Escrever blog é meio perigoso. O texto sobe tão rápido para a rede que muitas vezes chega impulsivo, dado a arrependimentos. Lembro que na época da faculdade, em priscas eras, uma professora de técnicas de redação dizia ser muito importante deixar o texto dormir. De um dia para o outro, muita coisa muda. Você pode escrever algo que considera brilhante à noite e, na manhã seguinte, se envergonhar de um dia ter pensado possuir alguma intimidade com as palavras.Ela tinha razão, a professora. O problema é que hoje, em termos de produção criativa, ninguém mais tem tempo de dormir. Deixar o texto de molho de um dia para o outro é luxo para poucos.
E por que estou falando tudo isso? Porque, graças a Deus, ainda exercito esse luxo. O texto aí embaixo, por exemplo, foi escrito há séculos. Topei com ele por acaso nos meus arquivos e achei que, finalmente, ele merecia algum crédito. Saído de um longo coma, ele representa uma época que, ufa, já passou. Viva a liberdade. Viva os blogs.
"Ousar é perder o equilíbrio momentaneamente. Não ousar é perder-se."
Sêneca
Libertem-se, meninos.
Bananeira não
É duro escrever por encomenda, a verdade é essa. Principalmente se a encomenda for institucional, e não me perguntem o que é isso. Seguir um roteiro, um projeto ou qualquer outra fôrma pré-estabelecida pelo seu big boss é como tentar plantar bananeira algemado. Você tenta usar seu corpitcho, seu gingado, seus reflexos e até mesmo aquilo que chamam de criatividade, mas os braços não estão livres. Então você se estabaca. Cai de cara no chão. Seu texto volta cheio de senões e ressalvas, porque a proposta não está sendo cumprida. Não é que eles, os big bosses, não queiram que você encontre outras perspectivas de criação. Sim, eles querem algo ousado, sim, eles querem algo diferente, sim, eles querem um texto com “diferencial”. Mas onde já se viu plantar bananeira pra isso? Nananina-não. É preciso seguir o roteiro. É o que você já tinha entendido mas não queria compreender: eles querem algo criativo na língua deles. E o dicionário deles é bem diferente do seu.
Então você brocha. Repensa a vida. Cogita mandar o big boss pra puta que pariu (desculpem, crianças). Chega a pensar em largar tudo e, como diria Tom Wolfe, gigante do New Journalism, jogar tudo para o alto, alugar uma cabana e se entregar a ele, ao Grande Romance. E, com alguma sorte, retornar triunfante, transformado, vingado até.
Bem, tem o leite das crianças, você se lembra. Ou a ração do papagaio. Tem o dentista, o carro que vive mais na oficina do que na sua garagem, o supermercado. Whatever. Siga o seu big boss. Diga amém e guarde as bananeiras para mais tarde.
quinta-feira, 4 de março de 2010
quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010
Com tarja ou sem tarja?
Foi um dos dias mais felizes da minha vida. Não era a minha primeira reunião com um editor de peso, já havia tido várias outras, mas aquela era especial. Pela primeira vez eu emplacava uma biografia, uma história real que também levou muito da minha própria realidade porque meu estilo estava todo lá, sem rodeios nem disfarces. Entre a Ana e o editor Paulo Pires, numa mesinha de canto do café da Argumento, eu tentava eternizar o momento mentalmente. Mas não precisava ter me dado ao trabalho de tal esforço.
O livro foi assunto por cinco minutos. Em seguida, quem dominou a noite foi o Rivotril, calmante que, então eu já sabia, todo mundo tomava - menos eu. Naquela época eu ainda era natureba radical e acreditava profundamente nas propriedades terapêuticas do passiflorine. Tomava um todos os dias antes de dormir e gostava de recomendá-lo a qualquer ser vivo aparentemente ansioso que passasse pela minha frente. Indicava com fé mesmo, como quem indica um curandeiro milagroso, um pajé, um xamã do norte do Amazonas. Mas naquele dia, no banco de reserva dos ansiolíticos, me senti por demais deslocada.
Precisava fazer alguma coisa a respeito. Tinha a incômoda impressão de que, se não aderisse às tarjas pretas, ou perderia o bonde ou perderia a tchurma ou, o que era mais provável, me perderia em episódios de stress que insistiam em me assolar.
O tempo passou, esqueci o assunto, a vida andou, desandou e acabei parando num psiquiatra. Terminada a consulta, um papo rápido de vinte minutos em que só suei nas mãos, ruborizei e tive vontade de chorar porque costumo suar, ruborizar e ter vontade de chorar quando sou levada a falar dos meus problemas com estranhos (sou sensível, crianças!), a caneta foi sacada e pronto, estava lá, antes da rubrica e do carimbo, em letra obviamente ilegível: Ri-vo-tril. Ahá! Colegas, cheguei!
Depois a Ana me explicou que as gotas, as gotas sim é que eram o quente. Mas é claro que o médico me receitou comprimidos que fizeram o favor de me dar uma tontura completamente incompatível com as aulas de ioga e outros afazeres do dia-a-dia de uma pessoa razoavelmente normal, seja lá o que isso for.
Pedi perdão aos espíritos mentores do maracujá e voltei ao passiflorine. Até que, ao descobrir ser uma insone clássica, me deparei de novo com uma tarja coloridinha. Daquelas que pedem autógrafo no balcão do farmacêutico, o que, aliás, sempre achei muito charmoso. Receita controlada, gente, coisa de cachorro grande.
Seria tudo muito adulto mesmo se o nome do meu remédio não fosse uma piada típica de garotos cheios de espinha da sexta série. Acreditem se quiserem, mas o meu remedinho para curar a insônia, num tratamento de seis meses, é...Serenata! Não, não estou brincando. E também não estou brincando quando conto que o clínico, ao ser perguntado sobre os efeitos colaterais da serenata, deu um risinho de canto de boca e confessou: “No começo pode dar...insônia”.
Agora me digam, amiguinhos, estou ou não estou sofrendo bullying no fechado círculo das pantufas psicotrópicas?
É duro, crianças, é duro. Hora de escovar os dentes e tomar um passiflorine.
O livro foi assunto por cinco minutos. Em seguida, quem dominou a noite foi o Rivotril, calmante que, então eu já sabia, todo mundo tomava - menos eu. Naquela época eu ainda era natureba radical e acreditava profundamente nas propriedades terapêuticas do passiflorine. Tomava um todos os dias antes de dormir e gostava de recomendá-lo a qualquer ser vivo aparentemente ansioso que passasse pela minha frente. Indicava com fé mesmo, como quem indica um curandeiro milagroso, um pajé, um xamã do norte do Amazonas. Mas naquele dia, no banco de reserva dos ansiolíticos, me senti por demais deslocada.
Precisava fazer alguma coisa a respeito. Tinha a incômoda impressão de que, se não aderisse às tarjas pretas, ou perderia o bonde ou perderia a tchurma ou, o que era mais provável, me perderia em episódios de stress que insistiam em me assolar.
O tempo passou, esqueci o assunto, a vida andou, desandou e acabei parando num psiquiatra. Terminada a consulta, um papo rápido de vinte minutos em que só suei nas mãos, ruborizei e tive vontade de chorar porque costumo suar, ruborizar e ter vontade de chorar quando sou levada a falar dos meus problemas com estranhos (sou sensível, crianças!), a caneta foi sacada e pronto, estava lá, antes da rubrica e do carimbo, em letra obviamente ilegível: Ri-vo-tril. Ahá! Colegas, cheguei!
Depois a Ana me explicou que as gotas, as gotas sim é que eram o quente. Mas é claro que o médico me receitou comprimidos que fizeram o favor de me dar uma tontura completamente incompatível com as aulas de ioga e outros afazeres do dia-a-dia de uma pessoa razoavelmente normal, seja lá o que isso for.
Pedi perdão aos espíritos mentores do maracujá e voltei ao passiflorine. Até que, ao descobrir ser uma insone clássica, me deparei de novo com uma tarja coloridinha. Daquelas que pedem autógrafo no balcão do farmacêutico, o que, aliás, sempre achei muito charmoso. Receita controlada, gente, coisa de cachorro grande.
Seria tudo muito adulto mesmo se o nome do meu remédio não fosse uma piada típica de garotos cheios de espinha da sexta série. Acreditem se quiserem, mas o meu remedinho para curar a insônia, num tratamento de seis meses, é...Serenata! Não, não estou brincando. E também não estou brincando quando conto que o clínico, ao ser perguntado sobre os efeitos colaterais da serenata, deu um risinho de canto de boca e confessou: “No começo pode dar...insônia”.
Agora me digam, amiguinhos, estou ou não estou sofrendo bullying no fechado círculo das pantufas psicotrópicas?
É duro, crianças, é duro. Hora de escovar os dentes e tomar um passiflorine.
sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010
No escuro
O Carnaval começou mal. Com o sinistro assassinato de Fred Pinheiro, nosso cenário cultural entrou alguns passos na penumbra. Diretor, iluminador, operador de luz e co-fundador do grupo de teatro Nós do Morro, Fred foi responsável pela iluminação de simplesmente todos os espetáculos encenados pela companhia, que já completou 20 anos. Também foi mentor do projeto de formação de técnicos da área.
Tive o prazer de conhecê-lo e entrevistá-lo para a realização do livro Nós do Morro 20 anos, lançado no ano passado. No casarão do Nós, no Vidigal, Fred explicou sua opção pela iluminação alternativa. O que antes era uma necessidade causada pela falta de recursos da companhia que insistia em acreditar na arte em plena favela, naquele momento, em que o grupo comemorava sua mais do que reconhecida ascensão, o alternativo era pura escolha. Trabalharam com farol de carro, lanterna, vela, candelabros. Era uma aposta na qualidade da iluminação nem muito aberta nem muito clara, numa linguagem de qualidade independente de equipamentos caros e luminescências exóticas. Tal posicionamento sempre escorregou com graça para o cenário, o figurino, o elenco, a direção, para a composição do espetáculo como um todo.
Era um resultado da persistente crença na arte. “Você pode ter toda a estrutura que o Nós do Morro tem em outro lugar, com outras pessoas, mas se essas pessoas não acreditarem que aquilo vai dar certo, não dará. É preciso acreditar no sonho”, ele me disse.
Continuo acreditando no sonho. Mas tenho pesadelos de vez em quando.
Tive o prazer de conhecê-lo e entrevistá-lo para a realização do livro Nós do Morro 20 anos, lançado no ano passado. No casarão do Nós, no Vidigal, Fred explicou sua opção pela iluminação alternativa. O que antes era uma necessidade causada pela falta de recursos da companhia que insistia em acreditar na arte em plena favela, naquele momento, em que o grupo comemorava sua mais do que reconhecida ascensão, o alternativo era pura escolha. Trabalharam com farol de carro, lanterna, vela, candelabros. Era uma aposta na qualidade da iluminação nem muito aberta nem muito clara, numa linguagem de qualidade independente de equipamentos caros e luminescências exóticas. Tal posicionamento sempre escorregou com graça para o cenário, o figurino, o elenco, a direção, para a composição do espetáculo como um todo.
Era um resultado da persistente crença na arte. “Você pode ter toda a estrutura que o Nós do Morro tem em outro lugar, com outras pessoas, mas se essas pessoas não acreditarem que aquilo vai dar certo, não dará. É preciso acreditar no sonho”, ele me disse.
Continuo acreditando no sonho. Mas tenho pesadelos de vez em quando.
quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010
Admirável Livro Novo
E então escrevi um ponto antes mesmo de digitar a primeira palavra. Vontade impulsiva de concretizar projetos, fechar acordos, ir em frente com novas placas de sinalização na estrada de 2010.
O livro do gentleman está perto de ficar pronto, os depoimentos do militar já estão transcritos pela metade e ensaiam o momento de empostarem nova voz, outro projeto incrível à vista parece quase quase alinhavado. Enquanto isso, nesse ar rarefeito, a vida segue. Espantada às vezes por ver tanta coisa na agenda, impaciente outras tantas com tudo que ainda não se materializou, que não tingiu o preto no branco. Escrever é rascunhar eternamente.
Mas não pensem que o diagnóstico de insônia crônica me deixou meio deprê. Nada disso. Esperem eu entrar no mundo das pantufas psicotrópicas, queridos: escreverei borboletas e sambas.
Por enquanto, ando ainda com a boca meio aberta de assombro com o que soube ontem numa reunião com o braço direito do gentleman de Ipanema (sorry, meninos, a censura ainda não me permite dar nomes aos bois). Estão eles em plena negociação para trazer ao Brasil uma máquina de impressão de livros on demand. Mas não aos moldes do que a Ediouro já faz com a sua Singular, capaz de imprimir livros por encomenda de novos autores (gerindo a distribuição inclusive), reimprimir clássicos atemporais ou oferecer arquivos digitais na sua biblioteca.
A tal máquina de tecnologia alemã pode fazer tudo isso, mas com uma imbatível diferença: ela pode ficar a cada dia numa esquina. É máquina de acesso público, podendo ser transportada daqui para ali, de lá para cá. Pode estar hoje na praia do Pepê, por exemplo, e amanhã na Rua das Pedras, em Búzios.
A filosofia (ou poesia funcional, para usar um termo em voga) é a mesma da máquina de refrigerantes ou daquelas máquinas de jornais européias, com um brutal detalhe a seu favor: os livros são feitos na hora e saem estalando de frescos como pão francês de padaria. A pessoa escolhe o título que quer, paga o equivalente a um livro comprado numa livraria tradicional, espera alguns minutos e fim de sessão: sai um livro fresquinho pronto para ser carregado debaixo do braço a caminho de casa – ou da praia, da feira, do café da esquina. Com isso evita-se o desperdício de papel, o estoque que deprime qualquer autor decente (já assinei, horror dos horrores, contrato que autorizava a queima de estoque depois de determinado período em caso de encalhe da obra) e, last but not least, a falta de brecha para os independentes.
Não é bárbaro? Fiquei louca. Seu eu tivesse arregalado mais os olhos enquanto ouvia a novidade acho que teriam chamado um médico para checar minha tireóide. Eu mesma seria uma cliente em potencial da trapizonga culta e móvel. Livros como o do oficial da Aman, por exemplo, podem muito bem ser vendidos assim. Os quadrinhos do meu marido também. Os meus arroubos literários ainda não revelados idem.
Novos tempos. O futuro finalmente me interessa.
O livro do gentleman está perto de ficar pronto, os depoimentos do militar já estão transcritos pela metade e ensaiam o momento de empostarem nova voz, outro projeto incrível à vista parece quase quase alinhavado. Enquanto isso, nesse ar rarefeito, a vida segue. Espantada às vezes por ver tanta coisa na agenda, impaciente outras tantas com tudo que ainda não se materializou, que não tingiu o preto no branco. Escrever é rascunhar eternamente.
Mas não pensem que o diagnóstico de insônia crônica me deixou meio deprê. Nada disso. Esperem eu entrar no mundo das pantufas psicotrópicas, queridos: escreverei borboletas e sambas.
Por enquanto, ando ainda com a boca meio aberta de assombro com o que soube ontem numa reunião com o braço direito do gentleman de Ipanema (sorry, meninos, a censura ainda não me permite dar nomes aos bois). Estão eles em plena negociação para trazer ao Brasil uma máquina de impressão de livros on demand. Mas não aos moldes do que a Ediouro já faz com a sua Singular, capaz de imprimir livros por encomenda de novos autores (gerindo a distribuição inclusive), reimprimir clássicos atemporais ou oferecer arquivos digitais na sua biblioteca.
A tal máquina de tecnologia alemã pode fazer tudo isso, mas com uma imbatível diferença: ela pode ficar a cada dia numa esquina. É máquina de acesso público, podendo ser transportada daqui para ali, de lá para cá. Pode estar hoje na praia do Pepê, por exemplo, e amanhã na Rua das Pedras, em Búzios.
A filosofia (ou poesia funcional, para usar um termo em voga) é a mesma da máquina de refrigerantes ou daquelas máquinas de jornais européias, com um brutal detalhe a seu favor: os livros são feitos na hora e saem estalando de frescos como pão francês de padaria. A pessoa escolhe o título que quer, paga o equivalente a um livro comprado numa livraria tradicional, espera alguns minutos e fim de sessão: sai um livro fresquinho pronto para ser carregado debaixo do braço a caminho de casa – ou da praia, da feira, do café da esquina. Com isso evita-se o desperdício de papel, o estoque que deprime qualquer autor decente (já assinei, horror dos horrores, contrato que autorizava a queima de estoque depois de determinado período em caso de encalhe da obra) e, last but not least, a falta de brecha para os independentes.
Não é bárbaro? Fiquei louca. Seu eu tivesse arregalado mais os olhos enquanto ouvia a novidade acho que teriam chamado um médico para checar minha tireóide. Eu mesma seria uma cliente em potencial da trapizonga culta e móvel. Livros como o do oficial da Aman, por exemplo, podem muito bem ser vendidos assim. Os quadrinhos do meu marido também. Os meus arroubos literários ainda não revelados idem.
Novos tempos. O futuro finalmente me interessa.
terça-feira, 26 de janeiro de 2010
Dica da semana

Mais um dos meus copidesques nas prateleiras:
Quebra de Script, de Thomaz Magalhães, é de fato, como diz o subtítulo, uma incrível história de reinvenção pessoal. Ao se tornar paraplégico depois de uma queda de cavalo, o empresário viu sua vida ficar de cabeça pra baixo. Pensou em suicídio até, herdeiro que era de uma família colecionadora de tragédias do tipo - seu pai, sua irmã e seu tio, a essa altura, já haviam, vamos dizer, pedido as contas. Mas a fé até então insuspeitada o segurou, literalmente, pelas mãos. Thomaz passaria por inúmeras provações, mas também por grandes milagres. O empresário cético e consumista daria lugar a uma pessoa espiritualizada, generosa e, surpreendentemente, mais feliz.
O livro saiu pelo selo Agir Negócios, já que nessa trajetória Thomaz evoluiu também profissionalmente, aprendendo com os obstáculos, criando métodos próprios (descritos no livro) e abrindo nichos. Descobriu, principalmente, que trabalhar fazendo o bem aos outros é um grande prazer.
Leitura, é claro, também recomendada para as noites insones.
P.S.(tem sempre um p.s., já perceberam? São irresistíveis): Quem comprar o livro vai reparar que praticamente reproduzi, aqui nesse post, o texto da orelha. Mas isso é porque fui eu mesma quem escreveu a orelha, bobinhos, então eu posso. Não é justo?
Boa semana para todos.
segunda-feira, 18 de janeiro de 2010
Sonífera ilha
Estava de férias, meninos. Fui tentar curar o trauma da polissonografia nos mares de Búzios. Dormi bem por lá, aliás. Mesmo a cidade estando lotada e portanto brigando com a memória de Búzios da minha infância, quando a Rua das Pedras era simplesmente uma passagem calma e singela a caminho da Praia dos Ossos, pedindo apenas um chinelo e a cabeça leve (eu vi o Chez Michou nascer, crianças, mas não contem pra ninguém), tive a certeza de que Búzios é sempre Búzios. O clima mágico está no vento, no cheiro de maresia, no relógio que lá funciona diferente. Que se danem as boates da vida que levam até a Rua das Pedras mulheres maquiadas e usando saltos altos impensáveis. O balneário continua lindo e rindo de todo aquele fuzuê.
Agora a parte II: estava então relaxada, com areia nas ventas, quando fui buscar o resultado do meu exame, o do sono. E deixei lá, no balcão de atendimento, todos os resquícios de maresia que ainda acalentavam meus neurônios. Confesso que levei um certo choque. Durmo mal à beça, cambada! Logo eu que sempre fui tachada de dorminhoca e que tenho orgulho de conseguir acordar ao meio dia de vez em quando!
A julgar pelo exame, é surpreendente que eu esteja de pé. Em menos de três horas de sono tive oito despertares, o que torna a eficiência do sono muito baixa. Meu aproveitamento do descanso é de parcos 45%. Como se não bastasse, eu simplesmente não chego até a fase REM, pulando a última e mais importante etapa do sono. Sentença final do exame, escrita em letras garrafais: insônia. Ai que vontade de voltar pra Búzios.
Mas agora fico aqui matutando que deve ser por cabular a etapa REM que lembro tanto de sonhos, e várias vezes por noite, fato que, aliás, sempre considerei muito interessante. Tenho vários cadernos de anotações de sonhos e alguns me ajudam quando quero escrever minhas bobagens. Só não sabia o preço que pagava por isso. Vem aí então um dilema à la Oliver Sacks: melhoro a minha qualidade de vida e esqueço meu sonhos ou continuo um zumbi criativo?
Veremos. Boa noite pra vocês. Por aqui está difícil.
P.S. O meu marido ficou muito preocupado ao ver a perna cabeluda dele publicada aqui. Ficou com medo de vocês me acharem um travesti ou algo parecido. Fica aqui então o aviso. Não sou a Claudia Raia mas garanto que as minhas pernas são mais bonitas, meninos.
quarta-feira, 6 de janeiro de 2010
Boa noite e boa sorte
Era para eu ter tido vergonha de tentar de novo. E tive. E acho que foi justamente ela, a vergonha, que me fez conseguir ir até o fim dessa vez. Foi duro. Traumatizante. Algo que só vou gostar de contar para os meus netos, que provavelmente rirão de tal experiência bizarra da Idade Média. Já os filhos podem querer sair de casa ao sabê-la, portanto é mais seguro pular uma geração.
Como vocês já sabem, sofro de uma espécie de fadiga crônica que se intensifica a cada virada de ano. Não que eu não precise encomendar um guindaste todos os dias para ser arrastada da cama, mas é que nessa época a coisa fica muito feia. E é sempre nessa época, portanto, que tomo providências mais objetivas a respeito. Depois de fazer exames de sangue para eliminar a hipótese de anemia, fazer acupuntura, acender algumas velas e plantar meia bananeira (essa eu explico depois), encarei a última cartada: fazer uma polissonografia.
O nome parece inofensivo mas acreditem, o ritual é macabro. Dizem que você vai apenas dormir numa clínica e ter o seu sono monitorado, mas é mentira. A verdade é que você vai ser preparado e besuntado para ter seu cérebro picado em pedacinhos por extraterrestres canibais.
Da primeira vez que tentei ir até o fim, travesseiro e livro de cabeceira debaixo do braço, agüentei o suspense até ouvir do atendente muito habilitado os detalhes do exame. Quando ele saiu do quarto dizendo que voltaria em breve para me preparar, fui até o banheiro (tem câmera no quarto, bobinhos) e troquei de roupa. “Vamos lá?”, ele disse, entrando de novo no quarto. Vamos, respondi. Vamos para casa.
Daí o cansaço persistiu e bateu uma certa consciência pesada. Como eu poderia voltar ao médico de mãos abanando e falar, com carinha de coitada, que não conseguira fazer o exame? Não, senhores. Eu tinha uma obrigação moral com aquele desafio. Era agora ou nunca.
Quando cheguei na recepção, travesseiro e livro de cabeceira debaixo do braço de novo, fui recebida pelo mesmo atendente. Confesso que, apesar da vergonha, gostei de ver que era o mesmo cara. Exames como esses pedem uma certa cumplicidade, meninos. “E aí, dessa vez você vai ficar?”, perguntou. “Não sei, depende, talvez, vamos ver...”, respondi. Eu, hein, precisava deixar o caminho livre, gente!
Sentei numa poltrona, ele sacou um pente de cabeleireiro e, como tal, começou a separar mechas do meu cabelo. Entre elas colocou uma pasta gosmenta que até hoje não saiu direito, aplicou eletrodos e colou-os com uma substância que tinha tanto cheiro de éter que devia ser éter. Fiquei lá, meio grogue, e comecei a me divertir perguntando quais as cenas mais bisonhas que ele já havia presenciado por lá. Ri de várias histórias, soube que o meu caso era fichinha e, quando ele acabou e pude me olhar no espelho, não resisti. Ele precisava tirar uma foto.
Fiquei em pé esperando o clique mas ele dirigiu a cena muito melhor: “Deita na cama que vai ficar mais legal”, sugeriu, colocando ainda no meu dedo indicador esquerdo um aparelho que servia para registrar a minha oxigenação e também para me fazer brincar de E.T. phone home, porque ele fazia piscar uma luzinha vermelha. Sim, eu estava meio infantil. Devia ser porque ele me contara que, naquele dia, havia na clínica uma menina de nove anos. Entendi o recado. Se uma menina de nove anos podia fazer aquele exame, eu também podia.
Eu poderia postar a foto aqui, crianças, mas tenho medo de afugentar os meus seis fiéis leitores. Por favor não insistam.
A duras penas consegui dormir três ou quatro horas. É muito para quem está com quatro eletrodos na cabeça, um na testa, um no queixo, um no pescoço, uma faixa no tórax, uma no abdômen e mais dois eletrodos nas coxas. Ah, sim, e com um cabinho no nariz.
É claro que você acorda com dor de cabeça. É claro que você tem que apertar uma campainha para chamar o atendente antes de sequer pensar em levantar para ir ao banheiro, coisa que você faz apenas com uma mão, porque a outra está ocupada em segurar duas dezenas de fios ligados a uma caixa com outras dezenas de botões – nada dá choque, no entanto, fato que, uma vez avisado, me acalmou deveras.
É claro que nada, até hoje, me cansou tanto como esse exame. Nem fazer dois livros ao mesmo tempo é tão extenuante. Estou quase torcendo para ver algo de grave no resultado para que tenha valido a pena todo o drama.
O resultado sai na semana que vem. Se eu conseguir levantar até lá, conto pra vocês.
E Robson, onde quer que você esteja, muito obrigada!
Como vocês já sabem, sofro de uma espécie de fadiga crônica que se intensifica a cada virada de ano. Não que eu não precise encomendar um guindaste todos os dias para ser arrastada da cama, mas é que nessa época a coisa fica muito feia. E é sempre nessa época, portanto, que tomo providências mais objetivas a respeito. Depois de fazer exames de sangue para eliminar a hipótese de anemia, fazer acupuntura, acender algumas velas e plantar meia bananeira (essa eu explico depois), encarei a última cartada: fazer uma polissonografia.
O nome parece inofensivo mas acreditem, o ritual é macabro. Dizem que você vai apenas dormir numa clínica e ter o seu sono monitorado, mas é mentira. A verdade é que você vai ser preparado e besuntado para ter seu cérebro picado em pedacinhos por extraterrestres canibais.
Da primeira vez que tentei ir até o fim, travesseiro e livro de cabeceira debaixo do braço, agüentei o suspense até ouvir do atendente muito habilitado os detalhes do exame. Quando ele saiu do quarto dizendo que voltaria em breve para me preparar, fui até o banheiro (tem câmera no quarto, bobinhos) e troquei de roupa. “Vamos lá?”, ele disse, entrando de novo no quarto. Vamos, respondi. Vamos para casa.
Daí o cansaço persistiu e bateu uma certa consciência pesada. Como eu poderia voltar ao médico de mãos abanando e falar, com carinha de coitada, que não conseguira fazer o exame? Não, senhores. Eu tinha uma obrigação moral com aquele desafio. Era agora ou nunca.
Quando cheguei na recepção, travesseiro e livro de cabeceira debaixo do braço de novo, fui recebida pelo mesmo atendente. Confesso que, apesar da vergonha, gostei de ver que era o mesmo cara. Exames como esses pedem uma certa cumplicidade, meninos. “E aí, dessa vez você vai ficar?”, perguntou. “Não sei, depende, talvez, vamos ver...”, respondi. Eu, hein, precisava deixar o caminho livre, gente!
Sentei numa poltrona, ele sacou um pente de cabeleireiro e, como tal, começou a separar mechas do meu cabelo. Entre elas colocou uma pasta gosmenta que até hoje não saiu direito, aplicou eletrodos e colou-os com uma substância que tinha tanto cheiro de éter que devia ser éter. Fiquei lá, meio grogue, e comecei a me divertir perguntando quais as cenas mais bisonhas que ele já havia presenciado por lá. Ri de várias histórias, soube que o meu caso era fichinha e, quando ele acabou e pude me olhar no espelho, não resisti. Ele precisava tirar uma foto.
Fiquei em pé esperando o clique mas ele dirigiu a cena muito melhor: “Deita na cama que vai ficar mais legal”, sugeriu, colocando ainda no meu dedo indicador esquerdo um aparelho que servia para registrar a minha oxigenação e também para me fazer brincar de E.T. phone home, porque ele fazia piscar uma luzinha vermelha. Sim, eu estava meio infantil. Devia ser porque ele me contara que, naquele dia, havia na clínica uma menina de nove anos. Entendi o recado. Se uma menina de nove anos podia fazer aquele exame, eu também podia.
Eu poderia postar a foto aqui, crianças, mas tenho medo de afugentar os meus seis fiéis leitores. Por favor não insistam.
A duras penas consegui dormir três ou quatro horas. É muito para quem está com quatro eletrodos na cabeça, um na testa, um no queixo, um no pescoço, uma faixa no tórax, uma no abdômen e mais dois eletrodos nas coxas. Ah, sim, e com um cabinho no nariz.
É claro que você acorda com dor de cabeça. É claro que você tem que apertar uma campainha para chamar o atendente antes de sequer pensar em levantar para ir ao banheiro, coisa que você faz apenas com uma mão, porque a outra está ocupada em segurar duas dezenas de fios ligados a uma caixa com outras dezenas de botões – nada dá choque, no entanto, fato que, uma vez avisado, me acalmou deveras.
É claro que nada, até hoje, me cansou tanto como esse exame. Nem fazer dois livros ao mesmo tempo é tão extenuante. Estou quase torcendo para ver algo de grave no resultado para que tenha valido a pena todo o drama.
O resultado sai na semana que vem. Se eu conseguir levantar até lá, conto pra vocês.
E Robson, onde quer que você esteja, muito obrigada!
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