segunda-feira, 17 de novembro de 2014
Inhotim tem um andar sincopado. Traz uma pausa aos passos e passos à pausa. Mistura arte botânica com arte contemporânea, bromélias com esculturas, caminhos e fissuras. São 110 hectares, a gente logo aprende. 10 mil metros quadrados de espaço mágico. Espaço suficiente para entender o que Heidegger quer dizer com... espaço: o próprio espaço em si é o abrir espaço, é dar fôlego e licença para a concretude e, consequentemente, para a nossa relação com o mundo. Em Inhotim caminha-se muito. Heidegger diz: Viver é caminhar. Sincopadamente.
Inhotim, Brumadinho, BH.
quinta-feira, 23 de outubro de 2014
Entre Homero, tijolos e azulejos
"Ah, vai ler Homero!", disse a professora, e a icônica frase acabou batizando, no whatsapp, um grupo de conversa dos alunos. Tempos modernos. Era um desabafo, a frase, um desencanto com a juventude que só conversa via multiplataformas eletrônicas, olhos grudados no celular, dedos ágeis e distraídos deslizando pela tela. Mas era também um comando e, apesar de já ter me distanciado das gerações z, y e de outras cujo alfabeto provavelmente nem conheço, obedeci o timbre imperativo. Comprei a edição recomendada da Odisseia e me aventurei pela jornada de Odisseu.
O ímpeto venturoso, no entanto, durou pouco mais de dez páginas. Ainda no Canto I me perdi na cólera de Posido, não sabia mais quem era Orestes, quem Hermes, ou quem fora gerado pela ninfa Toosa, filha de Forco, e, principalmente, quem queria se vingar de quem e porquê. Apesar de me sentir envolta numa espécie de bruma melodiosa que a literatura contemporânea desconhece, por ora precisei, infelizmente, abandonar a nau.
Não é culpa de Homero, é claro. Talvez a culpada seja a minha memória, deficiente desde que inventaram o google, o gravador digital, os aplicativos de notas e lembretes e até mesmo o whatsapp. McLuhan não poderia estar mais certo: a tecnologia digital é, sim, ao mesmo tempo, uma extensão e um aniquilamento de nossos sentidos e capacidades. Lembro de que, na pré-adolescência, sabia o telefone de todos os meus amigos de cor. Era outra, certamente, a minha memória, sem a flacidez dos neurônios atuais ¬– esses que, a fórceps, nascem para o whatsapp e afins.
Acabrunhada, paro a leitura e saco da bolsa ele, o senhor dos tempos, o aparelho móvel indispensável. Passo os dedos pelas fotos. Uma delas, tirada numa loja de móveis por pura atração estética, parece querer me dizer alguma coisa.
Sim, há tijolos dispostos nas prateleiras. Como livros esperando por um encontro, eles habitam o espaço com naturalidade. E escrevo habitam porque pesquiso, no google, a etimologia da palavra decorar. Descubro que nela está presente a palavra grega "doxa": senso comum, opinião, doutrina. Paráfrase, também, vejo no meu caderno: reescritura, tradução na própria língua. Os tijolos estão ali para serem lidos, seguidos e coabitados em nossa rede de (in) certezas. Eles decoram e explicam a contemporaneidade avessa à Odisseia. Eles nos habitam e nos doutrinam.
Há um cheiro de abstrato nesse concreto exaltado. Se folheados, os tijolos não nos contarão tramas de deuses e mortais embrumados em melodia poética brilhante, mas nos dirão muito, por exemplo, sobre Descartes. Se no mundo grego os deuses convivem com os homens e, logo, não há nada que seja sobrenatural (não há nada que não faça parte da natureza), no mundo cartesiano e pós-cartesiano, se é que se pode dizer assim, não há nada que não seja matéria nem pensamento, nada que recupere a cisão entre homem e mundo. Sem prateleiras para o que não vem da razão.
Nada, nem mesmo os tijolos, estão sujeitos ao devir. E por isso mesmo, talvez, eles precisem mudar de lugar. Quando tudo parece tão cimentado, a parede sente vontade de virar do avesso e mostrar seus bastidores. Escrutinamos o tijolo por pura falta de alternativas ou porque na argila também estejam, queimados no forno industrial, nossos paradigmas. O mais profundo é a pele.
Passamos do homérico mundo circular do devir, sujeito sempre ao movimento de vir a ser, ciclo de nascimento e morte eterno, ao mundo do ser já fixado, emassado, construído ¬– finito. É essa marca da mortalidade do ser e do mundo que escorrega para as prateleiras ao menor descuido. Gestos artísticos, é o que parece, são resistentes ao cimento do indefinido.
É sabido que, depois de Descartes, a razão científica foi colada à experiência de tal modo que se tornou empírica. Mas não deixou de ser abstrata. O dinheiro e o H2O da água são abstrações reais, lembra Marx, pra quem a ciência moderna talvez não tivesse sido possível sem o capitalismo. Vivemos abstrações encarnadas num mundo sequestrado pela mecânica e é por isso que, mesmo acariciando a parede com as mãos como as crianças fazem com propriedade, não conhecemos a parede. Também deve ser por isso que a minha filha de dois anos, com alguma frequência, tenta literalmente entrar nos seus livros abertos no chão, pisando neles e encaixando os pés dentro das páginas. Respeito o momento. Entendo a necessidade latente, hoje, de entrar em algum mundo, qualquer um, já que estamos sempre do lado de fora, do lugar de quem olha de longe e engole uma explicação – geralmente científica. Prefiro que o mundo escolhido por ela seja o da literatura. Há os que preferem entrar na igreja, por exemplo. É mais fácil caminhar lá dentro. Estão escondidos os tijolos.
O mundo moderno brigou com Homero. Sentiu-se ameaçado por sua força luzente e rompeu com o ser e com o real. Adotou a ideia tornando-se assim platônico, desistindo de encarnar qualquer realidade concreta ameaçadora como as grandes naus. Entre a verdade e o saber já fora criado um abismo pelos romanos, levados a adaptar seu realismo ao cristianismo. O real, assim, não está mais no ser, imantado como na voz de Homero, entoada capaz de abraçar o mundo. Mas talvez, arrisco pensar, ele esteja no tijolo.
No lugar da poesia de Homero, aquela que, define Heidegger, "é a poesia que permite ao homem habitar a sua essência", ficou a linguagem-instrumento, incapaz, por isso mesmo, de produzir uma Odisseia. A linguagem, em Homero, não tinha um objetivo: era um fim (e um universo) em si mesma.
Mas a linguagem é a senhora do homem, diz Heidegger. É nela que se dispõem tijolos e documentos "suculentos" – essa foi outra expressão anotada na aula, mas que não virou título de grupo de whatsapp. Documentos são vivos e suculentos porque, quando palavras são compartilhadas, elas se tornam realidade. Há toda outra humanidade em laivos, estilhaços e clarões de um mundo que já se foi. Lembrei imediatamente dos quadros de Adriana Varejão, das carnes de azulejo:
Azulejaria em carne viva, 1999, óleo sobre tela e poliuretano em suporte de alumínio e madeira.
Quando a linguagem não dá conta do real ela excede o homem e atravessa paredes. Azulejo mole, carne dura, tanto bate até que fura. Então o azulejo escancara a boca e grita: carne viva também é arte. A carne pesa, a pele rasga, a parede se abre: surgem novos espaços, outros dentros, antessalas da superfície, gula do olhar. Nos trabalhos de Varejão, os documentos são suculentos. Nos tijolos dispostos nas prateleiras, o concreto é abstrato.
Nesse teatro em que o homem reconta a sua história com tijolos, azulejos e carnes está, intuo em atitude metafísica, a poiesis moderna, carregada de permanência e infinita enquanto dura. Quando a palavra não consegue mais dar conta do real, não é porque a realidade cresceu. A própria palavra, imersa na comunicação funcional, é que ficou menor. Grande só a poesia, capaz de levar o homem a habitar poeticamente o mundo. E talvez por isso seja tão difícil adentrá-la.
É construindo que o homem habita, lembra Heidegger, desenhando a quadratura desse habitar que é, ao mesmo tempo, ser : céu / terra / deuses / mortais. Não somos corpos encapsulados e no homem também vive o extraordinário, o divino, a centelha capaz de fazer brotar tijolos em prateleiras ou carnes em azulejos. No homem ainda vive Homero, imortalizado pela poesia, esperando pelo bom combate, pelo AGON, luta pela excelência que virou luta da alma e hoje parece apenas agonia medicada. É recomendado que estejam fora das prateleiras as tragédias ou qualquer outra coisa que escape ao nosso desejo racional de controle.
Ainda assim, mesmo a tragédia traz sempre o horror por meio da palavra. Não vemos Édipo furar seus olhos, por exemplo. Catástrofe e catarse só existem através da linguagem. "O poeta lava a violência com a palavra", anotei também em sala, sublinhando duas vezes a frase. Por isso Homero, cego, vê a pura imagem e a poiesis, para os gregos, é sempre menor do que a obra deixada por ela.
Compreendida a diferença de mundos, tenho profunda inveja de quem lê Homero. Empurrada por Nietzsche para a agonia, (AGO ¬– empurrar, incitar), pretendo fazer dessa inveja o motor para a conquista da leitura de Odisseia. Mesmo que o grupo do whatsapp acabe, seu título ainda vai estar lá. Pensar, como bem disse Heidegger, é agradecer.
Referências bibliográficas
Odisseia / Homero ; tradução Carlos Alberto Nunes. Rio de Janeiro: Ediouro, 2001.
Varejão, Adriana. Adriana Varejão: entre carnes e mares = between flesh and oceans / Adriana Varejão; (org. Isabel Diegues; versão para o inglês Stephen Berg). Rio de Janeiro: Cobogó, 2009.
Heidegger, Martin, 1889-1976. Ensaios e conferências I Martin Heidegger; Tradução de Emmanuel Carneiro Leão, Gilvan Foge], Marcia Sá Cavalcante Schuback.- 8. ed. -Petrópolis: Vozes; BragançaPaulista: Editora Universitária São Francisco, 2012. (Coleção Pensamento Humano)
Nietzsche, Friedrich Whilhelm. Cinco prefácios para cinco livros não escritos. RJ: Sete Letras.
terça-feira, 30 de setembro de 2014
O nojo do mofo e o mofo do nojo
em Assim falou Zaratustra

O mofo antigo
colou-se ao novo
causando um grande bolor.
Do verde musgo saiu uma dúvida
imanente
mas logo assim que surgiu no ar
mofou também,
colando-se ao mofo mais velho.
Trata-se portanto
de um bolor
impenetrável.
O bolor amarela. Tem pêlos às vezes verdes, às vezes roxos, sendo essas cores eventualmente graduadas por uma pincelada, aqui e ali, de cinza chumbo. Posso quase acreditar que também é possível enxergar um degradê de rosa. Faço uma breve pesquisa no Google e aprendo que, para nos protegermos dos fungos e das vegetações criptogênicas, é preciso confiar na repulsa dos nossos sentidos, que soam, para o organismo, como um alarme de perigo.
Paro como se estivesse diante de uma placa de rua sem saída. Penso na garganta com nojo, travada no fundo da boca, ameaçando colocar toda a sua repulsa para fora, livrando o estômago de qualquer ameaça. Penso no esôfago tenso, preparado para a ginástica do vômito. Na saliva ácida e beligerante. Todos armados contra as bactérias ameaçadoras, que por sua vez também trabalham na mais perfeita eficiência.
Essas são ordens fisiológicas. Comandos do organismo, portanto, coordenadas ditas “involuntárias”. Engulo tudo isso junto com o Zaratustra e digiro ainda com dificuldade: são pensamentos do corpo. O nojo, antes de ser um juízo subjetivo e estético, é uma defesa orgânica. Um sinal vermelho de Pare, um alarme que seria sonoro até se pudesse, mas não é preciso. Seu pensamento é tão completo que chega a arrepiar outros pêlos, aqueles que estão no braço paralisado ante o pão bolorento. O nojo é defesa e inteligência sutil. O nojo, tenho de aceitar, também sou eu.
Ainda é difícil, hoje, e começa a parecer estranho que assim seja, pensar no corpo como alguém. “O alguém é o recheio do corpo”, diz Arnaldo Antunes. Nem só alma, nem só cadeia de músculos exercitados na academia: alguém que pensa junto comigo. Ou separado quando resolvo negá-lo, me diz a psicanálise.
Recentemente, durante a gravidez, tive a experiência de andar com patas de elefante. Meus pés, de repente, ficaram inchados e pesados como se meu corpo magro pesasse cem quilos. Era doloroso andar e as câimbras traziam com elas a angústia da imobilidade. Remédios, meias elásticas, pernas para cima: nada parecia ajudar. O desconforto era tamanho que costumava acabar em desespero. A grávida iogue e saudável estava sentindo, pela primeira vez, a inescapabilidade do corpo. Eu queria poder fugir dele. Aquelas pernas, que impediam a caminhada, não pareciam me pertencer. Senti todo o tormento de querer sair da casca e não conseguir. Eu era, mais do que nunca, todo aquele corpo inchado.
Depois de nascida a minha filha, no entanto, as dores continuaram. Passaram-se dois meses, três meses, e nada. “Eu não aguento mais”, disse a uma angiologista de olhos compadecidos. A cirurgia era até recomendada, mas não eram bem as varizes que me imobilizavam. Era o peso da maternidade, era a violência de se descobrir responsável por um outro ser para sempre, mesmo tendo sido esse ser tão desejado; era a inexorabilidade em carne, osso e choro agudo de fome madrugada adentro.
Aos poucos, o tempo se encarregou de resolver o problema com laços indizíveis de afeto e, quando consegui voltar a escrever um pouco, de novo me reconhecendo como alguém que caminha com as próprias pernas, a dor passou.
É recordando fatos tão pessoais como esses que entendo melhor o Zaratustra, ele mesmo, aliás, atiçando as minhas lembranças: “Pois no fundo se ama apenas a seu filho e sua obra; e, onde há grande amor a si mesmo, ele é sinal de gravidez: assim enxerguei.” (p. 153).
Entendo com o andarilho que desgosta de planícies que “afinal, vivencia-se apenas a si mesmo”. Então, para entender o Zaratustra, aceito que o acaso anda de mãos dadas com a vontade e me relembro. Sou eu mesma tudo o que tenho.
Nietzsche faz 22 alusões ao nojo em Assim falou Zaratustra, indica o índice remissivo. Pontuações constantes e ritmadas, como quem demarca as vezes em que a língua quer deixar de ser língua. A própria frase “Assim falou Zaratustra” cadencia a valsa do descontentamento, da busca por algo que não mofe e, assim, não cause asco. Mas será que esse algo existe?
Quando queremos que algum alimento não mofe, costumamos colocá-lo na geladeira. A criogenia aliás está aí pra isso, para escrever um parênteses na vida. O ambiente refrigerado suspende o processo natural da tal vegetação criptogênica, seja ela lá o que for. O congelamento, pausa na vida úmida, quente e coerente dos fungos, é o único capaz de evitar o nojo – e também a vida. Quando algo se congela, temos a impressão de que parou no tempo. Mas o tempo, para o andarilho que conversa com cadáveres, é outro problema insolúvel.
O tempo é pai do mofo e cúmplice do nojo. O bolor, lembre-se, é impenetrável. A dúvida, imanente. Se a vontade não pode “querer para trás”, ou seja, não pode lutar contra o tempo, a criação, seja ela de um mofo ou de uma poesia, é também assustadoramente limitada. Não há como sair do corpo, inchado ou não. Eu sou, junto com o nojo, um acaso e um destino.
“Eu, dizes tu, e tens orgulho dessa palavra. A coisa maior, porém, em que não queres crer – é teu corpo e sua grande razão: essa não diz Eu, mas faz Eu.”
Eis um corpo novo em Nietzsche, entretanto. Um corpo que se constrói sozinho rejeitando Deus e toda culpa e por isso mesmo não tem nojo de si. Um corpo que não mofa justamente porque, no lugar de ficar parado absorvendo organismos / valores / verdades que supostamente o alimentam, se expõe às intempéries do tempo, dormindo na floresta, subindo montanhas e enfrentando as maldades soturnas do mar. Um corpo que faz parte do mundo, que não está separado dele, e compartilha com um fungo o mistério – e as agruras – da criação. Nesse corpo está o sentido da terra. “ ‘Corpo sou eu e alma’ – assim fala a criança. E por que não se deveria falar como as crianças?”, pergunta o andarilho. Sim, por que não?
A criança olha tudo como se fosse a primeira vez. De certa forma ela sabe, no corpo em crescimento, que tudo que é essencial é bem sutil. Ela sabe, de alguma forma, que não há verdades e que o saber não é um valor absoluto. E é importante que assim o seja, para que ela possa errar, trocar, tentar de novo, jogar. Reaprender. É claro que é cansativo esse processo e por isso ela pede que uma historinha seja contada de novo e de novo e de novo, mais uma vez numa espécie de cadência musical. Lidar constantemente com o novo, com que não mofa portanto, é difícil e perturbador. Mas é assim, parece, que o corpo funciona. Mesmo depois de adulto. E talvez por isso Zaratustra diga que acreditaria somente num deus que soubesse dançar.
“Mas o pensamento mesquinho parece um cogumelo: rasteja, curva-se e pretende não estar em nenhum lugar – até que o corpo inteiro se ache podre e murcho de tantos pequenos cogumelos.” Eis o mofo. Eis também o corpo ressentido de um projeto que não deu certo. Deus está morto e mofado e por isso o desprezo por esse corpo que um dia acreditou tanto nele. É preciso ir além e começar de novo, como num jogo. O corpo que está para além do homem, para além de suas crenças, não mofa e não causa nojo. Parece ser mais alegre, capaz de dançar e se entreter com borboletas e bolhas de sabão. É atravessado pela vontade de criar e acostumado a mudar sempre, sem precisar se alimentar de valores e morais de outrem como um parasita. O super-homem, aqui, troca a criptonita pela naftalina, depois de também ter mudado, é claro, de planeta.
O super-homem nasce na terra e pertence à ela, é o próprio sentido da terra. É o que não mofa nunca porque está além do corpo; está além dele mesmo, além de seus limites marcadores de mofo.
O super-homem, e agora quem fala é a ex-grávida de pernas inchadas, pode ser a criança que não se deixa mofar, sempre destruindo crenças para criar algo novo, fazendo, tal qual o funâmbulo, do perigo o seu ofício. É levando tombos que se aprende a andar, e para nascer sozinho, sem cortes, é preciso querer muito e fazer esforço. É preciso, de certa forma, renegar as cesáreas e participar do próprio nascimento.
O que mofa e intoxica é achar que já chegamos onde queremos, aprendo à fórceps, sofrendo junto com Zaratustra. A criação, como a criança, habita corpo e alma e por isso mesmo deixa o sangue dos machucados tingirem os esparadrapos, para dizer o mínimo. Mas é melhor ralar os joelhos do que parar de andar, tento me convencer, de mãos dadas com a angústia. É melhor se tornar uma passagem do que um ponto final. É super-homem também aquele que esquece de si mesmo. É a obra em si a causa do artista, e não vice-versa.
A inocência está na vontade de gerar, entendo, e quem quer criar para além de si tem a vontade mais pura, diz Zaratustra. Aquela onde certezas, gostos e sentimentos não importam porque simplesmente não existem. O movimento da criação é o próprio movimento da natureza, da vegetação criptogênica portanto, valsa sem dançarinos. Nascer é querer e, inebriado, esquecer-se, para depois olhar tudo com olhos de criança: como se fosse sempre a primeira vez. Nascer e criar então são verbos parecidos e, ao que tudo indica, resistentes ao nojo.
O difícil, acrescentam os pés inchados, é não deixar que tudo isso mofe ao entrar em contato com o ar.
“Desde que existem homens, o homem se alegrou muito pouco: apenas isso, meus irmãos, é nosso pecado original” (Nietzsche)
Nietzsche, Friedrich. Assim falou Zaratustra: um livro para todos e para ninguém. Tradução, notas e posfácio Paulo César de Souza. São Paulo, Companhia das Letras, 2011.
P.S - Desculpem a falta de notas de rodapé. Ainda não sei como fazer isso aqui no blog.
quarta-feira, 17 de setembro de 2014
quarta-feira, 10 de setembro de 2014
Cascos
Os cascos foram se descolando em blocos.
Primeiro foi o do pulmão.
A crosta grossa tinha cheiro de mofo, cigarro e bombinha de asma.
Depois peguei um craquelado de costela. Não estava quebrada, mas doía.
Quando chegou perto do coração a casca toda amoleceu, úmida quente brilhante pegajosa.
Não senti nojo não, achei até bonito. De lá dava para ver o pulmão agora descascado, parecia transparente meio azul.
Tinha uma luz nisso tudo, um traço, um folguedo de raio solar, algo assim que ilumina e dá calor.
Os cascos, pesados, iam assim se descolando. Quando um soltava do outro eu escutava o estalo.
Só depois de muito tempo é que me senti casco inteira, feita só deles, mais nada.
Aé pensei melhor se queria quebrar um a um.
Essa poesia escrevi em 2004, pouco antes de saber que a minha mãe estava com câncer no pulmão. Hoje ela está curada e a minha intuição poética também.
sexta-feira, 15 de agosto de 2014
quinta-feira, 31 de julho de 2014
A poesia, na verdade, é bruta. Está nos fatos e machuca. Está na farpa e na harpa, no vinho e no leite ninho, sozinho. Na lata mesmo tem poesia em pó. Dissolvida em água, escorrega para o estômago e fermenta em prosa. Na bancada toda da cozinha tem poesia. Ali mesmo, perto da carne crua e das facas. No sal e na pimenta. Em tudo, tudo mesmo. A poesia é mais onipresente do que Deus. Aliás, se Deus existe, é porque foi escrito por ela.
O problema, já lembrava Nietzsche, é que nos tornamos péssimos poetas.
O problema, já lembrava Nietzsche, é que nos tornamos péssimos poetas.
Assinar:
Comentários (Atom)

