Perguntas inúteis também são perguntas, mesmo em dia de estreia do super acelerador de partículas que promete reproduzir o Big Bang:
Como um surdo que mora sozinho faz quando precisa acordar com despertador?
Se foi tão interessante ir à lua, por que os homens nunca mais repetiram a experiência?
Se o homem veio do macaco, por que ainda existem macacos?
O que os criacionistas fazem com os fósseis de dinossauros, jogam pra debaixo do tapete?
Por que dizem que os homens preferem as louras?
Se vivemos sempre atrás do novo, o novo não passa a ser sempre o mesmo?
Por que a gente perde tempo com tanta bobagem?
Como saber o que é e o que não é bobagem nessa vida boba?
Na semana santa vou a Paraty. Quem sabe lá, assistindo as tradicionais procissões da cidade, eu encontre alguma das respostas.
Boa Páscoa, crianças. Não exagerem no chocolate.
terça-feira, 30 de março de 2010
segunda-feira, 22 de março de 2010
Alice e seus mistérios

Há livros que a gente lê quando criança e, apesar de virar a última página com dedinhos felizes e um suspiro de saudades antecipadas, não percebe ainda quão geniais eles são. Com Alice no País das Maravilhas foi assim. Li quando criança, com um pé na adolescência e outro ainda descalço e sujo de terra. Gostei tanto que batizei a minha boneca preferida de Alice e vivia dizendo que, quando tivesse uma filha, ela também teria esse nome.
Já mudei de idéia quanto ao nome da filha mas agora, relendo o livro na linda edição da Cosac Naify, percebi que ele é muito mais mirabolante e fantástico do que eu lembrava. Deve ser porque fantasia de criança não precisa de cogumelos nem de narguilé para voar, o que fazia daquele universo fantástico um mundo quase familiar.
Só que o livro é mais do que um sonho de criança. É também um desabafo. A cada vez que Alice se depara com uma criatura estranha que não sabe o que raios poderia ser uma menina e não responde de acordo com nenhuma convenção social aprendida na escola ou em casa, ela se sente perdida. E dá de cara com uma questão incômoda e nova para a sua idade. Afinal de contas, quem ela é e que mundo é esse?
Boa pergunta. Estamos sempre tendo que encolher ou crescer para tentar respondê-la. Às vezes a gente chora e inunda o ambiente, às vezes fica tão grande que não enxerga mais o pé. Mas tudo muda muito rápido, cenários e criaturas, e não dá tempo nem de tentar entender toda a maluquice.
Alice é sábia e aprendeu cedo:
_ Meu Deus, meu Deus, como está tudo esquisito hoje! E ainda ontem as coisas estavam tão normais... Será que mudei durante a noite? Deixe-me ver: será que eu era a mesma quando acordei hoje de manhã? Quase consigo me lembrar de ter me sentido um pouco diferente... Mas, se não sou a mesma, a questão seguinte é: Quem sou eu neste mundo? Ahá! Eis um grande mistério!
Ahá! Parem os relógios e tomem um chá. E deixem as deliciosas ilustrações de Luiz Zerbini fazerem o resto.
sexta-feira, 12 de março de 2010
Falar ou não falar, eis a questão
"O que é importante é ter a alma na ponta dos lábios e estar pronto para partir."
Sêneca
Vocês seis aí já sabem que tenho uma paixão irrefreável pela filosofia. Mesmo já sendo uma macaca quase velha (ainda tenho auto-estima, garotos), venho pensando até em fazer uma segunda graduação. Não há matéria-prima mais fértil para um escritor do que as cambalhotas de Descartes e os golpes precisos de Foucault, por exemplo, autor da frase limpa, sem borrões: “Toda literatura é uma dança para enganar a morte”.
Como Sherazade, o escritor está sempre adiando o the end, o gran finale, o ponto final. O blog mesmo, construído no cimento do presente, do agora.com, também parece querer adiar o definitivo, as frases resistentes à tecla delete. Espécie de protesto contra o texto póstumo. Nada de post scriptum, vivemos mais os prefácios, inchados de pensamentos instantâneos que rechaçam, velozmente, qualquer coisa que se pareça com uma verdade insistente – ou que seja maior do que o espaço de um post.
Foucault, pensador e epistemólogo francês contemporâneo, dedicou boa parte da sua vida a pensar a resistência. Uma ironia ele mesmo ter sido levado pela Aids, invencível batalha. Mas deu tempo de explicar: resistir é não ser indiferente. É ser um amontoado de carne, sim, mas não indiferente ao que se passa nela e ao redor dela. É experimentar e vivenciar o que a atravessa. Na sua filosofia, esse era o lugar em que aquele que fala faz com que o dito se remeta a ele próprio, dizendo e marcando de verdade o que ele é. Em que ele encontra algo, finalmente, que não é diferente dele mesmo.O que é bem outra coisa do que ficar respondendo, histericamente, às demandas de fulano e beltrano. Em outras palavras, não ser indiferente é ser franco e assumir os riscos de tal perigo.
Mas vivemos muito bem com as mentiras. A Parrecia, espécie de jogo da verdade que emerge na democracia antiga, passa pelo cristianismo e é suprimida pela modernidade, é muito perigosa. É onde não é mais possível se omitir, mesmo que isso signifique, depois, se anular. Ou ter a morte decretada pelo imperador, algo como “Gostei dos seus conselhos, meu caro, agora se mate. Dou-lhe uma semana”. O filósofo Sêneca, por exemplo, foi um dos poucos conselheiros que sobreviveram à Nero – fez isso pedindo para matar-se antes.
Mais de vinte séculos depois, ainda parecemos ter medo de imperadores.
Fato é que a franqueza liberta, mas depois manda a conta. No entanto é assim que surge a autoria, como um cuidado de si e formação de si mesmo, como uma maneira de se dar as próprias leis e constituir o que importa no próprio conhecimento. É falando sem medo que crescemos e aparecemos. Isso é sinceridade. Mas também pode ser, como disse uma das alunas do curso que estou fazendo, um “sincericídio”.
Escolham seus times.
Quem achou que hoje escrevi grego acertou. É grego mesmo, mas grego do bão. E pode ser encontrado nas aulas do prof. Henrique Antoum, no Polo de Pensamento Contemporâneo. Recomendo.
Sêneca
Vocês seis aí já sabem que tenho uma paixão irrefreável pela filosofia. Mesmo já sendo uma macaca quase velha (ainda tenho auto-estima, garotos), venho pensando até em fazer uma segunda graduação. Não há matéria-prima mais fértil para um escritor do que as cambalhotas de Descartes e os golpes precisos de Foucault, por exemplo, autor da frase limpa, sem borrões: “Toda literatura é uma dança para enganar a morte”.
Como Sherazade, o escritor está sempre adiando o the end, o gran finale, o ponto final. O blog mesmo, construído no cimento do presente, do agora.com, também parece querer adiar o definitivo, as frases resistentes à tecla delete. Espécie de protesto contra o texto póstumo. Nada de post scriptum, vivemos mais os prefácios, inchados de pensamentos instantâneos que rechaçam, velozmente, qualquer coisa que se pareça com uma verdade insistente – ou que seja maior do que o espaço de um post.
Foucault, pensador e epistemólogo francês contemporâneo, dedicou boa parte da sua vida a pensar a resistência. Uma ironia ele mesmo ter sido levado pela Aids, invencível batalha. Mas deu tempo de explicar: resistir é não ser indiferente. É ser um amontoado de carne, sim, mas não indiferente ao que se passa nela e ao redor dela. É experimentar e vivenciar o que a atravessa. Na sua filosofia, esse era o lugar em que aquele que fala faz com que o dito se remeta a ele próprio, dizendo e marcando de verdade o que ele é. Em que ele encontra algo, finalmente, que não é diferente dele mesmo.O que é bem outra coisa do que ficar respondendo, histericamente, às demandas de fulano e beltrano. Em outras palavras, não ser indiferente é ser franco e assumir os riscos de tal perigo.
Mas vivemos muito bem com as mentiras. A Parrecia, espécie de jogo da verdade que emerge na democracia antiga, passa pelo cristianismo e é suprimida pela modernidade, é muito perigosa. É onde não é mais possível se omitir, mesmo que isso signifique, depois, se anular. Ou ter a morte decretada pelo imperador, algo como “Gostei dos seus conselhos, meu caro, agora se mate. Dou-lhe uma semana”. O filósofo Sêneca, por exemplo, foi um dos poucos conselheiros que sobreviveram à Nero – fez isso pedindo para matar-se antes.
Mais de vinte séculos depois, ainda parecemos ter medo de imperadores.
Fato é que a franqueza liberta, mas depois manda a conta. No entanto é assim que surge a autoria, como um cuidado de si e formação de si mesmo, como uma maneira de se dar as próprias leis e constituir o que importa no próprio conhecimento. É falando sem medo que crescemos e aparecemos. Isso é sinceridade. Mas também pode ser, como disse uma das alunas do curso que estou fazendo, um “sincericídio”.
Escolham seus times.
Quem achou que hoje escrevi grego acertou. É grego mesmo, mas grego do bão. E pode ser encontrado nas aulas do prof. Henrique Antoum, no Polo de Pensamento Contemporâneo. Recomendo.
quinta-feira, 4 de março de 2010
De um dia para o outro
Escrever blog é meio perigoso. O texto sobe tão rápido para a rede que muitas vezes chega impulsivo, dado a arrependimentos. Lembro que na época da faculdade, em priscas eras, uma professora de técnicas de redação dizia ser muito importante deixar o texto dormir. De um dia para o outro, muita coisa muda. Você pode escrever algo que considera brilhante à noite e, na manhã seguinte, se envergonhar de um dia ter pensado possuir alguma intimidade com as palavras.Ela tinha razão, a professora. O problema é que hoje, em termos de produção criativa, ninguém mais tem tempo de dormir. Deixar o texto de molho de um dia para o outro é luxo para poucos.
E por que estou falando tudo isso? Porque, graças a Deus, ainda exercito esse luxo. O texto aí embaixo, por exemplo, foi escrito há séculos. Topei com ele por acaso nos meus arquivos e achei que, finalmente, ele merecia algum crédito. Saído de um longo coma, ele representa uma época que, ufa, já passou. Viva a liberdade. Viva os blogs.
"Ousar é perder o equilíbrio momentaneamente. Não ousar é perder-se."
Sêneca
Libertem-se, meninos.
Bananeira não
É duro escrever por encomenda, a verdade é essa. Principalmente se a encomenda for institucional, e não me perguntem o que é isso. Seguir um roteiro, um projeto ou qualquer outra fôrma pré-estabelecida pelo seu big boss é como tentar plantar bananeira algemado. Você tenta usar seu corpitcho, seu gingado, seus reflexos e até mesmo aquilo que chamam de criatividade, mas os braços não estão livres. Então você se estabaca. Cai de cara no chão. Seu texto volta cheio de senões e ressalvas, porque a proposta não está sendo cumprida. Não é que eles, os big bosses, não queiram que você encontre outras perspectivas de criação. Sim, eles querem algo ousado, sim, eles querem algo diferente, sim, eles querem um texto com “diferencial”. Mas onde já se viu plantar bananeira pra isso? Nananina-não. É preciso seguir o roteiro. É o que você já tinha entendido mas não queria compreender: eles querem algo criativo na língua deles. E o dicionário deles é bem diferente do seu.
Então você brocha. Repensa a vida. Cogita mandar o big boss pra puta que pariu (desculpem, crianças). Chega a pensar em largar tudo e, como diria Tom Wolfe, gigante do New Journalism, jogar tudo para o alto, alugar uma cabana e se entregar a ele, ao Grande Romance. E, com alguma sorte, retornar triunfante, transformado, vingado até.
Bem, tem o leite das crianças, você se lembra. Ou a ração do papagaio. Tem o dentista, o carro que vive mais na oficina do que na sua garagem, o supermercado. Whatever. Siga o seu big boss. Diga amém e guarde as bananeiras para mais tarde.
E por que estou falando tudo isso? Porque, graças a Deus, ainda exercito esse luxo. O texto aí embaixo, por exemplo, foi escrito há séculos. Topei com ele por acaso nos meus arquivos e achei que, finalmente, ele merecia algum crédito. Saído de um longo coma, ele representa uma época que, ufa, já passou. Viva a liberdade. Viva os blogs.
"Ousar é perder o equilíbrio momentaneamente. Não ousar é perder-se."
Sêneca
Libertem-se, meninos.
Bananeira não
É duro escrever por encomenda, a verdade é essa. Principalmente se a encomenda for institucional, e não me perguntem o que é isso. Seguir um roteiro, um projeto ou qualquer outra fôrma pré-estabelecida pelo seu big boss é como tentar plantar bananeira algemado. Você tenta usar seu corpitcho, seu gingado, seus reflexos e até mesmo aquilo que chamam de criatividade, mas os braços não estão livres. Então você se estabaca. Cai de cara no chão. Seu texto volta cheio de senões e ressalvas, porque a proposta não está sendo cumprida. Não é que eles, os big bosses, não queiram que você encontre outras perspectivas de criação. Sim, eles querem algo ousado, sim, eles querem algo diferente, sim, eles querem um texto com “diferencial”. Mas onde já se viu plantar bananeira pra isso? Nananina-não. É preciso seguir o roteiro. É o que você já tinha entendido mas não queria compreender: eles querem algo criativo na língua deles. E o dicionário deles é bem diferente do seu.
Então você brocha. Repensa a vida. Cogita mandar o big boss pra puta que pariu (desculpem, crianças). Chega a pensar em largar tudo e, como diria Tom Wolfe, gigante do New Journalism, jogar tudo para o alto, alugar uma cabana e se entregar a ele, ao Grande Romance. E, com alguma sorte, retornar triunfante, transformado, vingado até.
Bem, tem o leite das crianças, você se lembra. Ou a ração do papagaio. Tem o dentista, o carro que vive mais na oficina do que na sua garagem, o supermercado. Whatever. Siga o seu big boss. Diga amém e guarde as bananeiras para mais tarde.
quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010
Com tarja ou sem tarja?
Foi um dos dias mais felizes da minha vida. Não era a minha primeira reunião com um editor de peso, já havia tido várias outras, mas aquela era especial. Pela primeira vez eu emplacava uma biografia, uma história real que também levou muito da minha própria realidade porque meu estilo estava todo lá, sem rodeios nem disfarces. Entre a Ana e o editor Paulo Pires, numa mesinha de canto do café da Argumento, eu tentava eternizar o momento mentalmente. Mas não precisava ter me dado ao trabalho de tal esforço.
O livro foi assunto por cinco minutos. Em seguida, quem dominou a noite foi o Rivotril, calmante que, então eu já sabia, todo mundo tomava - menos eu. Naquela época eu ainda era natureba radical e acreditava profundamente nas propriedades terapêuticas do passiflorine. Tomava um todos os dias antes de dormir e gostava de recomendá-lo a qualquer ser vivo aparentemente ansioso que passasse pela minha frente. Indicava com fé mesmo, como quem indica um curandeiro milagroso, um pajé, um xamã do norte do Amazonas. Mas naquele dia, no banco de reserva dos ansiolíticos, me senti por demais deslocada.
Precisava fazer alguma coisa a respeito. Tinha a incômoda impressão de que, se não aderisse às tarjas pretas, ou perderia o bonde ou perderia a tchurma ou, o que era mais provável, me perderia em episódios de stress que insistiam em me assolar.
O tempo passou, esqueci o assunto, a vida andou, desandou e acabei parando num psiquiatra. Terminada a consulta, um papo rápido de vinte minutos em que só suei nas mãos, ruborizei e tive vontade de chorar porque costumo suar, ruborizar e ter vontade de chorar quando sou levada a falar dos meus problemas com estranhos (sou sensível, crianças!), a caneta foi sacada e pronto, estava lá, antes da rubrica e do carimbo, em letra obviamente ilegível: Ri-vo-tril. Ahá! Colegas, cheguei!
Depois a Ana me explicou que as gotas, as gotas sim é que eram o quente. Mas é claro que o médico me receitou comprimidos que fizeram o favor de me dar uma tontura completamente incompatível com as aulas de ioga e outros afazeres do dia-a-dia de uma pessoa razoavelmente normal, seja lá o que isso for.
Pedi perdão aos espíritos mentores do maracujá e voltei ao passiflorine. Até que, ao descobrir ser uma insone clássica, me deparei de novo com uma tarja coloridinha. Daquelas que pedem autógrafo no balcão do farmacêutico, o que, aliás, sempre achei muito charmoso. Receita controlada, gente, coisa de cachorro grande.
Seria tudo muito adulto mesmo se o nome do meu remédio não fosse uma piada típica de garotos cheios de espinha da sexta série. Acreditem se quiserem, mas o meu remedinho para curar a insônia, num tratamento de seis meses, é...Serenata! Não, não estou brincando. E também não estou brincando quando conto que o clínico, ao ser perguntado sobre os efeitos colaterais da serenata, deu um risinho de canto de boca e confessou: “No começo pode dar...insônia”.
Agora me digam, amiguinhos, estou ou não estou sofrendo bullying no fechado círculo das pantufas psicotrópicas?
É duro, crianças, é duro. Hora de escovar os dentes e tomar um passiflorine.
O livro foi assunto por cinco minutos. Em seguida, quem dominou a noite foi o Rivotril, calmante que, então eu já sabia, todo mundo tomava - menos eu. Naquela época eu ainda era natureba radical e acreditava profundamente nas propriedades terapêuticas do passiflorine. Tomava um todos os dias antes de dormir e gostava de recomendá-lo a qualquer ser vivo aparentemente ansioso que passasse pela minha frente. Indicava com fé mesmo, como quem indica um curandeiro milagroso, um pajé, um xamã do norte do Amazonas. Mas naquele dia, no banco de reserva dos ansiolíticos, me senti por demais deslocada.
Precisava fazer alguma coisa a respeito. Tinha a incômoda impressão de que, se não aderisse às tarjas pretas, ou perderia o bonde ou perderia a tchurma ou, o que era mais provável, me perderia em episódios de stress que insistiam em me assolar.
O tempo passou, esqueci o assunto, a vida andou, desandou e acabei parando num psiquiatra. Terminada a consulta, um papo rápido de vinte minutos em que só suei nas mãos, ruborizei e tive vontade de chorar porque costumo suar, ruborizar e ter vontade de chorar quando sou levada a falar dos meus problemas com estranhos (sou sensível, crianças!), a caneta foi sacada e pronto, estava lá, antes da rubrica e do carimbo, em letra obviamente ilegível: Ri-vo-tril. Ahá! Colegas, cheguei!
Depois a Ana me explicou que as gotas, as gotas sim é que eram o quente. Mas é claro que o médico me receitou comprimidos que fizeram o favor de me dar uma tontura completamente incompatível com as aulas de ioga e outros afazeres do dia-a-dia de uma pessoa razoavelmente normal, seja lá o que isso for.
Pedi perdão aos espíritos mentores do maracujá e voltei ao passiflorine. Até que, ao descobrir ser uma insone clássica, me deparei de novo com uma tarja coloridinha. Daquelas que pedem autógrafo no balcão do farmacêutico, o que, aliás, sempre achei muito charmoso. Receita controlada, gente, coisa de cachorro grande.
Seria tudo muito adulto mesmo se o nome do meu remédio não fosse uma piada típica de garotos cheios de espinha da sexta série. Acreditem se quiserem, mas o meu remedinho para curar a insônia, num tratamento de seis meses, é...Serenata! Não, não estou brincando. E também não estou brincando quando conto que o clínico, ao ser perguntado sobre os efeitos colaterais da serenata, deu um risinho de canto de boca e confessou: “No começo pode dar...insônia”.
Agora me digam, amiguinhos, estou ou não estou sofrendo bullying no fechado círculo das pantufas psicotrópicas?
É duro, crianças, é duro. Hora de escovar os dentes e tomar um passiflorine.
sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010
No escuro
O Carnaval começou mal. Com o sinistro assassinato de Fred Pinheiro, nosso cenário cultural entrou alguns passos na penumbra. Diretor, iluminador, operador de luz e co-fundador do grupo de teatro Nós do Morro, Fred foi responsável pela iluminação de simplesmente todos os espetáculos encenados pela companhia, que já completou 20 anos. Também foi mentor do projeto de formação de técnicos da área.
Tive o prazer de conhecê-lo e entrevistá-lo para a realização do livro Nós do Morro 20 anos, lançado no ano passado. No casarão do Nós, no Vidigal, Fred explicou sua opção pela iluminação alternativa. O que antes era uma necessidade causada pela falta de recursos da companhia que insistia em acreditar na arte em plena favela, naquele momento, em que o grupo comemorava sua mais do que reconhecida ascensão, o alternativo era pura escolha. Trabalharam com farol de carro, lanterna, vela, candelabros. Era uma aposta na qualidade da iluminação nem muito aberta nem muito clara, numa linguagem de qualidade independente de equipamentos caros e luminescências exóticas. Tal posicionamento sempre escorregou com graça para o cenário, o figurino, o elenco, a direção, para a composição do espetáculo como um todo.
Era um resultado da persistente crença na arte. “Você pode ter toda a estrutura que o Nós do Morro tem em outro lugar, com outras pessoas, mas se essas pessoas não acreditarem que aquilo vai dar certo, não dará. É preciso acreditar no sonho”, ele me disse.
Continuo acreditando no sonho. Mas tenho pesadelos de vez em quando.
Tive o prazer de conhecê-lo e entrevistá-lo para a realização do livro Nós do Morro 20 anos, lançado no ano passado. No casarão do Nós, no Vidigal, Fred explicou sua opção pela iluminação alternativa. O que antes era uma necessidade causada pela falta de recursos da companhia que insistia em acreditar na arte em plena favela, naquele momento, em que o grupo comemorava sua mais do que reconhecida ascensão, o alternativo era pura escolha. Trabalharam com farol de carro, lanterna, vela, candelabros. Era uma aposta na qualidade da iluminação nem muito aberta nem muito clara, numa linguagem de qualidade independente de equipamentos caros e luminescências exóticas. Tal posicionamento sempre escorregou com graça para o cenário, o figurino, o elenco, a direção, para a composição do espetáculo como um todo.
Era um resultado da persistente crença na arte. “Você pode ter toda a estrutura que o Nós do Morro tem em outro lugar, com outras pessoas, mas se essas pessoas não acreditarem que aquilo vai dar certo, não dará. É preciso acreditar no sonho”, ele me disse.
Continuo acreditando no sonho. Mas tenho pesadelos de vez em quando.
quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010
Admirável Livro Novo
E então escrevi um ponto antes mesmo de digitar a primeira palavra. Vontade impulsiva de concretizar projetos, fechar acordos, ir em frente com novas placas de sinalização na estrada de 2010.
O livro do gentleman está perto de ficar pronto, os depoimentos do militar já estão transcritos pela metade e ensaiam o momento de empostarem nova voz, outro projeto incrível à vista parece quase quase alinhavado. Enquanto isso, nesse ar rarefeito, a vida segue. Espantada às vezes por ver tanta coisa na agenda, impaciente outras tantas com tudo que ainda não se materializou, que não tingiu o preto no branco. Escrever é rascunhar eternamente.
Mas não pensem que o diagnóstico de insônia crônica me deixou meio deprê. Nada disso. Esperem eu entrar no mundo das pantufas psicotrópicas, queridos: escreverei borboletas e sambas.
Por enquanto, ando ainda com a boca meio aberta de assombro com o que soube ontem numa reunião com o braço direito do gentleman de Ipanema (sorry, meninos, a censura ainda não me permite dar nomes aos bois). Estão eles em plena negociação para trazer ao Brasil uma máquina de impressão de livros on demand. Mas não aos moldes do que a Ediouro já faz com a sua Singular, capaz de imprimir livros por encomenda de novos autores (gerindo a distribuição inclusive), reimprimir clássicos atemporais ou oferecer arquivos digitais na sua biblioteca.
A tal máquina de tecnologia alemã pode fazer tudo isso, mas com uma imbatível diferença: ela pode ficar a cada dia numa esquina. É máquina de acesso público, podendo ser transportada daqui para ali, de lá para cá. Pode estar hoje na praia do Pepê, por exemplo, e amanhã na Rua das Pedras, em Búzios.
A filosofia (ou poesia funcional, para usar um termo em voga) é a mesma da máquina de refrigerantes ou daquelas máquinas de jornais européias, com um brutal detalhe a seu favor: os livros são feitos na hora e saem estalando de frescos como pão francês de padaria. A pessoa escolhe o título que quer, paga o equivalente a um livro comprado numa livraria tradicional, espera alguns minutos e fim de sessão: sai um livro fresquinho pronto para ser carregado debaixo do braço a caminho de casa – ou da praia, da feira, do café da esquina. Com isso evita-se o desperdício de papel, o estoque que deprime qualquer autor decente (já assinei, horror dos horrores, contrato que autorizava a queima de estoque depois de determinado período em caso de encalhe da obra) e, last but not least, a falta de brecha para os independentes.
Não é bárbaro? Fiquei louca. Seu eu tivesse arregalado mais os olhos enquanto ouvia a novidade acho que teriam chamado um médico para checar minha tireóide. Eu mesma seria uma cliente em potencial da trapizonga culta e móvel. Livros como o do oficial da Aman, por exemplo, podem muito bem ser vendidos assim. Os quadrinhos do meu marido também. Os meus arroubos literários ainda não revelados idem.
Novos tempos. O futuro finalmente me interessa.
O livro do gentleman está perto de ficar pronto, os depoimentos do militar já estão transcritos pela metade e ensaiam o momento de empostarem nova voz, outro projeto incrível à vista parece quase quase alinhavado. Enquanto isso, nesse ar rarefeito, a vida segue. Espantada às vezes por ver tanta coisa na agenda, impaciente outras tantas com tudo que ainda não se materializou, que não tingiu o preto no branco. Escrever é rascunhar eternamente.
Mas não pensem que o diagnóstico de insônia crônica me deixou meio deprê. Nada disso. Esperem eu entrar no mundo das pantufas psicotrópicas, queridos: escreverei borboletas e sambas.
Por enquanto, ando ainda com a boca meio aberta de assombro com o que soube ontem numa reunião com o braço direito do gentleman de Ipanema (sorry, meninos, a censura ainda não me permite dar nomes aos bois). Estão eles em plena negociação para trazer ao Brasil uma máquina de impressão de livros on demand. Mas não aos moldes do que a Ediouro já faz com a sua Singular, capaz de imprimir livros por encomenda de novos autores (gerindo a distribuição inclusive), reimprimir clássicos atemporais ou oferecer arquivos digitais na sua biblioteca.
A tal máquina de tecnologia alemã pode fazer tudo isso, mas com uma imbatível diferença: ela pode ficar a cada dia numa esquina. É máquina de acesso público, podendo ser transportada daqui para ali, de lá para cá. Pode estar hoje na praia do Pepê, por exemplo, e amanhã na Rua das Pedras, em Búzios.
A filosofia (ou poesia funcional, para usar um termo em voga) é a mesma da máquina de refrigerantes ou daquelas máquinas de jornais européias, com um brutal detalhe a seu favor: os livros são feitos na hora e saem estalando de frescos como pão francês de padaria. A pessoa escolhe o título que quer, paga o equivalente a um livro comprado numa livraria tradicional, espera alguns minutos e fim de sessão: sai um livro fresquinho pronto para ser carregado debaixo do braço a caminho de casa – ou da praia, da feira, do café da esquina. Com isso evita-se o desperdício de papel, o estoque que deprime qualquer autor decente (já assinei, horror dos horrores, contrato que autorizava a queima de estoque depois de determinado período em caso de encalhe da obra) e, last but not least, a falta de brecha para os independentes.
Não é bárbaro? Fiquei louca. Seu eu tivesse arregalado mais os olhos enquanto ouvia a novidade acho que teriam chamado um médico para checar minha tireóide. Eu mesma seria uma cliente em potencial da trapizonga culta e móvel. Livros como o do oficial da Aman, por exemplo, podem muito bem ser vendidos assim. Os quadrinhos do meu marido também. Os meus arroubos literários ainda não revelados idem.
Novos tempos. O futuro finalmente me interessa.
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