uma caipirinha. Gente, qual o segredo desses mineiros? Olhando aquela cena, aquela soltura toda, tirei o chapéu para a Marília. Ela tem toda razão. Eu sou vum ta tá em todos os espirais do meu DNA.
Isso tudo foi só para falar que a vum ta tá aqui sempre teve dificuldade de ler um livro sem passar antes pela introdução, pelo prefácio, por todo o caminho recomendado formalmente. De preferência, dando também uma olhadinha na ficha bibliográfica. Achava uma rebeldia sem tamanho pular essas preliminares. Com o tempo, no entanto, fui gostando de ler um livro sem ser antes influenciada por ninguém. Gostei de liberar as minhas próprias impressões e depois compará-las com o que diria o prefácio. Rebolei em plena valsa, crianças, uma loucura.
Por isso aqui vai mais um catarrinho sem bula. Sem explicações, sem sinopse, sem apresentação de personagens, sem justificativas. Virem-se. Aos poucos, com alguma sorte, vocês vão entender alguma coisa. E então a gente pode conversar de novo para que vocês me expliquem tudo. Sem hora marcada, é claro.
II
Esse incidente aconteceu no lançamento do livro de uma amiga minha, antes de tudo acontecer. Antes dos pesadelos, antes da pantera, antes da tragédia que virou a vida aqui. Dos meus 32 anos, é praticamente só o que eu lembro. Antes deste dia parece que nada existiu ou aconteceu. Dizem que é efeito dos remédios, mas pode ser choque. Não o elétrico, o psicológico. Estado de choque. Talvez esta seja a melhor maneira de definir os fantasmas que sobraram. Se é que eles estão por aqui, andam em estado de choque fulminante. Também falam em crise de abstinência, mas deve ser tudo junto, porque as overdoses continuaram, o que mudou foi a receita. O Clever, por exemplo. Agora ele deu pra comer lata velha de tomate. Diz que os fungos dão barato. As manchas verdes em volta da boca eu não sei se já são dos fungos, talvez seja coisa pior. O fato é que ele dá pulinhos quando encontra uma lata dessas no lixo, bate com a colher nela como quem entoa uma batucada e depois lambe como se fosse um doce de leite ou alguma coisa dessas doces que a gente tomava quando ainda existia leite. Outro dia ele também olhou comprido para um hambúrguer estragado, mas não fiquei para ver o horror show.
Pois bem. Em uma das nossas viagens para divulgar o livro Marilia Carneiro no Camarim das Oito, ganhei da Marilia esse apelido. Isso mesmo, eu sou uma vum ta tá. Estávamos em Belo Horizonte e, depois da noite do lançamento, esticamos para um jantar na casa de um chef e, conversa vai conversa vem, a coisa acabou na mais alta madrugada. No mesmo dia, de manhã, tínhamos uma entrevista coletiva no hotel. Bom, ao menos chamavam aquele lugar de hotel, mas eu tenho certeza de que era uma casa de repouso disfarçada. As janelas do quarto eram anti-ruído e as cortinas tinham o blackout mais poderoso de todos os tempos. A intenção dos donos era clara: que você entrasse, se jogasse na cama de molas americana, afundasse no travesseiro gordo e nunca mais acordasse. Ou melhor, que acordasse um mês depois para pagar a conta do que deveria ser apenas um final de semana.
Naquela manhã que ainda parecia noite, me senti na Finlândia. Nunca estive na Finlândia, mas deve ser assim viver sem a luz do sol. Era quase impossível sair da cama, ainda mais com uma leve ressaca. Mas lembrem-se, eu sou vum ta tá. Aos tropeços me arrumei, peguei até meu bloquinho para anotar contatos de jornalistas locais e, na hora marcada, cara limpa, eu estava lá. Se bem me lembro acho que passei até um batonzinho.
Fui a única. Nem os jornalistas apareceram. E olha que eles não estavam hospedados no mesmo hotel. Quando o atraso da Marilia já contabilizava meia hora nos meus ponteiros alemães, liguei para o seu quarto. Tirei-a de um sono profundo.
Mais tarde, num almoço, uma jornalista apareceu, leve e faceira. “Matei a coletiva”, disse, rindo e pedindo mais uma caipirinha. Gente, qual o segredo desses mineiros? Olhando aquela cena, aquela soltura toda, tirei o chapéu para a Marília. Ela tem toda razão. Eu sou vum ta tá em todos os espirais do meu DNA.
Isso tudo foi só para falar que a vum ta tá aqui sempre teve dificuldade de ler um livro sem passar antes pela introdução, pelo prefácio, por todo o caminho recomendado formalmente. De preferência, dando também uma olhadinha na ficha bibliográfica. Achava uma rebeldia sem tamanho pular essas preliminares. Com o tempo, no entanto, fui gostando de ler um livro sem ser antes influenciada por ninguém. Gostei de liberar as minhas próprias impressões e depois compará-las com o que diria o prefácio. Rebolei em plena valsa, crianças, uma loucura.
Por isso aqui vai mais um catarrinho sem bula. Sem explicações, sem sinopse, sem apresentação de personagens, sem justificativas. Virem-se. Aos poucos, com alguma sorte, vocês vão entender alguma coisa. E então a gente pode conversar de novo para que vocês me expliquem tudo. Sem hora marcada, é claro.
II
Esse incidente aconteceu no lançamento do livro de uma amiga minha, antes de tudo acontecer. Antes dos pesadelos, antes da pantera, antes da tragédia que virou a vida aqui. Dos meus 32 anos, é praticamente só o que eu lembro. Antes deste dia parece que nada existiu ou aconteceu. Dizem que é efeito dos remédios, mas pode ser choque. Não o elétrico, o psicológico. Estado de choque. Talvez esta seja a melhor maneira de definir os fantasmas que sobraram. Se é que eles estão por aqui, andam em estado de choque fulminante. Também falam em crise de abstinência, mas deve ser tudo junto, porque as overdoses continuaram, o que mudou foi a receita. O Clever, por exemplo. Agora ele deu pra comer lata velha de tomate. Diz que os fungos dão barato. As manchas verdes em volta da boca eu não sei se já são dos fungos, talvez seja coisa pior. O fato é que ele dá pulinhos quando encontra uma lata dessas no lixo, bate com a colher nela como quem entoa uma batucada e depois lambe como se fosse um doce de leite ou alguma coisa dessas doces que a gente tomava quando ainda existia leite. Outro dia ele também olhou comprido para um hambúrguer estragado, mas não fiquei para ver o horror show.
terça-feira, 19 de maio de 2009
Fora de si
O jornalista e escritor José Castello é um dos entrevistados do meu livro Por trás da Entrevista. Isso ele sabe. O que ele não sabe é que também é meu mestre. Leio as colunas semanais dele no Prosa & Verso como quem saboreia palavras de um guru. Leio atenta e guardo tudo o que o meu limitado material cinzento permite. Ou seja, muito pouco. Mas há ensinamentos inesquecíveis, como o de sábado passado. A citação era de uma “idéia feroz” de João Cabral de Melo Neto: “Escrever é estar no extremo de si”. E agora é Castello falando: “Nessa última fronteira, em que o Eu desvanece, o escritor pisa a parte mais inóspita de si mesmo – aquela em que se transforma em outro. Literatura não é confissão, é invenção.”
Fim da aula. Lembro da reação dos meus pais ao lerem o que vocês seis vão começar a ler agora: “É muito estranho pensar que foi você quem escreveu isso”, disseram, em uníssono. Fiquei imediatamente feliz com a declaração, sim, de papi e mami – ou vocês acham que eu ia mostrar o texto para mais alguém? Naquela época eu ainda era sã, crianças.
O fato é que escrever é mesmo isso. Quanto menos você se reconhecer no texto, melhor. Sinal de que o ego deu um tempo e abriu espaço para o que realmente interessa, que é a tal da literatura. Bom, não sei se posso chamar o Romance Inacabado de Gaveta de literatura. Provavelmente não, mas vá lá. Ao menos é um voleio, um gingar de corpo, um reboladinho. Molecas letrinhas urrando funduras.
E como já disse, aceito qualquer trocado. Afinal de contas eu podia estar roubando textos alheios, podia estar assaltando críticos, podia estar matando, mas estou aqui, trabalhando honestamente, oferecendo a alma e pedindo um minuto de sua atenção.
Poupem o motorista. A culpa toda é do trocador.
I
O que dava mais nojo nem era a saliva que jorrava na minha cara, era a língua rebolante, histérica, que não parava de se enrolar e mais parecia um bicho de tanta força que tinha. Uma minhoca rebelde, vamos dizer assim. Tirei forças sei lá de onde e arranquei um pedaço da minha blusa. Enrolei o pano em dois dedos da mão direita, dobrei e enfiei lá, naquela boca louca. Acho que consegui segurar a língua imensa, porque ao menos ele parou de revirar os olhos. A ambulância, porra, cadê essa ambulância? Nos seriados que via na Warner tudo acontecia bem mais rápido nestas emergências. E o dedo lá, na bocarra. Medo de ser mordida e perder a mão. Solta ele, berrou um cara que se disse médico, me empurrando. Aí foi patético. Fui empurrada para o lado mas como não consegui tirar a mão de dentro da caverna babada, tombei e fiquei presa ao corpo do epiléptico exausto. Vem cá, esse macaco aí é médico? Chama outro, gritei. Ele começou a fazer força para soltar a minha mão, mas aquela língua parecia mais uma algema. Inacreditável, fiquei pensando, e olha que nem tinha percebido ainda que, por causa do rasgão na blusa, meu peito todo estava aparecendo. Maravilha. Pior só escutar de algum imbecil que o pobre coitado da língua insana precisava era levar um choque.
Fim da aula. Lembro da reação dos meus pais ao lerem o que vocês seis vão começar a ler agora: “É muito estranho pensar que foi você quem escreveu isso”, disseram, em uníssono. Fiquei imediatamente feliz com a declaração, sim, de papi e mami – ou vocês acham que eu ia mostrar o texto para mais alguém? Naquela época eu ainda era sã, crianças.
O fato é que escrever é mesmo isso. Quanto menos você se reconhecer no texto, melhor. Sinal de que o ego deu um tempo e abriu espaço para o que realmente interessa, que é a tal da literatura. Bom, não sei se posso chamar o Romance Inacabado de Gaveta de literatura. Provavelmente não, mas vá lá. Ao menos é um voleio, um gingar de corpo, um reboladinho. Molecas letrinhas urrando funduras.
E como já disse, aceito qualquer trocado. Afinal de contas eu podia estar roubando textos alheios, podia estar assaltando críticos, podia estar matando, mas estou aqui, trabalhando honestamente, oferecendo a alma e pedindo um minuto de sua atenção.
Poupem o motorista. A culpa toda é do trocador.
I
O que dava mais nojo nem era a saliva que jorrava na minha cara, era a língua rebolante, histérica, que não parava de se enrolar e mais parecia um bicho de tanta força que tinha. Uma minhoca rebelde, vamos dizer assim. Tirei forças sei lá de onde e arranquei um pedaço da minha blusa. Enrolei o pano em dois dedos da mão direita, dobrei e enfiei lá, naquela boca louca. Acho que consegui segurar a língua imensa, porque ao menos ele parou de revirar os olhos. A ambulância, porra, cadê essa ambulância? Nos seriados que via na Warner tudo acontecia bem mais rápido nestas emergências. E o dedo lá, na bocarra. Medo de ser mordida e perder a mão. Solta ele, berrou um cara que se disse médico, me empurrando. Aí foi patético. Fui empurrada para o lado mas como não consegui tirar a mão de dentro da caverna babada, tombei e fiquei presa ao corpo do epiléptico exausto. Vem cá, esse macaco aí é médico? Chama outro, gritei. Ele começou a fazer força para soltar a minha mão, mas aquela língua parecia mais uma algema. Inacreditável, fiquei pensando, e olha que nem tinha percebido ainda que, por causa do rasgão na blusa, meu peito todo estava aparecendo. Maravilha. Pior só escutar de algum imbecil que o pobre coitado da língua insana precisava era levar um choque.
Continua (se vocês seis quiserem)
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